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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Vamos falar sobre isto de envelhecer?

Envelhecer parece sempre uma coisa má. É assim que nos apresentam a coisa. O mundo só tem lugar para os novos, para os dinâmicos, para os que estão cheios de vontade de comer o mundo. No outro dia soube que uma amiga de uma amiga foi rejeitada para um emprego de responsabilidade para o qual era absolutamente talhada porque a directora achou que ela era velha. Sucede que eu conheço a directora (que caminha a passos largos para a "velhice") e a amiga da minha amiga, que se candidatava ao lugar, tem 40 e picos. Aquilo chocou-me mas, na verdade, nem sei porquê. Afinal, todos sabemos que se alguém calha a ficar sem emprego aos 40 anos, o mais certo é estar completamente entalado (e aos 50 o melhor é preparar-se para uma verdadeira travessia no deserto). Mas talvez por saber o tanto que ela vale, e a experiência que ela tem senti-o como uma afronta.

Mas não é só a nível profissional que envelhecer é tramado. E nem sequer me refiro ao envelhecer mais tardio, que traz outro tipo de dissabores de carácter físico e mental. Falo mesmo disto dos 40 e picos, 50 anos, em que as pessoas têm ainda tanto para dar mas parecem já condenadas a um certo olhar de comiseração. Para uma mulher, então, é terrível. Aqui no blogue acontece por vezes alguém dizer que "estou velha" como se "estar velha" fosse um insulto. "És uma velha". Ok... E???? As pessoas parecem esquecer-se de que a idade é como as manhãs - quando nasce é para todos. E o mesmo epíteto com que brindam os outros será aquele que receberão em breve. Sim, em breve, porque isto é tudo muito breve mesmo. Ainda ontem estava na faculdade, e agora tenho um filho quase a entrar para a faculdade. Como assim??

Uma mulher envelhece e passa a estar sob um escrutínio medonho. Porque está acabada, porque emagreceu e agora está pendurada no pescoço, porque engordou e parece uma vaca velha, porque está tão bem que é óbvio que está mexida, porque disse não sei o quê e por isso já deve estar "gagá", porque usou um vestido que "claramente não é para a sua idade", porque apareceu transpirada e deve estar na menopausa. 

Até o termo "menopausa" foi criado, cá para mim, por uma pessoa com muitos preconceitos com a idade. Senão vejamos no dicionário o significado de Pausa: "breve interrupção; descanso; intervalo". Really? Não se trata de uma breve interrupção, de um descanso, de um intervalo, minha gente! Trata-se efectivamente do fim de um tempo, comprovado, de resto, também pelo nosso amigo dicionário: "cessação definitiva da menstruação, quando deixa de haver secreção hormonal e ovulação". Lá está. Fim, não pausa.

Os próprios cremes de beleza enaltecem as suas propriedades "anti-idade", como se a idade fosse de facto algo de profundamente nefasto que urgisse combater a todo o custo.

No outro dia, em conversa com uma amiga, ela contava-me que a maior parte dos homens à cata de mulheres em plataformas de encontros nunca buscam mulheres mais velhas. E até os cinquentões e sexagenários admitem, no formulário que preenchem para se inscreverem nas ditas plataformas, que talvez gostassem de vir a ter filhos com as novas companheiras. Algo que, claramente, as mulheres com a mesma idade não poderão fazer. Há, nisto das idades, uma diferença substancial que reside justamente na questão da fertilidade. Os homens podem ser pais até ao fim das suas vidas. As mulheres não. E mesmo que as mulheres não o queiram, não tenham mais vontade de continuar a procriar, esta sensação de "prazo de validade" é absolutamente pungente. E faz mossa. Custa a engolir. 

Tenho muita pena que vivamos numa cultura que agride quem envelhece, que não sabe apreciar a beleza de cada idade. Até porque não é algo que possamos controlar e, mais do que isso, é algo tão inevitável como a sede. A menos que tenhamos azar, e morramos prematuramente de acidente ou doença, vamos todos envelhecer. E isso não é mau, pessoas. É bom. É sinal de que já vivemos um bocado, é sinal de que temos outra maturidade, outra confiança, outro conhecimento de nós mesmos e dos outros. Não temos de nos sentir fora de circuito, ainda que todos os sinais nos indiquem que sim. Não temos de ter vergonha da nossa idade, ainda que toda a sociedade nos torça o nariz. Não, a vida não começa aos 40, assim como não começa aos 50. Mas também não tem de acabar.

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