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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Uma surpresa. Uma outra vida

O meu sogro, de vez em quando, surpreende-me com pequenos gestos de um carinho imenso. De um cuidado que me comove, sobretudo porque aparentemente não é homem dado a grandes demonstrações de afecto. E no entanto...

No domingo veio jantar e trouxe uma pastinha que dizia DNA - 1999. Lá dentro, alguns dos meus artigos no DNA (suplemento do Diário de Notícias que existiu entre 1996 e 2006) desse ano. Conheci o Ricardo em 1998, já trabalhava no DNA havia 2 anos, e o meu sogro começou a guardar alguns artigos desde 1999. Não fazia ideia. 

Olhei para aquela capinha, com a indicação dos artigos que continha, e tive de controlar a emoção. Tenho todos os DNAs na minha arrecadação mas é raro ir lá revisitá-los. E quando acontece... fico sempre comovida com esse reencontro.

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Ao reler os artigos da pasta, encontrei uma entrevista que fiz a Zita Seabra. Na altura, estava ainda muito latente a sua viragem à direita, até porque tinha sido apenas no ano anterior (1998) que se tinha filiado no PSD.

Esta entrevista foi feita há 18 anos. Eu tinha 25 anos. Parece que foi numa outra vida. Tenho tantas saudades.

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 Eis a entrevista transcrita, para quem queira recordar: 

 

Entrevista de Sónia Morais Santos

Fotografia de Steve Stoer

 

Zita Seabra era ainda uma gaiata quando se tornou militante do Partido Comunista Português. Aos 17 anos, obrigada a viver na clandestinidade, deixou para trás casa, família, amigos, o próprio nome, e o sonho de vir a ser bailarina. Hoje, diz que não se arrepende dessas e de outras privações, apesar de ainda guardar a mágoa de não ter continuado a dançar.

Foi num prédio velho do Bairro Alto que Zita Seabra recordou com o partido de que foi militante activa durante 24 anos.

De comunista ortodoxa a social-democrata convicta, de revolucionária empenhada a furiosa antagonista dos próprios ideais da revolução, Zita Seabra assume o seu percurso sem meias palavras, sem pudor em admitir que algumas das suas atitudes têm um lado provocatório, uma espécie de ajuste de contas com o passado, uma vingança. Uma conversa à volta da coerência, ou da falta dela.

Que idade tinha, quando começou a interessar-se pela política?

- A idade certa não sei, mas foi muito cedo. Aliás, em casa discutia-a política com frequência. Lembro-me que, no Natal, a família se reunia toda a previa sempre que aquele era último Natal da ditadura, que no ano seguinte já estaríamos em liberdade. É claro que passei dezenas de Natais a ouvir previsões optimistas que depois nunca se verificavam. Mas era um tema obrigatório.

Aos 15 anos tornou-se militante do PCP. Era realmente um outro tempo. Hoje são raros os jovens que, aos 15 anos, se interessam por política...

- Era completamente diferente. A asfixia em que vivíamos empurrava-nos para a política, o que hoje, felizmente, não acontece. Lembro-me que a primeira luta em que participei foi pelo direito das raparigas a usarem calças, no liceu, que é uma questão completamente ridícula vista hoje. Ridícula e distante.

Orgulha-se de pertencer a uma geração que tinha todas essas lutas por se bater?

- Orgulho. Foi uma geração muito empenhada, muito crente. Nós acreditávamos seriamente que o amanhã seria um amanhã risonho, justo, melhor. Havia um grande sentimento de solidariedade e de dádiva. Era empolgante, sentíamos que valia a pena dar uma grande parte de nós próprios em nome desses ideais. Claro que, olhando hoje, congratulo-me por muitos desses ideais não terem vencido. Porque, em muitos casos, hvia sinais de totalitarismo óbvio.

Lembra-se do dia em que se filiou no partido?

- Lembro-me dos dias. Tinha 15 anos, quando um grupo de amigos me passou um livro de leitura obrigatória, porque proibido, do Jorge Amado, "Subterrâneos da Liberdade". Achei um livro fantástico e quis seguir politicamente aqueles heróis que tinha acabado de ler no livro. Foi assim que procurei entrar para o Partido Comunista e, passados três meses, estava no PCP.

Com que olhos via essa filiação, na altura?

- Com os olhos de quem queria mudar o mundo, de quem queria endireitá-lo. Torná-lo mais justo.

Com que olhos é que a vê hoje?

- Com os olhos de quem sente que valeu a pena.

O que é que diziam os seus pais a essa militância activa?

- Compreendiam perfeitamente. É claro que foi um choque muito grande para eles quando passei à clandestinidade. De repente, uma filha única sair de casa para vivier uma vida de clandestina, correndo o risco de ser presa, é um grande desgosto. Mas é preciso ver o enquadramento. Naquele tempo as pessoas sabiam que certos sacrifícios eram necessários e tinham a certeza de que aquilo, um dia, tinha fim.

Teve sempre essa certeza?

- Tinha a certeza absoluta.

Tinha 17 anos, quando passou à clandestinidade. Fazia alguma ideia do que a esperava?

- Não. Nenhuma. Comecei por passar dois meses em Paris e, mesmo então, fiquei a fazer apenas uma ideia muito vaga. Só depois, já em Portugal, é que percebi como era viver em clandestinidade.

E como era?

- Era uma vida de muitas privações, de muita contenção, de muita cautela para não dar pistas. Durante oito anos vivi com um nome falso, uma identidade falsa e, de vez em quando, tinha de largar tudo, mudar de terra, mudar de imagem, mudar de B.I. Era uma insegurança permanente. Além disso, havia as dificuldades normais, como não ter o que comer, nem o que vestir. Durante os anos de clandestinidade comi doses de frango assado que me chegaram para a vida inteira. Ganhei verdadeiro ódio a frango assado.

Não se sentia um bocadinho uma heroína romântica?

- Também tinha um lado de heroína romântica porque, de contrário, não sobreviveria. Mas era muito desgastante.

O que foi mais difícil de suportar?

- A distância da família e dos amigos.

Em oito anos nunca viu os seus pais?

- Vi-os uma vez.

Mas falavam-se ou nem isso?

- Recebia cartas e mandava cartas. Ma nunca falei com eles.

Imagino que devia sentir-se bastante infeliz...

- Sim, às vezes. Sobretudo em datas especiais, como o Natal e os aniversários. Em circunstâncias normais, essas datas parecem, por vezes, não fazer muito sentido, não ter muita importância. Mas, quando se está longe, sente-se muito a falta. Eram esses os momentos mais dolorosos.

Acha que, de alguma forma, esses anos foram positivos para a sua formação?

- Muito positivos. Deram-me uma grande autodisciplina, um enorme conhecimento dos outros e um profundo desejo de liberdade. Passei a dar à liberdade, à família e à minha casa, um valor que não dava antes.

Nunca pensou desistir?

- Não. Tive momentos de fraqueza, tive momentos de medo, tive momentos de saudade, mas sou demasiado teimosa para desistir seja do que for.

Não sente hoje que desperdiçou os melhores anos da sua vida?

- Não. Vivi-os muito intensamente. Não foi um desperdício, pelo contrário. Foi uma vivência muito empolgante e de uma grande entrega.

Valeu a pena.

- Valeu. Sem dúvida nenhuma.

Nessa altura, o que é que sonhava ser?

- O meu grande sonho era ser bailarina.

Quando é que percebeu que não poderia concretizá-lo?

- Quando passei à clandestinidade. Foi então que tomei a grande opção da minha vida: ou seguia o bailado e concretizava o meu sonho, ou me entregava àquela luta.

Ainda tem esse desgosto, hoje?

- Ainda. Teria gostado muito de ser bailarina. Mas, é assim... não se pode ter tudo.

Durante esses anos, controlava o sector estudantil, primeiro do Porto, depois de Lisboa. Concorda quando a acusam de ter sido muito dura, demasiado ortodoxa?

- É evidente que para controlar um sector como o estudantil que era, por si, cheio de desvios e tendências para desvios, tinha de haver dureza e regras muito rígidas. Estamos a falar do PCP e essas eram as regras da casa. Eu limitava-me a cumpri-las escrupulosamente.

O que a levou a entrar em ruptura com o PCP, depois de 24 anos de militância?

- É um processo que começa sempre da mesma forma. Começa por se pôr em causa o funcionamento do partido, por tentar democratizá-lo um bocadinho, por pôr em dúvida a questão dos votos  de braço no ar e sugerir o voto secreto, começa a questionar-se a eleição dos dirigentes... é sempre assim que começa. E depois quando começa... não acaba mais. Aliás, é este caminho que, desde 1917 até agora, tem sido seguido por todos os dissidentes.

E quando é que começou esse processo?

- Começou dois anos antes de ser expulsa - portanto, em 1987 - com uma conferência sobre as mulheres, na qual entrei em divergência com o resto da direcção do PCP. A partir daí começou a instalar-se um certo mal estar e dei por mim a perguntar: "Mas o que é que eu estou aqui a fazer? O que é que tenho em comum com as pessoas que aqui estão?" E a certa altura o processo é imparável.

Mas apenas dois anos antes, em várias entrevistas que deu, recusava terminantemente a ideia de que o PCP fosse um partido velho e defendia a sua coerência ao longo dos anos. E, no entanto, tão pouco tempo depois, veio dizer que era urgente uma renovação.

- Repare, há uma fase em que, evidentemente, começo a ter divergências internas mas, nas entrevistas que dou, digo tudo o que se espera que um membro do PCP diga. Ou seja, existem uma série de dúvidas que começam a ser colocadas, mas apenas internamente. E, nas primeiras eleições em que o professor Cavaco Silva tem maioria absoluta, eu já estou claramente em divergência com o partido. O meu objectivo, até 1989, era renovar o PCP.

Era mesmo?

- Até 1989 era, claramente, renovar o PCP. Era um objectivo produndamente sincero.

Se calhar pensava que queria renovar o PCP mas, no fundo, já não acreditava em nada daquilo, já não era comunista coisa nenhuma.

- Não, não. Eu acreditava na renovação do PCP. Tanto que, quando fui expulsa da Comissão Política, nem queria acreditar, fiquei chocada. Porque ainda era profundamente comunista e acreditava na renovação.

Mas, é curioso que deixou de ser comunista pouco tempo depois.

- Exactamente. Sabe que, depois, o processo é rápido. O que, aliás, acontece a muita gente. Eu fiquei gravemente doente durante 6 meses e, então, comecei a ler aquilo que normalmente não lia por uma questão de autocensura, absolutamente normal quando se está numa relação ideológica como aquela. E começo, com o meu grupo de amigos, a discutir aquilo que se estava a passar no Leste. Daí à ruptura final é muito rápido.

No dia em que foi expulsa da Comissão Política, o que é que sentiu?

- Um choque tremendo que me levou ao hospital. Entrei na urgência do Hospital Magalhães Coutinho pouco depois da expulsão. Fiquei absolutamente em choque, caiu-me a alma aos pés.

Mas, com todas as críticas que fez ao partido, não esperava que fosse punida?

- Houve um momento em que acreditei que ia convencer o Dr. Cunhal a renovar um bocadinho o PCP. Depois, fui-me apercebendo de que ia ser um nome sonoro para dar o exemplo aos militantes de que não ia haver renovação nenhuma. Em todos os partidos comunistas se tem agido assim. Escolhe-se um, e é aquele que dá o exemplo. Mas foi extremamente doloroso. Entrar na sede do PCP, onde sempre trabalhei, e ninguém me falar? Haver uma distância  quando tomo a bica? Ninguém se sentar ao meu lado? Antes de ser expulsa, estive ainda dois ou três meses sem que ninguém me falasse. E foi um choque enorme.

Depois resolveu "esticar a corda" até ao limite. Quando publicou aquele artigo no DN, a propor a mudança de nome do partido, a alteração do seu programa e objectivos e a demissão em bloco da sua liderança, calculou certamente que ia provocar uma reacção violenta...

- Sim, sim. Isso já era a absoluta provocação para ser expulsa.

Depois de ter sido expulsa disse que, perante aquele artigo, Cunhal não tinha opção: ou se demitia ou expulsava-a. Não acreditava mesmo que ele se demitisse, pois não?

- Não. É evidente que não. Agora, é óbvio que me tinha tornado absolutamente incómoda e, portanto, só havia essa saída. E nota-se nas próprias reacções do Dr. Cunhal. Quando lhe perguntam por mim, ele não responde da mesma maneira do que quando lhe perguntam por outras pessoas. Até porque me conhecia muito bem, trabalhámos muito próximos...

Para ele deve ter sido um choque.

- É natural que sim.

O que é que ele lhe disse, no dia em que foi expulsa do partido?

- Foi dizendo várias coisas, muito características dele. Há um momento em que não disse nada, mas agiu. E foi um gesto que não deixava dúvidas sobre o que me ia acontecer a seguir. Felizmente que estávamos num país em que o PCP não era poder senão também saberia o que me ia acontecer a seguir. Eu tinha ido alugar uma sala para um comício do PCP, devo ter demorado umas duas horas e, quando voltei, o meu gabinete, que era em frente ao do Dr. Cunhal, não era o mesmo. As minhas coisas tinham desaparecido da sala e a chave não abria a porta. Portanto, no espaço de duas horas, todas as minhas coisas foram mudadas para outro andar.

Um andar abaixo, certamente.

- Foi. Desci do 6º para o 3º ou 4º, já nem sei.

E que tipo de coisas lhe disse?

- Quando fui expulsa da Comissão Política, fui-lhe levar as chaves do carro, a que tinha direito por ser da direcção, e ele virou-se para mim e disse: "Nunca mais serás nada na vida".

O que é que sentiu nesse momento?

- Medo. Algum medo.

 

Medo?

- Sim. Porque sei que aconteceu isso a muita gente antes de mim. Houve muitos militantes, ao longo de toda a história do PCP, que foram expulsos ou foram saindo e que foram completa e totalmente ostracizados.

E, na altura em que era militante, não concordava com essa atitude de votar os dissidentes ao ostracismo?

- É evidente que concordava, de contrário não pertencia ao partido. Mas quando nos acontece a nós... arrepia e a gente acha mal.

Quando se tornou dissidente, foi falar com essas pessoas, que ajudou a votar ao ostracismo?

- Fui.

Pediu-lhes desculpa?

- Sim.

E eles desculparam?

- Não sei. Nunca se sabe.

Como é que se lida com o facto de deixar de acreditar numa ideologia que professou uma vida inteira?

- É como perder a fé. Põe-se tudo em causa. E, além de ter posto tudo em causa, tive que recomeçar tudo outra vez. Porque não tinha profissão, porque os meus amigos eram aqueles que deixaram de me falar... Foi preciso reconstruir tudo.

É como nascer outra vez?

- É. Tive que nascer outra vez.

Dos seus ex-camaradas que lá ficaram, algum lhe fala hoje?

- Não. Aliás, é contra todas as regras. Se algum dia me falarem, é sinal de que o PCP mudou.

Porque é que aceitou o convite de Cavaco Silva, em 93, para coordenar o Secretariado Nacional para o Audiovisual?

- Porque achei o convite um desafio interessante. Eu estava a trabalhar na área da cultura, na editora Quetzal, e achei um convite interessante.

Vindo de quem vinha.

- Vindo de quem vinha. E gostei de estar no IPACA. Foi um período muito violento, foram os últimos anos do governo PSD...

Os anos mais contestados e criticados. Os anos do declínio.

- Pois, mas foi um período interessante.

Mas concorda que é estranho tê-lo aceite...

- Não. Porquê?

Porquê? Então, passou anos e anos a contestar o PSD, a criticar o professor Cavaco Silva...

- Está bem, mas também passei anos e anos a defender o PCP e, um dia, deixei de me identificar com a ideologia.

Mas foi cá uma viragem...

- Se reparar, o percurso normal de qualquer dissidente que fez um corte ideológico é assim, no resto da Europa. Não ficam a meio caminho. E a imensa maioria daqueles de quem eu gosto e por quem tenho admiração fez esse percurso. Não transitaram primeiro para o Partido Socialista para depois passarem para outro partido e assim sucessivamente. O meu percurso é muito comum. O que não é vulgar é uma pessoa sair silenciosa e entrar, também silenciosamente, no partido do lado.

O que é facto é que, quando aceitou o convite, fez questão de sublinhar que se tratava de um cargo político e não partidário.

- E era.

Está bem, mas se estivesse absolutamente contra o governo não o poderia ter aceite, não é? Por uma questão de princípio.

- Sim, claro. Mas aceitei o cargo como independente, só me filiei agora.

Dizia muitas vezes que o principal motivo que a tinha levado a aceitar o convite de Cavaco Silva era dar uma lição de pedagogia, no sentido de tornar claro que uma pessoa, por ser dissidente comunista, não está excluída de sítio nenhum...

- Olhe, dei uma lição tão grande que hoje todos os dissidentes estão nos cargos mais variados. Ninguém está ostracizado. Acho que fiz um bem imenso. E, se reparar, todos os outros saíram pacificamente. Só eu é que fui atacada. Digamos que fiz uma boa acção. Não suportava a ideia de trazer uma cruz atrás das costas por ter sido militante do partido.

Não acha que vai trazer sempre essa cruz?

- Eu não quero deixar de ter o passado que tive. Nunca o escondi. E não fiz o que outros fizeram de dizer que tinham estado lá mas sempre contra o Leste, o que é uma redonda mentira! Sempre fui transparente. Sou assim, tenho este passado. Aceitam-me, muito bem. Não aceitam, boas festas!

Mas, por essa ordem de ideias, se aceitou o cargo para dar uma lição de pedagogia, teria aceite fosse qual fosse o partido que estivesse no Governo.

- Não. Senti uma grande honra de ter sido convidada pelo professor Cavaco Silva e...

Quem diria!

- Eu acho muito curioso que ninguém faça essas observaçõesa outros dissidentes. Deve ser o meu calvário.

Há-de convir que deu um salto extraordinário, da esquerda convicta para a direita...

- Não sei se o Partido Comunista é de esquerda. Não sei.

Como?

- Não sei. Aliás, se for a Moscovo, eles estão sentados à direita. E são considerados de direita.

Portanto, acha que o PCP é um partido de direita.

- Acho que um partido comunista português ou outro qualquer não é um partido de esquerda, é um partido totalitário. E a esquerda não é totalitária.

Então, para si, não há nenhum partido de esquerda em Portugal?

- Neste momento não sei se há. Acho, por exemplo, que o professor Marcelo Rebelo de Sousa está claramente mais à esquerda do que o engenheiro António Guterros. Neste momento, é difícil fazer a distinção, digo-lhe claramente. Acha normal que, num governo de esquerda, existam três ministros que vão de helicóptero para uma feira do fumeiro entregar o prémio do melhor salpicão? É um governo que está visivelmente fascinado pelo grande capital. Portanto acho que temos um governo de novos-ricos.

Voltando ao convite de Cavaco Silva. Não acha que foi um convite perverso?

- Não. Se achasse perverso não tinha aceite.

Portanto, não acha que foi usada como um trunfo do PCP?

- Não, não. Fiz por isso.

Fez por isso? Como? Nunca tinha trabalhado em nada que tivesse a ver com o cargo para o qual foi convidada, não era militante do PSD, muito pelo contrário...

- Desde que saí do PCP sempre trabalhei na área da cultura...

Mas não na do audiovisual.

- Mas trabalhava na cultura. E, olhando objectivamente, não se tratava de escolher ou aprovar os filmes, tratava-se apenas de gerir os meios financeiros de que o Estado dispunha para apoiar o cinema.

Mas ficou surpreendida com o convite...

- Não. Falámos muitas vezes antes, por isso não fiquei surpreendida.

Na altura disse que sim, que tinha ficado surpreendida.

- Surpreendida... Não. Quer dizer.. Era natural que ele me fizesse o convite porque já tínhamos falado várias vezes antes.

Há pouco dizia achar curiosas as observações que lhe fazem sempre sobre o seu percurso. Mas repare: em 1988, apesar de ter sido expulsa do PCP, diz continuar a ser comunista e garante que jamais será anticomunista. Em 1993 aceita um convite de Cavaco Silva mas sublinha que mantém todas as críticas que lhe fez ao longo dos anos e frisa que é independente. Em 1995 admite a possibilidade de se filiar no PSD. Em 1997 candidata-se pelo PSD à câmara de Vila Franca de Xira. E em 1998 filia-se no PSD. Seja sincera e diga-me: não acha que há aqui uma falta de coerência muito grande?

- Não. Acho que há um percurso normal e natural de uma pessoa que se libertou.

E de que maneira! Em tão pouco tempo.

- Não sei se o tempo se mede aí, não sei quanto tempo é que é obrigatório esperar. Só espero é que confronte isso com cada pessoa que saiu do PCP. Porque, e que insisto, a única pessoa que é confrontada com essas questões sou eu. Só espero é que haja outros a serem confrontados. Porque então, vistas as coisas, cada pessoa que quisesse sair do PCP tinha que ficar em casa muito sossegada ou tinha que ir lavar escadas. Não, as coisas não têm de ser assim. Eu não tenho ambições políticas e...

Não tem?

- Não. Gosto muito da minha actividade profissional e sempre que me meto na política fico furiosa comigo mesma. Porque gosto da política. Não vivo da nem para a política, mas gosto. E, de vez em quando, não lhe resisto. É uma espécie de tentação, como um fumador que deixa de fumar mas, de vez em quando, fuma um cigarro.

Não é também por ambição?

- Não.

Como é que pôde viver tanto tempo enganada?

- Coloco essa questão a mim própria tantas vezes... Porque é que não vi tudo isto antes? Mas é assim; as pessoas têm os seus tempos.

Acreditava mesmo que ia ser eleita para a Câmara de Vila Franca de Xira?

- Achei que o desafio de me candidatar às autárquicas era muito interessante. Mas disse logo que só me candidatava a uma câmara onde fosse impossível ganhar. Porque não conseguiria conciliar a minha actividade profissional com a actividade de presidente de câmara.

Candidatou-se sabendo que não ia ganhar?

- É evidente. O PSD tinha menos de 20%.

Então por que é que o fez?

- Porque achei que podia dar um contributo interessante à campanha eleitoral e porque não resisto a um desafio.

Ó Zita Seabra, vai desculpar-me mas, candidatar-se pelo PSD a uma câmara tradicionalmente comunista como Vila Franca de Xira, soa mesmo a provocação. Foi uma provocação?

- Digamos que também teve um lado provocatório, sim.

Admite que sim.

- Admito que sim.

Terá sido também uma necessidade de provar a Álvaro Cunhal que estava enganado quando lhe disse "Nunca mais serás nada na vida"?

- É óbvio. É evidente.

De resto, em todo o seu percurso pós-PCP parece haver alguma necessidade de vingança, ou não?

- Alguma necessidade de vingança, admito que tenho. Também fui bastante maltratada. Mas o que senti, essencialmente, foi uma necessidade de não sair calada, de não sair silenciosamente. No fundo, quis fazer um ajuste intelectual de contas com o passado. É uma obrigação que sinto ter para comigo e para com todos aqueles em cujas vidas interferi. Porque não me esqueci que levei jovens a filiarem-se no partido e, de certa forma, marquei-lhes a vida.

Não compreende que esses jovens que marcou se sintam revoltados por verem que deixou de acreditar em tudo?

- Compreendo perfeitamente. E tenho um profundo respeito por isso.

Como é que reagiu às críticas que lhe fizeram?

- Numa primeira fase mal, mas depois bem. Acho que são críticas normais, nem esperava outra coisa. E depois tudo isto é muito repetitivo, aconteceu o mesmo a tantas pessoas, e com dramas muito maiores.

Tem sempre essa necessidade de dizer que o seu percurso é semelhante ao de muitas outras pessoas. É uma forma de tranquilizar a sua consciência?

- Não. É para se perceber que foi muito mais sério. Começou agora a fazer-se o balanço das vítimas do comunismo, 85 milhões de mortos é um primeiro balanço mas haverá outros. E essas vítimas têm nomes, têm família... Infelizmente parece que não têm memória. E acho muito injusto que não tenham memória, que não tenham monumentos, que não tenham livros, filmes. Há, neste momento, um esforço europeu no sentido de criar um movimento de apoio às vítimas do Leste, às vítimas do comunismo, exactamente para lhes dar nomes, para se conhecer quem são. E acho que isso é positivo. E o que eu sinto é uma necessidade intelectual para contribuir, da forma que me for possível, para esse ajuste.

A propósito, está a fazer um ano que publicou em Portugal "O Livro Negro do Comunismo". Faz parte desse ajuste ou foi outra provocação?

- Não foi uma provocação. É uma necessidade que existe, neste momento, no mundo inteiro. Estão a sair vários livros a esse respeito.

Está bem, mas a Zita Seabra a uma dissidente do comunismo.

- É natural que esteta mais atenta.

Se não é uma provocação, é uma forma de expiar os seus próprios pecados? Porque, de certa forma, os crimes de que fala têm a ver consigo, foram 24 anos de militância.

- É uma forma de matar o pai, sim. Sinto essa necessidade de o fazer. Sentir-me-ia muito mal se passasse por cima disso como cão por vinha vindimada. Sinto uma grade incomodidade e quero contribuir para o debate e para esse balanço do século. Era certamente mais cómodo ficar calada mas.. não dá comigo.

Tem consciência de que não é uma mulher muito respeitada?

- Isso não me incomoda muito. Nunca fiz as coisas a pensar se eram ou não politicamente correctas.

Mas sabe que as pessoas se referem a si como alguém que se fartou de uma vida de contenção e que, por isso, rejeitou a ideologia em que sempre acreditou? Para gozar as coisas boas da vida.

- Isso é um disparate. Se fosse assim nunca tinha entrado para o partido.

Podia ter-se fartado dessa vida de contenção.

- E seria legítimo. Não tenho nata contra aqueles que se fartaram. Comigo nao foi assim, mas..

Mas mudou muito. Hoje é uma senhora, quase "queque". Basta olhar para o seu fato.

- Olhe que não mudei assim tanto. Já quando estava no PCP me acusavam de me preocupar com a imagem mais do que devia. Mas não mudei de casa, tenho o mesmo tipo de vida. Aquilo que me incomoda é quando dizem que estou na política ou que volto à política por uma questão de sobrevivência, ou de carreira. Eu tenho a minha vida profissional de que gosto muito e que é sempre prejudicada cada vez que me meto na política. Só que, de vez em quando, tento-me. É quase irresistível.

Tenciona cumprir o seu mandato em Vila Franca de Xira até ao fim?

- Enquanto for compatível com a minha actividade profissional, sim.

E projectos políticos?

- Espero não me tentar outra vez. Estou muito bem onde estou, trabalhar com livros é um enorme prazer e nunca mais quero depender da política para sobreviver. Isso é ponto assente.

Porque é que deixou de ser independente e se filou no PSD?

- Porque achei que era chegado o momento. Filiei-me num momento difícil para não virem depois dizer que o tinha feito quando o partido estava em subida. Achei que era a altura certa para que o PSD possa contar comigo nesta travessia que esta a fazer com bastantes dificuldades.

Qual é a figura política que mais admira, neste momento?

- A nível nacional? Há várias pessoas de quem gosto. Tenho uma simpatia grande e uma amizade já de alguns anos com a Drª Leonor Beleza, considero que o professor Cavaco Silva foi o melhor primeiro-ministro do país, admiro o professor Marcelo Rebelo de Sousa, acho que é um bom líder para o PSD. E tenho também uma profunda admiração pelo Dr. Mário Soares.

Que idade têm os filhos?

- Uma tem 22 anos, outro tem 21 anos e o pequeno tem 12.

Se algum dos seus filhos quisesse filiar-se no Partido Comunista, tentava dissuadi-lo?

- Não, os meus filhos têm absoluta liberdade para optarem pelo que bem entenderem. Mas acho que isso é impossível, estamos no fim do século XX!

Há alguma coisa de que, realmente, tenha medo?

- De envelhecer, se calhar. A velhice assusta-me. Acho que a sociedade portuguesa vive mal com os velhos.

Assusta-a a ideia de passar os seus últimos anos de vida num lar, por exemplo?

- Achava horrível. E espero que os meus filhos não sejam capazes de o fazer.

Se pudesse voltar atrás, mudava alguma coisa?

- Se quer, com essa pergunta, saber se mudava o meu passado no PCP, respondo-lhe que não. Só acho que devia ter sido dissidente mais cedo e não endendo porque é que não o fiz. Não entendo como é que não consciencializei, mais cedo, a necessidade de cortar com o PCP e de ajustar a minha vida e de me ajustar a mim própria.

 

 

 

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