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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Uma pequena (e inofensiva) vingança

Andei de autocarro durante muitos anos, quando estudava no Colégio Moderno. Ia de Benfica para o Campo Grande, ora no 33 ora no 50, e comecei bem cedo, porque no meu tempo (ui... "no meu tempo") não havia estes receios de que um filho fosse raptado na primeira esquina para ser objecto de algum tarado, ou acabasse num bidão qualquer sem os dois rins e também o fígado. Foi então que fui, algumas vezes, vítima de uma maldadezinha de alguns motoristas (não são todos, há excelentes profissionais, já todos sabemos disso, mas eu agora estou a falar destes) que consistia no seguinte: nós estávamos a correr desenfreadamente para apanhar o autocarro que tinha acabado de chegar à paragem, dávamos o nosso máximo, fazíamos o maior sprint das nossas vidas, e assim que chegávamos à porta... ele olhava para nós e acelerava. Às vezes não chegávamos à porta mas era evidente que ele nos via pelo espelho, e que ouvia os nossos gritos e até as pancadas que dávamos na chapa do seu veículo, mas parecia ter o supremo prazer de arrancar ainda assim. Depois dessa corrida inglória, não era raro termos de ficar 20, 30 minutos à espera do próximo autocarro, muitas vezes à chuva e ao frio.
Aquela mania de alguns (sublinho: ALGUNS!) motoristas, aquele prazer perverso, punha-me doente. Para que raio era aquilo? Para exibirem o seu poder? Perante umas miúdas da escola? Pénis curtos e pouco funcionais, quer-me parecer. Poderá ser uma teoria pouco fundamentada (nunca me dispus a comprovar) mas que parecia... parecia.

Ontem, ia no meu carro a caminho do centro comercial Vasco da Gama, quando vi um autocarro parado na paragem e três miúdas a correr como se fossem cortar uma meta qualquer. Fui-me aproximando do autocarro, sempre de olho nas miúdas, a ver se elas conseguiam entrar. Nesse momento nem me ocorreu que o motorista pudesse arrancar sem elas, não me lembrei dos meus tempos de passageira-que-corre-como-louca-e-fica-apeada-à-porta. E foi então que vi o pisca do autocarro ligar-se e ele inclinar um pouco para a esquerda. E as raparigas a esbracejar. E foi aí que a estudante em mim emergiu das profundezas (mesmo profundas, que já se passaram uns anos valentes) e, sem pensar, bloqueei a saída ao homem da Carris. Fiquei ali, colada a ele, a tapar-lhe a passagem e a apontar para a porta, onde as meninas já tinham chegado e batiam furiosamente. O sacana do homem rosnou qualquer coisa lá de dentro, agitando-se no lugar, enfurecido. Eu continuava ali, a impedir-lhe o caminho e a apontar na direcção das miúdas. O homem não teve outro remédio (tinha o remédio de me passar por cima, mas era capaz de lhe sair demasiado caro): abriu-lhes a porta. E elas entraram. E eu arranquei, com uma satisfação enorme, mais por mim do que por elas. Acho que agora percebo quando se diz que a vingança se serve fria. Esta veio gelada. Mas soube a sopa quente em dia de inverno.

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