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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Uma grande mãe que merece a nossa visita

Ela chama-se Ana Madragoa e é uma mulher incrível. Já a entrevistei duas vezes, uma há quatro anos, outra há pouco tempo para a rádio, e continuo sempre a tirar-lhe o chapéu. Ela tem um filho, o Guilherme, que nasceu com mielomeningocelo, a pior vertende da espinha bífida. Desde então, a vida de Ana Madragoa tem sido inteiramente dedicada a este príncipe.
Ora, ela tem um jeito incrível para fazer coisas para os miúdos. Coisas coloridas, como ela. E criou um blogue: anamadragoakids.blogspot.pt/
O desfile de apresentação que ela criou é um amor e merece ser visto: AQUI.

Aproveito para pôr aqui o texto que escrevi sobre ela, em 2008. Só para perceberem a fibra desta moça!

A Inquebrável
«Não quero», disse-lhe eleassim, sem paninhos quentes, sem rodeios, sem delongas. «Não quero, tira.» AnaMadragoa ouviu a frase e levou, instintivamente, as mãos à barriga. A afirmaçãodele, peremptória, não a surpreendeu. Mas interromper a gravidez estava fora dequestão. «Eu sou muito instintiva, tenho muitos feelings que depois acabam por se confirmar. E eu sentia que tinhade ter aquele bebé. Não sei explicar como nem porquê. Mas tinha uma certezamuito forte.»
Ana pegou na sua certeza elutou contra tudo e contra todos. Os pais acharam que era doida, quiseram sabercomo sustentaria o filho, se pensava que era fácil ser mãe solteira, se faziaalgum sentido trazer alguém ao mundo com a vida instável que ela tinha. «Nem umemprego consegues manter!», gritou-lhe o pai.
Na verdade, as coisas nãocorriam bem na sua vida. Há muito tempo, de resto. Ana tinha o curso deestilista, trabalhara na loja de um tio que lhe infernizou os dias, a seguirnuma loja que o pai abriu, mas que se revelou um inferno ainda maior: «O meupai é uma pessoa… é muito austero, agressivo. Quer que tudo aconteça ao seuritmo e não tem qualquer tolerância. De modo que optei por sair da loja dele,onde fiz colecções de roupa para senhora, porque pensei: ou vinga o meu sonhoou a minha sanidade mental. Optei pela sanidade mental.»
Foi assim que, naqueleInverno de 2003, ficou sozinha com uma barriga e sem saber muito bem o quefazer. Ainda reatou com o namorado mas as discussões constantes levaram-na a desistirde uma relação condenada: «Aquela montanha-russa não me fazia bem e, sobretudo,eu sabia que não fazia bem ao bebé que vivia dentro de mim. E optei por acabarde vez com uma história que só fazia estragos.»
No final da gravidez, AnaMadragoa foi fazer a terceira ecografia. Por essa altura já sabia que ia sermãe de um rapaz e tudo corria dentro da normalidade. Mas, nesse dia, em Outubrode 2003, acordou angustiada. «Não sei o que tinha. Sentia um aperto no peito,uma ansiedade, uma falta de ar. Nem sequer associava aquele mal estar àgravidez ou ao facto de ir fazer uma ecografia. Sentia uma ânsia qualquer.»Quando se deitou na marquesa, a imagem do seu bebé não apareceu sozinha. Haviauma bolha grande no ecrã. A médica olhou, pressionou-lhe a barriga, voltou aolhar. O coração da futura mãe teve um pequeno sobressalto, logo serenado pelocomentário da médica: «Isto deve ser uma bolha de sangue, não deve terimportância.»
Ana Madragoa não quis darimportância, não quis ver. Sentia um desconforto crescente mas fez o que a suanatureza mandou. Sorriu e fez de conta. Uma amiga, porém, não gostou da palavra‘bolha’. E ligou ao pai do bebé, para que ele tivesse a decência de estar porperto.
No dia seguinte de manhã, Anafoi ao obstetra com a ecografia. O médico ficou a olhar o papel com a imagem,em silêncio. «Está tudo bem, doutor?» E o médico nada. «Ai, doutor, já estou aficar nervosa. Está tudo bem ou não?» O obstetra manteve o silêncio até quedisse: «Vou-lhe pedir que vá ter com um colega meu, de confiança, para fazeroutra ecografia, está bem?» Ana não perguntou mais. Foi.
O nervoso começava asufocá-la, devagar. Nova ecografia, novo silêncio. Desta vez, só o silêncio.«Está tudo bem?» O médico pediu-lhe, apenas, que esperasse lá fora, que já achamaria para falarem. Afinal, acabou por não aparecer. A assistenteentregou-lhe um envelope com a nova eco, sugerindo-lhe que se dirigisse aohospital onde estava previsto que a criança nascesse. Confusa, zangada, ligouao obstetra: «Acabam de me dizer para ir para o hospital… É capaz de me dizer oque raio é que se passa?» O médico pediu-lhe que fosse buscar uma carta e quesim, se dirigisse a S. Francisco Xavier.
O pai do bebé e uma amigaforam com ela. Por essa altura, as pernas de Ana Madragoa pareciam feitas degelatina. «Então o que é que se passa?», perguntou, seca, a médica que arecebeu. «Olhe, não sei. Tenho aqui uma ecografia e uma carta do médico. Dizque há para aí uma bolha, ou lá o que é.» A médica fixou os olhos nas imagensdo seu filho, abanou a cabeça e exclamou: «Ah, mãe, mas o seu filho não tem sóisto! O seu filho tem uma série de malformações! Aguarde lá fora um bocadinho,se faz o favor.» Assim. Como quem diz que uma saia está com a bainha descosida.Como quem protesta porque a carne está salgada. Assim. «O seu filho tem umasérie de malformações». Ana saiu para a sala de espera e achou que morria. Chorou,chorou, chorou. Só conseguia imaginar o seu Guilherme deformado, como seria?Teria pernas? Teria braços? Teria olhos? Teria deficiência mental? «De repente,o meu querido bebé passou a ser uma aberração. E eu não conseguia aguentartanto sofrimento. Foram momentos muito difíceis.»
A seguir, mais exames.Análises, ecografias, médicos em redor, conversas paralelas a que tentavaapanhar o sentido. Felizmente, outra médica chamou-a. Deu-lhe a mão e começoudo princípio. «Foi muito querida. Fez-me um desenho, onde explicava exactamentequal era o problema do Gui. Disse que ele tinha mielomeningocelo, a piorvertente da Espinha Bífida.» A bolha que se vislumbrava na ecografia era issomesmo, uma bolsa no fundo da coluna que continha, além de tecido e líquidocefalorraquidiano, também raízes nervosas e parte da espinal medula. Nestescasos, a espinal medula está lesionada ou não totalmente desenvolvida. Tudoisto se deve a um não encerramento dos arcos posteriores das vértebras. Alémdeste grave problema, o Guilherme tinha também hidrocefalia, ou seja, líquidocefalorraquidiano em excesso no interior da cavidade craniana.
E não só. Ao contrário do quelhe tinham dito, o bebé não estava no percentil 50, não tinha um tamanhonormal. Era muito pequeno para o tempo de gestação, o que trazia ainda maisproblemas. «Assim que nascer, o seu filho vai ter de ser operado. Mas, paraisso, temos de o engordar.» Uma ou duas semanas depois desta torrente deinformação, Ana Madragoa foi internada.
«Nesses primeiros temposvoltei-me muito para dentro. Dormia muito para não pensar, e comia. Elespesavam-me todas as semanas para ver se eu estava pronta para a matança(risos). E depois comecei a dar a volta. Ajudava as mulheres que entravam emtrabalho de parto, andava com os bebés ao colo… As enfermeiras até seespantavam com a minha boa disposição. Mas o que é que eu havia de fazer? OGuilherme era o meu filho. E pronto. Era esperar que nascesse para ver o queacontecia.»
Assim que nasceu, de umacesariana marcada, o pequeno Gui, quilo e meio de gente, foi operado para seencerrar o mielomeningocelo. A mãe só o viu depois, na incubadora, e achou-o obebé mais bonito do mundo. Com duas semanas, o bebé foi operado de novo, dessavez para colocar uma válvula que drenasse o líquido em excesso dentro da suacabeça. E aos três meses voltou a ser operado, para colocar uma nova válvula epara meter gesso da cintura para baixo. «Coitadinho, parecia um boneco,engessado a partir das ancas, só com uma abertura no meio das pernas para pôras fraldas. Sentava-o numa das minhas pernas e ele ficava muito direito.Chegava a ser cómico.»
A vida de Ana Madragoa levoumais uma volta. Não bastava a bipolaridade da mãe, o mau génio do pai; nãobastava o desemprego e o facto de ser mãe solteira. Agora tinha de fazer acaminhada pelos médicos, pelos exames, pela fisioterapia. «Praticamente todosos dias tinha de andar pelos médicos. O Gui nasceu sem mexer as pernas e agora,com a fisioterapia, já mexe qualquer coisa. Cheguei a fazer uns saquinhos deareia com umas tiras de velcro para lhe meter nos pés. Achei que podiaexercitar-lhe os músculos e a fisioterapeuta achou bem. Enfim (risos), fiz tudoo que qualquer mãe faz por um filho.»
Para sobreviver, andou acolocar papelinhos nas caixas do correio vizinhas: «Faço arranjos de costura».E daí, de repente, a ideia. «E se eu fizesse uns gorros giros, diferentes doque se encontra no mercado?» Ana Madragoa queria usar tecido polar, bemquentinho para usar no Inverno. E foi então que se decepcionou: «As malhaspolares tinham todas aquelas cores do costume: azul escuro, bordeaux, beige…Mas, de repente, vi uns cobertores super coloridos dentro de uns cestos. ‘Dê-meaí esses cobertores’, disse eu ao senhor da loja. E pronto. Fiquei logorendida.»
Ao primeiro gorro que fezchamou Crista. Porque usou as farripas do cobertor para o topo da cabeça, talcomo uma crista. Depois desse vieram outros, o Helicóptero, o Ovo Estrelado, aClementina, o Dragão. Gorros cheios de cor, completamente diferentes de tudo oque havia à venda. Uma amiga fez-lhe um blogue. E Ana aproveitou a onda deânimo que a invadia e escreveu à TVI. O programa ‘Você na TV’ apresentava casosparecidos com o seu, histórias de gente a quem a vida deu uma pirueta. «Escrevia carta a contar a minha história e a mostrar o meu trabalho. Achei que aexposição do Guilherme era um mal necessário para divulgar os meus gorros e,assim, poder ganhar a vida.» Acertou em cheio. Os telefonemas começaram a chover. Vieramencomendas de todo o país. «Ligavam-me do Algarve, de Trás-os-Montes, doAlentejo… E diziam-me: ‘Só me apetece abraçá-la’ ou ‘Ainda bem que existe, fazcoisas tão bonitas…». Deixou de estar só. «Foi incrível! Eu que estava aquisempre sozinha, de repente, passei a estar sempre acompanhada… E as pessoaselogiavam tanto o meu trabalho e encomendavam… foi espectacular.» Foi asolução. Porque seria difícil arranjar um emprego fora de casa. O Gui está naescola mas precisa de muito apoio e a mãe está sozinha.
Enquanto falamos, Guilherme,hoje com quatro anos, interrompe a conversa por várias vezes: «Ó mãe, mas euquero brincar aqui!» Gui é uma criança como as outras. Irrequieto, brincalhão,divertido, traquina. A única diferença está nas pernas. Imóveis. Guilhermeavança pela casa, de gatas, arrastando as pernas atrás de si. Sobe aos sofás,trepa para todo o lado, passa por debaixo das mesas, enfia-se dentro do saco dofotógrafo. A mãe ri-se, ralha quando ele estica demasiado a corda. E temesperança na Medicina. Quer acreditar que o filho ainda vá andar, como osoutros.
Até lá, vai fazendo os gorrosque, agora, se estenderam também a capas, cachecóis, t-shirts, saias. O negóciotem altos e baixos, como todos. O blogue passou a site e houve lojas a quererrevender os produtos que a estilista, já apelidada de Agatha Ruiz de La Prada á portuguesa, vaifazendo. No último Verão, produziu coisas a mais que não foram escoadas. Só amuito custo conseguiu terminar o ano sem dívidas. «Tenho de me conter. Nãoposso achar que vou vender muito só porque as coisas estão a correr bem numdeterminado momento. Vamos vendo», diz com aquele sorriso contagiante. AnaMadragoa é muito mais que uma sobrevivente. É inquebrável. 
(Selecções do Reader's Digest, 2008)

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