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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Um país a arder

No sábado de manhã despedi-me da minha malta e meti-me a caminho de Lamego, onde fui participar numas Tertúlias de Anestesiologia. Aproveitei para almoçar em Aveiro com a minha irmã, cunhado e sobrinhos, matando uma pequena parte das muitas saudades que tenho deles.

A conferência correu bem, era um bocado terreno ingrato porque a esmagadora da plateia estava contra a presença dos pais nas cesarianas. No palco, três prós e três contras. Eu, claro, estava nos prós. Consegui não me enervar, nunca levantei a voz, mesmo quando alguns médicos falavam do assunto com ar de gozo, como se a presença do pai não passasse de uma excentricidade de mulheres dadas a devaneios. Em quase toda a Europa civilizada isto nem é uma questão, o pai entra e acabou-se, mas aqui ainda temos um caminho a percorrer. 

No domingo, depois de tomar o pequeno-almoço e de fazer o check-out, fui em direcção a Trancoso, onde tinha uma entrevista muito interessante que em breve vou partilhar aqui convosco. Fiz o caminho pelo Douro, maravilhoso, andei pelas estradas serpenteantes e belíssimas do país, sempre debaixo de um fumo e de um cheiro a fogo que me puseram em alerta. Cheguei a Trancoso ao meio dia e era quase de noite, tal era a escuridão do céu. Algo estava mesmo muito errado.

Depois da entrevista, almocei, dei uma volta por ali (é a terra do meu pai e aproveitei para um momento de nostalgia, a que dificilmente resisto), e segui para a entrevista seguinte, em Vermilhas, Vouzela. O caminho foi feito sempre a ver fogos. Fumo, labaredas. Não estava a acreditar. Só me meti por aquelas estradinhas porque percebi que o fogo ainda estava do lado contrário da serra. Quando cheguei, os meus entrevistados estavam em cuidados, a ver o fumo. Havia cinza por todo o lado e eles só diziam que, se o vento virasse, ia arder tudo. O sítio, de uma beleza ímpar, doía de tão ameaçadoramente cinzento.

No final da entrevista, pus-me a caminho. 

A certa altura, quando entrei na Auto-estrada, estava um senhor nas portagens a explicar que a A1 para Lisboa estava cortada. Engoli em seco. Mandaram-me ir em frente, sair em Estarreja e voltar para trás, para seguir pela A25, rumo a Aveiro. Foi o que fiz. Porém, quando estava a caminho de Estarreja, vi uma fila gigante no sentido contrário. Ainda ponderei ir até ao Porto e ficar lá a dormir, mas estava enervada e apetecia-me ir para casa. Assim, dei a volta, parei na estação de serviço para ir à casa de banho, para comprar água, um sumo de laranja natural e umas uvas.

Meti-me no carro e... a fila tinha aumentado ainda mais. Quilómetros de fila. O céu completamente preto. Cinza a chover por todo o lado. Um cheiro a fumo quase intolerável. Carros de bombeiros a passar incessantemente. Numa das vezes, contei uma coluna de 8 autotanques. Nos carros ao lado, expressões preocupadas. E eu ali. A rede a falhar. E juro que me começou a faltar o ar. Tu queres ver que morremos aqui também? Depois, procurei acalmar-me. Caramba, se deixarem morrer todas estas pessoas na A1, a coisa é o descalabro. Iniciei conversas com dois grupos diferentes no WhatsApp, para desabafar e não me deixar ficar ali sozinha, entregue ao meu pânico crescente. 

Quando finalmente consegui virar para a A25, e acalmei. O trânsito fluía e já não sentia aquela prisão claustrofóbica. O pior foi que durante TODO o caminho, mas mesmo TODO, fui vendo incêndios. À esquerda, à direita, perto da estrada, longe da estrada. Em alguns locais, via-se perfeitamente as chamas já encostadas às casas. Diria que a cada 5, 10km havia um novo incêndio. Uma coisa inacreditável. Percebi claramente que seria impossível combatê-los a todos. Impossível. Nem que todos os bombeiros de Portugal fossem destacados. Provavelmente, nem mesmo com ajuda internacional. Impressionante. Conduzia, passava um incêndio, e daí a nada... outro. Já na A17, o incêndio estava mesmo ao meu lado, a chegar à estrada. Logo a seguir, cerca de uma hora depois, um amigo passou por lá e filmou as chamas de um lado e do outro da autoestrada. Aterrador. 

Confesso-vos que não consegui evitar as lágrimas. Aquela gente... toda aquela gente. Pensava no casal que entrevistei (e de quem não tenho ainda notícias), e em todas as pessoas a perderem as suas coisas, a perderem as suas vidas.

Ao mesmo tempo, ia ouvindo a rádio. E lá estava: já era considerado o pior dia do ano em termos de incêndios. Chegaram a estar activos 523 fogos.

Fui tirando algumas fotografias, porque senti que estava a testemunhar algo único e trágico. 

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Fiz mais de 500 km e vi incêndios durante todo o caminho. Até chegar a Lisboa, praticamente, porque os últimos foram em Óbidos, Ericeira, Mafra.

Nunca mais vou esquecer o que vi. A sensação que tive foi que estava tudo a arder. Tudo. 

Cheguei a casa, o Ricardo estava à minha espera, e ficou impressionado com o cheiro a fumo que o carro tinha, e com a cinza por todo o lado. 

Hoje já vamos em 29 mortos. Não me surpreende. Do que vi ontem, não me surpreende mesmo nada.

Até quando vamos ter de ficar nesta impotência? Como se resolve esta calamidade? Quantas mais pessoas têm que morrer?

Sinto-me esmagada com isto, palavra de honra. 

A minha mais profunda solidariedade para com as pessoas que passaram e estão a passar por isto. O meu mais profundo respeito pelos bombeiros, que combatem um monstro tão desigual.

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