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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Um dia mudo-me (ou então não)

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É um dos meus vícios. Das minhas taras. Amo ver casas. Felizmente (para os senhores das imobiliárias) vejo-as quase sempre online, sem chatear ninguém (excepto a minha família, a quem estou sempre a dizer "ah, e olha esta!", "ah, vais dizer-me que não vivias nesta...", e tudo já a revirar os olhos). De vez em quando apaixono-me a sério. E aí vou visitar, sonho, entusiasmo-me, peço simulações ao banco. Até agora tenho desistido sempre (os tempos não estão fáceis para loucuras).

As casas por que me apaixono são geralmente casas antigas. Antigas mas recuperadas, de tectos altos e trabalhados, janelas de sacada, portas em bandeira (nunca sei se é "em" se é "de" se é "com" bandeira, mas pronto, são aquelas portas com uma janela em cima), chão de tábua corrida (daquela madeira antiga, linda de morrer)... São geralmente gigantescas e têm corredores infinitos. O que eu adoro corredores compridos. A minha casa tem um corredor comprido mas, ainda assim, parece que nunca me chega, que quanto maior melhor (não sejam porquitos, estamos a falar de corredores). 

Agora encontrei uma casa dessas. Linda. Com 260m2 e 9 assoalhadas. Com tudo o que descrevi atrás. E lá começo eu a imaginar como seria viver ali, como seria bom ter mais espaço (apesar de ir perder o terraço e a calmaria deste bairro). Posso alimentar-me deste sonho durante semanas. Imaginar onde punha os móveis, como decorava o espaço, imagino os miúdos a correr pela casa fora, imagino a vida num novo bairro... Chego a adormecer e a acordar nessa excitação da perspectiva, mesmo que no fundo saiba que não vou a lugar nenhum.

Estou nesta casa há quase 13 anos. Gosto muito dela mas há um lado inquieto em mim que deseja mudança. É um lado que tenho sempre que domesticar (mas que, em bom rigor, é indomesticável porque persiste e insiste). Ontem estava a ver mais um episódio de How to Get Away With Murder em que a Annalise muda de casa. A alegria dela a ver os móveis entrar fez-me lembrar a alegria que senti quando vim para esta casa: tudo vazio, amplo, enorme. E os móveis a entrar e as caixas e eu a ouvir música e a arrumar tudo nos sítios certos e a sentir a vida fervilhar em mim, nas minhas veias, no meu coração acelerado. Foram dos dias mais felizes da minha vida, esses. Porque encerravam todo o sonho do que estava para vir. Eram dias presentes mas que perspectivam o futuro. Foram - e são sempre - antecipações cheias de esperança.

Mudar de casa é, no fundo, como mudar de ano ou escrever num caderno novo. Abre novas possibilidades. De fazermos tudo diferente, de recomeçarmos, de fingirmos que temos uma vida nova. No fundo, é uma finta à morte ou ao medo dela. Afinal, se estamos no início não estamos no fim. Certo?

 

(isto para dizer que hoje vou ver uma casa, a tal casa grande, antiga e linda. Não será fácil comprá-la a menos que o valor seja bem negociável, mas é uma daquelas que merece uma visita e um ou outro estudo que mete contas e muitos "e se?". Mesmo que não dê em nada... o sonho já ninguém mo tira)

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