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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Twillight Zone

Lembro-me de ser miúda, quando a minha irmã nasceu, e de haver um programa na televisão, na altura assustador, que relatava casos de pessoas que viam espíritos e casas que eram assombradas e o diabo a sete (acho que se chamava "Incrível" ou, na versão original, "Twillight Zone"). Por causa desse programa, passei muitas noites de olho arregalado, a jurar que tinha ouvido um barulho, visto um vulto, e outras alucinações similares.
Um dia, a minha irmã chorou de uma forma diferente, aos gritos, e de olhos fixos num ponto específico da casa. Parecia mesmo que via alguma coisa que eu não via. Lembro-me de estar sozinha com ela (o meu pai e boadrasta tinham ido ao café em frente) e de começar a dizer em voz alta "Sai daqui, vai-te embora, cobarde, deixa a minha bebé em paz!" Depois, saí para a varanda e ela acalmou.
Quando fui mãe, já tive momentos de me lembrar desta história. Já um ou dois (isto agora fica difícil dizer exactamente qual ou quais) ficaram a olhar de modo vítreo para um ponto, chorando com ar aterrado, e lá me ocorreu que pudessem estar a ver almas penadas, invisíveis aos olhos de um adulto.
O Martim, aos três anos, foi mais longe. Durante umas semanas, acordava de noite a chorar e a apontar para uma parede, gritando:
- O senhor está zangado! O senhor está zangado!
Eu, a disfarçar o meu pânico, perguntava:
- Mas onde????
Ele ficava verdadeiramente furioso comigo, como se eu estivesse a gozar:
- Ali!!! Ali!!!! - e apontava sempre para o mesmo sítio.
Também nessa ocasião, e jurando não acreditar em nada daquilo que não consigo ver ou que a ciência não explique, lembro-me de dizer em voz alta, "Vá, senhor, vá lá embora e deixe a criança em paz", ainda que, ao mesmo tempo que proferia tais palavras, não conseguisse deixar de me sentir bastante ridícula.
Esta noite foi a vez do Mateus. A olhar para o tecto, de olhos quase a saírem das órbitas e nuns guinchos histéricos, fez-me voltar a lembrar dos episódios anteriores. Não cheguei a mandar ninguém embora em voz alta, mas fico a pensar nisto porque, apesar de completamente céptica (acho que se houvesse o que quer que fosse para lá da morte já saberíamos com certeza), não consigo deixar de me interrogar: e se os bebés têm mesmo, como se diz, um sentido mais apurado que, com a sociabilização e a aprendizagem, vão perdendo? E se eles vêem mesmo coisas que a gente não vê?
Sinceramente? Prefiro continuar a acreditar que não. É bastante menos inquietante. E eu não preciso de mais inquietações na vida, obrigadinha.

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