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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Troquei o fundo do mar pelo fundo do sono

O médico disse-me que a cirurgia ia ser com epidural e que podia assistir a tudo. "É muito giro! É como ver o fundo do mar!" 

Eu, que já assisti a cirurgias de coração, peito todo aberto, com direito a afastador de costelas e tudo, em reportagem, e até já assisti a tanatopraxias (preparação de cadáveres para os velórios), achei que podia ser fixe e preparei-me para isso. Odiei - como sempre - o momento em que enfiam o cateter na veia da mão (aquilo dói para caraças e geralmente as minhas veias começam a inchar e a deitar sangue por todo o lado - por acaso desta vez não aconteceu), também não apreciei a epidural (uma coisa é estarmos com uma barriga enorme, com contracções que nos fazem ir à lua e voltar, e cheios de vontade de conhecer o nosso bebé, outra coisa é irmos tirar parte de um menisco danificado, o que nos faz sentir a dor da picada de forma incomparavelmente mais intensa), mas gostei de ver o bloco operatório sem os olhos tolhidos pela dor das contracções e, por isso, de forma muito mais clara e atenta. Só que, de repente, quando me metem o pano verde diante dos olhos e se somem todos para o lado de lá e começam a falar de brocas (percebi mais tarde que não era sobre a minha cirurgia que falavam), e começam a pincelar-me a perna com Betadine e outros desinfectantes que tais... deu-me a travadinha. Comecei a ter um medo irracional e incontrolável. De sentir dor, de ouvir barulhos quase de carpintaria no meu joelho, de perceber as coisas e não querer percebê-las. Foi um medo tão grande que estive à beira de me largar a fugir, isto se as minhas pernas pesadíssimas e dormentes tivessem deixado. Em vez disso comecei numa ladainha "ai que medo, ai que medo, por favor ponham-me a dormir, ponham-me a dormir, ai que estou com tanto medo..."

E pronto. Uma festinha na cabeça do anestesista e fui-me para outra banda. Mariquinhas.

Acordei levemente no recobro, mas continuei a dormir por três longas horas e mal as visitas saíram do quarto, às nove e qualquer coisa, ferrei-me a dormir até ao dia seguinte. Antes disso, o médico ainda me foi ver. "Então? Quis dormir??? E não viu nada... não viu o seu joelho, que é mesmo como o fundo do mar!"

Aaaaah, que se dane o fundo do mar! Já fiz snorkeling e foi porreiro. Há alturas em que nada supera um sono profundo. 

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