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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Conta-me #10

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Claro que as pessoas percebem. As pessoas não são burras. Percebem. Olham. Suspiram. Miram-no com ódio, como se ele fosse um monstro. Mas não é. Coitado. Não é. Ele é um desgraçado, sabe? É uma alma atormentada. Mas enfim. Eu também passo os meus maus bocados. Esta? Esta aqui foi há umas duas noites. Não. Que dia é hoje? Ah, pois, não. Lembro-me que foi na véspera de ir ao médico dos olhos, por isso foi quinta-feira passada. Bom, para o caso é igual, é só mais uma igual a tantas outras. Estávamos a dormir, eram umas duas e picos da manhã, quando acordei com as mãos dele no meu pescoço. Percebi logo que era mais um daqueles sonhos. Gritei, tentei chamá-lo à razão, Vítor!, e ele apertava, Vítor, e ele cada vez com mais força, Vìtor! Foi então que me deu um soco. Foi o que me valeu. Ao levantar a mão para me bater libertou-me o pescoço e, depois de apanhar na cara com toda a força, levantei-me e fugi para a casa de banho. Isto parece um filme, não é? Parece, parece. Mas olhe, é o filme da minha vida. O problema dele são os pesadelos. Quer dizer, não são só os pesadelos, são também aquelas crises que acontecem assim de repente. No outro dia - lembra-me como se fosse hoje - um carro deu uma aceleração mais funda, e aquilo devia ser um carrão porque deu cá um estrondo... Vim a correr da cozinha já a imaginar tudo. Lá estava ele deitado no chão, com as mãos na cabeça, num sofrimento que não lhe passa pela cabeça. Ninguém sabe... ninguém sonha. Por isso é que eu digo: o meu homem não é má gente... ele veio de lá outro. Deram cabo dele. E não há ninguém que se responsabilize, não há nada que pague isto de me terem mandado um homem que não é o meu. Calado, sempre calado, triste, sempre triste, assustado, sempre assustado. A médica de família mandou-o para um psicólogo. Ele encolheu os ombros, qual quê, psicólogo, eu cá não sou maluco. Sabe como são os homens. Desculpe, também é homem... mas são casmurros, acham que conseguem resolver tudo. É uma questão de macheza. São machos e não podem dar parte de fracos. Mas eu tanto andei, tanto andei, Vítor, tu não és maluco mas passaste por muito, ninguém passa por uma guerra e volta o mesmo, vai falar, vai desabafar, que eu não aguento mais. Acho que se assustou. Foi. Quando voltou não disse uma palavra. Então, Vítor? Ele, nada. Fui eu falar com o psicólogo. Diz que ele tem stress pó-tramático ou trómatico ou lá o que é. Isso, stress pós-traumático, é isso mesmo! E que precisava de ser acompanhado e que o ideal até eram umas reuniões com outros ex-combatentes. Fui à associação, havia reuniões às quartas, voltei a falar-lhe. Fechou-me a porta na cara. Que era o que faltava, que isso já foi há tantos anos, que ia agora falar com gente que não conhece de lado nenhum, para dizer o quê? Vítor, para dizeres que não podes ouvir uma mota, um prato a cair, uma trovoada, uma porta a bater, Vítor. Para dizeres que acordas de noite aos gritos, a chorar, a falar em estilhaços e em mortos e a querer matar o inimigo. Para dizeres, Vítor, que eu sou o teu inimigo, quando dormes, que me atacas sem querer mas atacas, que um dia destes me matas a achar que eu sou um dos pretos, Vítor. Não sei quanto mais tempo aguentarei isto. Já lá vão anos. Anos. Anos disto. Estou saturada. Tenho medo de dormir. Chego a ter medo de entrar em casa, sei lá se não está num daqueles momentos em que parece que cega, o olhar fica gazeado, sei lá se não pega numa faca e não me corta a garganta. Eu sei lá. O que eu sei é que me deram conta do homem, que ele era alegre, conversador, brincalhão, e que veio de lá outro, mudo e quedo, metido com ele e com seus os pensamentos, os horrores que terá visto, as mortes, a gente que teve de matar. O que eu sei é que este não foi o homem com quem casei. Mas vou fazer o quê, agora? Separar-me? Abandoná-lo? Eu gosto dele. Tenho pena dele. Dó, sabe? Tenho dó. O meu Vítor não é mau homem. Não é um monstro. Coitado. Não. Ele é um desgraçado. Ele e eu. Duas almas penadas que vivem nesta casa, ensombradas pelos espíritos que vieram com ele da guerra e nunca mais nos largaram.

 

*Conta-me é uma rubrica de contos originais (ficcção) escritos por Sónia Morais Santos

 

Conta-me #9

"Temos de falar", disse-me ela. Confesso que pensava que esta era uma daquelas frases que só tinha saída nos filmes. De tal maneira que, mal a escutei, apeteceu-me traduzi-la para inglês, "we need to talk", mas achei que ela estava com uma expressão demasiado séria para achar graça. Não sei porquê, talvez já o esperasse, mas assim que ela disse "temos de falar" percebi que a minha vida estava à beira do precipício. Faltava só o encostozinho final para que se desfizesse em mil pedaços, no fundo do desfiladeiro. Fechei os olhos, cerrei os punhos e os dentes, voltei-me para ela com o ar mais descontraído e surpreendido que consegui e perguntei, desejando ter ouvido mal: "Temos?" 

Tínhamos. Ou melhor, ela tinha. Tinha que me falar no Artur. Tinha que me dizer que lhe custava muito toda a situação, que eu tinha sido sempre um marido incrível, que era um excelente pai, que não havia razão de queixa, mas. Há sempre um "mas" que se segue a um "temos de falar". E o "mas" na minha vida tem nome. Chama-se Artur. 

Durante meses ouvi-a falar com entusiasmo no Artur. O novo chefe. Tão engraçado, sempre espirituoso, a fazer rir o gabinete inteiro. "Olha só esta piada que o Artur hoje contou". E eu olhava. E ouvia. E esboçava um sorriso forçado. Não sei porquê, talvez fosse um sexto sentido, nunca achei graça ao Artur, nunca me consegui rir com a vontade com que ela se ria, "não é a melhor piada de sempre?", perguntava ela a limpar as lágrimas. É, é, respondia eu com o sorriso mais esforçado que conseguia montar.

O Artur. Sempre solícito, a trazer o café à sua mesa com um brigadeiro. "Já viste a minha sorte, ter um chefe assim?" Então não?, retribuía eu. O Artur que a tinha convidado para almoçar, não apenas a ela, claro, mas à secção inteira. O Artur e os seus olhos verdes. O Artur e o seu perfume inebriante. Não, talvez ela não o tenha dito assim, mas falou qualquer coisa sobre o perfume, sou capaz de apostar. O Artur que lhe dava boleia no seu carro alemão com estofos em pele e tantos botões no painel que mais parecia um avião. "Às vezes até acho que vai levantar voo". Pois.

E a Paula cada vez mais distante, mais calada. A Paula sempre de olhos no telemóvel, a levá-lo consigo para toda a parte, até mesmo para a casa de banho, nunca se esquecendo dele em lado algum. E eu a convidá-la para sair, para um programa, um jantar a dois, sem os miúdos, um cinema a seguir, e ela sempre cansada, sempre aborrecida, sempre longe. 

Acho que no início dei o desconto. O Artur lá devia ter os seus encantos e estar casado não causa cegueira, de maneira que compreendi o entusiasmo, sangue novo num gabinete bafiento era caso para deixar o mulherio inquieto. Eu próprio já tive as minhas paixonetas, coisas platónicas evidentemente, mas que diabo, sou homem! Assim de repente lembro-me da Anabela, por exemplo. Que mulherão. Quando entrou pela primeira vez na empresa julguei que ia ter um ataque cardíaco. Suores frios, uma pontada no peito, tonturas, as pupilas dilatadas. Lembro-me do Aníbal vir ter comigo e dizer "Estás bem, Carlos?" E eu sem conseguir balbuciar uma palavra, "Estás lívido, homem! É preciso chamar um médico?". Ainda hoje nos rimos disso. Que brasa, a Anabela. Mas pronto, foi fogo de vista. O passar dos dias tornou-a menos vistosa, os defeitos começaram a vir ao de cima, e o coração amainou. Como ela, outras. Mas nada de duradouro, nada de sério, nada que pusesse em causa a Paula e a nossa vida em comum. São 24 anos de casamento. Cinco de namoro. Dois filhos. Jamais me passaria pela cabeça outro cenário que não fosse o de envelhecermos juntos. 

Mas. Lá veio o mas. O Artur. Quando finalmente decidi procurar a figura no Facebook compreendi ainda melhor o arrebatamento. Tipo alto, cabelo grisalho, olhos verdes, boa pinta. Engoli em seco mas não fiz mais nada que isso. Continuei apenas a ouvi-la descrever, uma após outra, as aventuras do Artur, as piadas do Artur, as boleias do Artur. Fui parvo. Deixei-me ir e quando percebi era tarde. Quando percebi estava a escutar o tão temido (e tão dolorosamente cliché) "Temos que falar".

E assim foi. 24 anos de casamento, cinco de namoro, dois filhos, tudo por água abaixo. Depois do "Temos que falar", ela falou no Artur e no quão apaixonados estavam, eu ouvi calado e quieto, ela levantou-se enxugando as lágrimas, fez umas malas apressadamente, e saiu deixando-me num misto de choque e confirmação do que, na verdade, já intuía. Talvez não pensasse que tivesse coragem de o fazer pelos miúdos. Mas os miúdos já estão crescidos, ambos na faculdade, com as suas próprias vidas. Se fossem mais novos era capaz de não ter coragem mas assim... Assim foi só dar-me o encostozinho que faltava para me atirar do precipício.

Estou sentado nesta cadeira há horas. Sei-o porque cheguei eram seis e meia e agora já a escuridão invadiu toda a cozinha. Não tenho fome, não tenho sede, não tenho nada para fazer. O Aníbal diz-me "Tens de sair, Carlos. Tens de vir com a malta, pá. Arranjar umas gajas." Dá-me vontade de rir. Gajas. Sou fiel à Paula há 29 anos, nem consigo imaginar-me com outra mulher, nem mesmo quando me escondo perto do serviço dela para a ver chegar no carro-avião do Artur. Da primeira vez nem a reconheci. Mudou o cabelo, está mais magra, parece mais nova, toda maquilhada. Toda sorrisos, toda encostos, toda... nem sei quê. A minha Paula. Tão feliz, apesar de tudo o que a separação lhe trouxe: os meus pais deixaram de lhe falar, a mãe dela deixou de lhe falar, os filhos deixaram de lhe falar. Eu não acho bem, já lhes tentei explicar que isto são coisas que acontecem, que ninguém controla o coração, mas ninguém quis saber. Eu também já não quero saber. Ela própria não parece muito interessada no assunto.

Perguntam-me se não tenho vontade de partir a tromba ao Artur. Tenho. Então não? Uma pêra bem dada naquele focinho sorridente. Sonho com isso praticamente todas as noites. Não foi uma vez nem duas que acordei com a mão esmurrada por ter batido com ela em cheio na parede. Mas depois falta-me a coragem. O mais certo era o Artur acabar comigo em três tempos, obrigando-me a engolir o escassíssimo orgulho que ainda me resta. 

É evidente que tenho que me recompor. Tenho de recomeçar. Tenho 50 anos, ainda posso ter uma vida, ainda posso ter, como diz o Aníbal, "umas gajas". É evidente que sim. Talvez comece por vender a casa, porque ainda durmo e acordo na cama onde dormíamos e acordávamos juntos, porque ainda janto na mesa onde jantávamos juntos, porque ainda a vejo em todas as assoalhadas. É. Talvez tenha de começar por aí. Assim arranje coragem e forças. Para já, sento-me horas nesta cadeira, em silêncio, à espera que o resto do dia passe. À espera de me esquecer. Dela, dele, dos dois. De mim com ela. De mim sem ela. De mim com este vazio. À espera de recomeçar.

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Conta-me #8

Na árvore de Natal há vários presentes. Um sei que é da mãe, outro sei que é do pai, os outros não faço ideia. Quando abrir o da mãe e o do pai tenho de tentar fazer o mesmo sorriso, nem mais, nem menos. Talvez devesse abrir os presentes uma noite destas, antes do Natal, para me preparar. Tenho medo que, com a surpresa, haja um presente de que gosto mais e não consiga disfarçar a felicidade, enquanto que ao abrir o outro posso ter uma desilusão e notar-se. Depois estou frito. Quer dizer, não é que me aconteça nada, a mãe não se vai zangar comigo nem nada, mas eu é que não quero desiludir nenhum dos dois. Não quero que um deles sinta que gostei mais do presente de um do que do outro. Acho que não é por mal mas sei que eles tentam ganhar-me nos presentes. Se um compra não sei o quê, o outro vem e compra outra coisa melhor. Ou que eu pedi. Ou que sabem que eu queria. Não me posso queixar, que fico a ganhar, né? Mas às vezes cansa-me um bocadinho esta coisa de estar sempre a mostrar que gostei muito de um, que gostei muito do outro... às vezes só queria que me deixassem em paz.

Como agora. Este Natal vou passar a noite aqui em casa da mãe e no dia 25 vou para o pai. A mãe chora sempre muito quando eu vou, mesmo que a noite tenha sido com ela. Quando a mãe chora tenho sempre vontade de chorar e de não ir. Mas não posso fazer isso, senão quem ficava triste era o pai. Também sei que a mãe chora por causa da nova namorada do pai. A Luísa é querida, dá-me festinhas e brinca comigo mas eu sei que não devia gostar dela. Também a acho linda, assim mesmo tipo actriz de cinema, mas nunca digo isso à mãe, mas é que nem pensar. No outro dia a mãe zangou-se comigo e ralhou-me muito. Eu estava tão zangado que lhe disse que a Luísa é que devia ser minha mãe. Assim que acabei de dizer senti um frio no estômago e calor nas bochechas e uma espécie de tontura e vontade de vomitar, pensei que ia morrer. A mãe também. Ficou paralisada a olhar para mim, os olhos cheios de lágrimas, e fechou-se no quarto a chorar. Senti-me muito mal porque não é verdade, a mãe é a mãe. Mas podia ralhar menos, estar menos vezes zangada comigo e com as pessoas todas. A Luísa está sempre feliz. Tem os labios muito bem pintados e cheira tão bem...

Não gosto quando os pais discutem. Sempre que o fazem é por minha causa, o que faz com que me sinta mesmo mal. Penso que se não tivesse nascido talvez eles não discutissem, talvez ainda estivessem juntos e fossem felizes. Às vezes penso que se não me tivessem tido a mim mas outro miúdo qualquer - ou uma miúda, quem sabe? - as coisas fossem diferentes. Pode ter sido a minha maneira de ser que os irritou, que os pôs um contra o outro, que deu cabo de tudo. O psicólogo diz que não é nada disso mas o que é que ele havia de dizer? Os pais pagam-lhe para me fazer sentir melhor, não pior.

No outro dia os pais discutiram muito porque o pai me trouxe muito tarde para casa. Foi mau porque nos tínhamos divertido tanto... tínhamos jantado fora e ido a uma feira e rimos até doer a barriga com parvoíces que o pai faz e diz. Ainda vínhamos a rir quando a encontrámos, à porta, com aquela cara que está mesmo a dizer que vai haver chatice. Estava furiosa, deu-me um puxão para dentro de casa e começou logo a gritar com o pai, que ele era sempre o mesmo irresponsável, que não servia para nada, que era um péssimo pai. Ele começou por ter calma, acho que estava mesmo espantado com a reacção dela, mas depois passou-se e gritou muito com ela. Não gosto que a mãe grite com o pai mas gosto ainda menos que o pai grite com a mãe. A voz dele é grossa e eu fico com medo. Nessa noite - como noutras noites - encolhi-me num canto com as mãos nos ouvidos, à espera que aquilo acabasse. Depois da porta bater com força já sabia que era a minha vez de ouvir. Quando está zangada a mãe é bruta comigo e magoa-me quando me empurra para me despachar a vestir o pijama e para lavar os dentes. Não me dá beijinho de boa noite e eu sei que também tive culpa porque devia ter pedido ao pai para nos despacharmos.

As férias também nem sempre correm bem. Oiço-os a quererem os mesmos dias de férias comigo, ou é muita pontaria ou fazem de propósito, não sei. Discutem pelos dias, porque no ano passado foi um, porque há dois anos foi o outro, e eu sinto-me outra vez partido ao meio. Não gosto de ficar partido ao meio. Quando se queixam um do outro a mim, não sei o que hei-de dizer. Digo sempre que sim, aos dois, porque quero que fiquem contentes e que achem que estou do lado deles. Mas parece que não posso estar do lado dos dois. É impossível, como uma traição. Quando vou de férias com o pai, a mãe chora mais do que nunca e abraça-me como se eu não fosse voltar. Faz a mala com as minhas piores roupas, aquelas de que eu não gosto nada, mas também não faz mal porque a Luísa já tem lá em casa um roupeiro inteirinho cheio das roupas de que eu mais gosto. Depois, quando falamos ao telefone a mãe faz imensas perguntas, o que fizemos, onde fomos, se estou bem. Eu estou bem, muito bem mesmo, mas não posso dizer isso com essa verdade toda. Digo que estou normal e, se possível, faço um ar de seca para ela pensar que não está a ser assim tão bom. Quando a Luísa se ri e a mãe ouve - a Luísa ri muito alto -, pergunta logo "de que é que essa parva está a rir? De mim?" Eu respondo baixinho, para ninguém ouvir, que não, claro que não é dela, alguma vez? E é verdade. A Luísa nunca se ri da mãe. Por que riria? Há coisas que eu não percebo. 

A mãe às vezes quando estamos em casa pergunta-me, assim do nada, como é a casa do pai, como é a Luísa, como é que eles se dão, o que é que eles dizem. Eu não respondo muita coisa porque sei que ela não vai gostar de ouvir. A casa do pai é grande, a Luísa é uma das mulheres mais bonitas do mundo, eles estão sempre de mão dada e aos beijinhos, nunca discutem. Respondo à mãe que é tudo normal e depois disfarço, finjo que me lembrei de qualquer coisa para fazer no quarto. Passo muito tempo no quarto. A mãe também não se importa, passa os dias triste e acho que prefere não ter de falar comigo. 

Tenho pena que a mãe e o pai se tenham separado. Lembro-me de quando éramos felizes, os três. Lembro-me mesmo. Eu não sabia que éramos felizes mas agora sei que sim. Depois o pai começou a chegar tarde a casa, começaram as discussões, até que acabou tudo. Tenho pena porque assim eu não tinha de passar por isto. Não tinha que me sentir partido ao meio. Sempre partido ao meio. Como agora, que estou a olhar para os presentes de Natal debaixo da árvore. 

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 Conta-me é uma rubrica de contos originais (ficcção) escritos por Sónia Morais Santos

 

Conta-me #7

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Estou sentada na cama, os pés pousados na madeira escura, pés que mal parecem pés, são como duas bolas raidas de roxo, com cinco berlindes nas extremidades. Olho-os e sinto uma súbita vontade de chorar. Acabei de acordar, ainda nem abri bem os olhos, e já estou assim, à beira das lágrimas. Passo as mãos na cara, e volto a olhar para baixo. As unhas também já deixaram de ser unhas, são garras de ave de rapina. Rio-me. Uma ave de rapina que jamais conseguiria voar. Bom, os Boeings também voam. Rio-me de novo. Sim, sou uma espécie de ave-Boeing, um animal em vias de extinção. Um dia destes extingo-me. Era o melhor. Foco-me de novo nas unhas. Tenho de as cortar mas não consigo. Ao que cheguei. Se a minha mãe ainda fosse viva podia pedir-lhe. Teria vergonha na mesma mas pedia. Mãe é mãe, ainda que a minha sempre tenha sentido repulsa por mim. Sim, talvez não tivesse coragem de lhe pedir, agora que penso nisso. Só de imaginar o seu olhar enojado preferia manter as garras. Seja como for, agora resta-me a assistência da Junta de Freguesia e ainda não tive coragem de falar nas minhas unhas dos pés. Já basta o que basta.

Sinto um cheiro a azedo e por momentos não sei de onde vem. Olho em redor, talvez alguma coisa estragada que esteja para aqui. Se estiver debaixo da cama também não vou conseguir apanhá-la, o melhor é esquecer e pedir às meninas da Junta quando vierem. Não demoro muito a perceber que o cheiro, afinal, vem de mim. Vem do meu peito, daquele intervalo entre as minhas mamas. Um cheio acre, a suor e a sebo. Largo num pranto. Que miséria humana sou eu. Serei ainda humana? O ser humano define-se por ser bípede e inteligente e eu sinto-me cada dia menos bípede e cada dia menos inteligente. À falta de falar com outros seres humanos ainda deixo de saber falar. No outro dia, nem conseguia dizer "cobertor" para explicar às meninas da Junta que precisava de menos calor na cama. Dei por mim a balbuciar inícios de pseudo-palavras, como se estivesse a tentar lembrar-me do nome, quando na verdade à segunda tentativa desisti sequer de me tentar recordar. Alguém resolveu o assunto soltando a palavra "cobertor" e eu, aliviada, exclamei "isso" como se realmente me interessasse. Não me interessa. É indiferente. Para quê saber as palavras se não temos mesmo com quem as usar? O vocabulário, de o utilizar tão pouco, está a sumir-se do meu cérebro. Ou então está a ser engolido pela gordura. Todo o cérebro a ser devorado por bolhas gordas famintas. Tipo pacman. Rio-me sozinha, outra vez, mas a verdade é que os meus olhos estão cheios de lágrimas. Nem a sábia capacidade de me rir de mim própria consegue já resolver esta nuvem negra que se ocupou de mim.

Levanto-me, decidida a ultrapassar o estado de auto-comiseração que me assolou. Está cada vez mais difícil erguer este peso que sou eu.  Cada passo faz estremecer a casa, quem me mandou viver num prédio de 1900? Imagino o vizinho de baixo a levar com caliça do tecto nos cereais, a olhar para cima e a pensar "olha, a baleia acordou". Caminho devagar, para evitar estragos. Pé ante pé, como um elefante numa loja de porcelana. Gostava de ir à rua. Não saio de casa há cinco anos. Comecei por ter tanta dificuldade em subir os 4 andares que chegava a casa num lago, um lago quente e amarelo, uma espécie de piscina do Terranostra em São Miguel. Ficava de tal maneira cansada que me deitava e só acordava no dia seguinte. Podiam ser oito da noite, duas da tarde ou dez da manhã. O resultado era igual: um cansaço-doença que me deitava à cama até ao nascer do sol no outro dia. Quando fiquei desempregada fui evitando sair. Indiferente. Não tinha mesmo onde ir. Pedia as compras online, pizzas por telefone, e como a minha vida social também nunca existiu estava perfeito assim. Nos primeiros tempos ainda recebia uma ou outra visita da Lurdes, da Dada, da Amélia. Mas os dias foram passando e elas deixaram de vir. E eu deixei de descer as escadas no dia em que rebolei (o termo não podia ser mais apropriado) um lance inteiro e acabei içada pelo matulão do 2º andar que pediu reforços na rua. Houve ali um momento, quando ele saiu disparado de casa para me socorrer, em que nos imaginei num caso tórrido. Não sei que disparate foi aquele, talvez tenha sido o ar preocupado que fez, a forma como me pegou na cabeça, os olhos nos meus, "está bem?", não sei o que foi que me fez pensar que podíamos beijar-nos ali mesmo e ele levar-me ao colo para casa. Nesse instante, acordei para a realidade. Levar-me ao colo para casa??? Ah! Ah! Ah! Tem juízo nessa cabeça, Sara. O homem é matulão, não é um super-herói da Marvel. E pronto. O sonho terminou quando ele foi buscar mais gente à rua e acabei arrastada até casa por uma pequena multidão em esforço.

Nessa altura já tinha mais de 150 quilos porque a balança de casa dava erro sempre que subia lá para cima. Hoje não faço ideia. Nem quero saber. 

Sempre fui gorda. Nasci gorda. A minha mãe fazia questão de o recordar vezes sem conta, para gáudio dos presentes. O parto mais infernal de todos. O pequeno texugo que pesava 4,780kg e que quase a matou. Vagina rasgada, incontinência urinária, dores inconcebíveis, infecções na ferida que foi o meu nascimento. Acho que ela nunca me perdoou pelos estragos. A Sara que a fez engordar 35 quilos na gravidez, a Sara que já era faminta dentro da barriga, a Sara que lhe destruiu a forma, a Sara que lhe rasgou o corpo, destruindo a sexualidade, a feminilidade, o prazer. A vida. Cresci com o seu olhar de revolta. Mesmo quando não queria, olhava-me com reprovação. Havia sempre crítica na forma como me via, como me respondia, como me educava. Cresci sentindo-me repulsiva, intrusiva, destrutiva, um fardo. Depois veio a escola e os epítetos. Dos animais terrestres aos aquáticos. Vaca, bisonte, elefante, hipopótamo. Lontra, baleia, orca. Meti-me ainda mais para dentro, esqueci a possibilidade de ser "normal". Podia ter feito uma dieta, podia ter sido mais forte, podia ter começado a correr (como tantos que vejo, para cima e para baixo, da minha janela). Podia. Mas acho que, no meu mapa de possibilidades, essa nem sequer aparecia. Eu era assim desde que era feto. Preferi assumir e continuar a comer. Mais e mais. Cada vez mais.

Sentada no sofá, olho para mim como se me visse de um ponto exterior a mim. Camisa de dormir desapertada, pernas abertas, cabelo desgrenhado. Um corpo imenso, que ocupa os três lugares do sofá, um corpo disforme ao qual pertence uma alma também disforme. Falhei o objectivo de largar a auto-comiseração. Como não falhar? Como não sentir pena disto em que me transformei? Tenho a televisão ligada, não oiço o que dizem, não os vejo, não quero saber. Não me interessam as horas, os dias, os meses. Escuto o tic tac do relógio, que me esfrega o passar dos segundos, dos minutos e das horas nos ouvidos, e pergunto-me quanto tempo mais demorará este coração a parar. Tic tac. Tic tac. Quanto tempo terei ainda de aguentar até que ele pare de vez, exausto de trabalhar para tanto corpo, tanta massa, tanto desespero. Aqui fico. Até quando?

 

"Conta-me" é, como o nome indica - e não mente - uma rubrica de contos, escritos por mim

 

Conta-me #6 (para maiores de 18)

O pior de tudo são as noites. É o costume, não é? Imagino que lhe digam sempre isto. É um daqueles clichés. Mas é. O pior são as noites. Os fins de dia e as noites. Limpo o pó, limpo todos os dias, é ponto assente, há sempre pó que se acumula. Endireito os livros, os bibelôs, parece que nunca estão no sítio certo. Mas as noites custam por causa do silêncio. Saber que nas outras casas há conversas, discussões, gargalhadas. E eu ali com aquele silêncio, sem ter alguém com quem comentar as notícias. Quer dizer, ter até tenho, que falo muito sozinha. Pronto, agora é que me interna de vez. Falo tanto sozinha. Se não o fizer, ao fim-de-semana em que não vejo ninguém, fico com medo que a voz se cole na garganta e deixe de sair na segunda, quando torno a precisar dela. De maneira que falo. Falo muito com a televisão: "Olha, o Marcelo, benza-o Deus, isto é que é um presidente"; "Olha mais um que se explodiu... isto era rebentá-los a todos, acabar com esta gente que nem gente é, a aterrorizar assim todo o mundo, não estamos seguros em lado nenhum". No outro dia, veja bem, dei por mim a dar as boas noites à Clara de Sousa. Até me lembrei da minha avó que Deus tem. Ela é que cumprimentava os locutores, porque achava que eles falavam para ela. É... somos assim uma família de gente doida. Eu bem digo que um dia destes me interna...

A verdade é que gostava de ter um homem com quem partilhar a vida. Nem sei bem como foi que aconteceu acabar assim sozinha. Nunca fui uma estampa mas, caramba, também não me acho assim um mono tão grande! Sou? Oh, diga a verdade... Nunca ia dizer se achasse, não é? Como é que fazia? Ah, sim, Marisa, tenho de ser sincero, é feia como a noite dos trovões, como é que esperava que alguém lhe pegasse? Ah ah ah. Já não lhe pagava a consulta hoje e nunca mais cá punha os pés! Mas agora fora de brincadeiras, vejo por aí com cada camafeu feliz de mão dada com alguém... e eu aqui sozinha. Saio de manhã para ir dar aulas, passo o dia com os miúdos, almoço com outros professores, durante algum tempo ainda procurava na sala de professores algum olhar, algum sinal de que podia ali nascer alguma coisa. Cheguei a fantasiar um clima com um colega, acreditei que ele olhava para mim da mesma maneira que eu olhava para ele. Chegava a casa e imaginava-nos juntos. Vai-se rir mas cheguei a pôr a mesa para dois. Com uma vela e tudo. Não foi uma vez nem duas. Foram muitas noites de mesa posta para dois. Ridícula. Depois, levantava a mesa, lavava a loiça, e a seguir fechava os olhos e chegava a sentir o calor da mão dele na minha, quando me enroscava no sofá a ver a novela. À noite, deitada, fingia que ele me tocava, que me queria, que me despia. Os meus dedos eram os dedos dele, entrava por mim como se não fosse eu, e quando atingia o auge do prazer, cansada, podia sentir a sua respiração ofegante, palavra de honra que sentia, o calor da sua respiração no meu pescoço, o corpo quente em cima do meu. A seguir invadia-me uma tristeza funda e abafava o choro na almofada, porque acordava do meu sonho e ali estava eu sozinha, como sempre.

Parei de fantasiar com ele quando começou a sair com uma colega nossa. Da primeira vez que os vi sairem da escola de mão dada pensei que o meu coração ia parar. Aquelas mãos eram as nossas. Aqueles risos deviam ser os nossos. Ele devia ser meu e eu dele. Os nossos corpos entendiam-se tão bem nos meus sonhos... Disparate. Eram só sonhos. Nada mais. Desde então não voltei a entregar-me a essas imaginações. São veneno. Mais vale assumir que é assim e assim será. Tenho 50 anos. Quem é que me vai pegar agora? Ainda se fosse divorciada, viúva... Mas solteira? Encalhada? Não. Ninguém me pegou até agora, não é agora que vão pegar. 

Vou-lhe contar uma coisa. Vai achar que sou perversa, uma tarada. Se calhar é mesmo desta que me interna. Tenho uma fantasia... oh, não conto. Tenho vergonha. Tenho tanta vergonha. Sim, eu sei. É para isso que cá estou, para contar estas coisas que me vão dentro e que o ajudam a ajudar-me. Mas vai achar que sou uma depravada e a crua verdade é que nada disto passa da minha cabeça para a realidade. Ok, eu conto, que se lixe. Imagino-me muitas vezes a entrar num táxi com uma saia e sem cuecas vestidas. E depois fantasio que abro as pernas e deixo o taxista ver-me, pelo espelho. A seguir, ele para o carro num ermo qualquer, abre a porta de trás e penetra-me com violência, uma violência que não é mais que um desejo animal. Pronto. Já contei. É a isto que cheguei. À vontade de ser tomada por um homem à bruta. Bati no fundo. No fundo da solidão mais funda.

Desculpe. Já lhe gastei quase os lenços todos de papel. 

Sim, já estou mais calma. Já passou. Tenho de agradecer a vida que tenho, deixar-me destes queixumes. Afinal, tenho saúde, tenho trabalho, tenho uma casinha para onde vou a seguir. Faço uma sopa de hortaliça, vejo os testes dos miúdos, levo a sopinha num tabuleiro para a sala, talvez beba um copo de vinho, e a seguir vejo a novela. O que é que quer? Gosto, pronto. Distrai-me. Depois deito-me, que amanhã o dia começa cedo. Durante o dia esqueço-me da solidão, porque estou rodeada de gente. O pior é à noite. Já tinha dito. Passo a vida a repetir-me, eu sei. Mas é que fora daqui tudo se repete também. Vá, não o maço mais. Até para a semana. 

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Edward Hopper 

Conta-me #5

O corredor comprido. Vozes desconexas. O perturbante perfume do éter. Batas brancas e diagnósticos incompreensíveis. Luzes. O bater do coração. E o medo. 

O medo.
«Um brinde a nós, o sexo forte». Marta, a mais extravagante das cinco. Sempre gostou de provocar, contar anedotas porcas ao pé de velhinhas católicas. Dizem que um dia apalpou um padre, mas no grupo nunca se chegou verdadeiramente a saber se teve atrevimento para tanto. Os copos bateram uns nos outros com estrépito, ameaçando a integridade do cristal. «Olhem, os gajos da coleira já estão a rosnar». Referia-se aos empregados de mesa, irrepreensivelmente aprumados, de colete e Iaço ao pescoço. As gargalhadas do grupo das quintas-feiras despenteavam-lhes a sobriedade. «É espantoso como os tipos se sentem importantes e finos só por terem um fato engomado! Depois saem daqui e vão de autocarro para casa, a contar as gorjetas». As amigas não resistiam à sua rebeldia indomável. E riam. Margarida ria sempre muito às quintas. E a essa hora, a essa fatídica hora, ria também. Como podia rir? Como podia não ter sentido?

Nessa manhã, Margarida Rebelo acordou à hora do costume. O rádio aos gritos, como sempre. O marido a segredar-lhe «São horas», como todos os dias. Levantou-se a praguejar, frases desordenadas sobre o Euromilhões que não havia
meio de lhe sair e a tristeza de passar toda uma vida a trabalhar para os outros. Enfim, uma manhã idêntica às demais.

João dormia destapado, um pé a sair da cama. A mãe gostava de o ver dormir. Ficava muitas vezes assim, na ombreira da porta, com a caneca do café quente na mão, a escutar a sua respiração profunda. Parecia-lhe impossível que aquele matulão de um metro e oitenta tivesse realmente nascido de si. Comovia-a olhá-lo, como fazia 18 anos antes, quando ele era só uma nesga de gente. Nessa manhã, Margarida não o espreitou. Estava atrasada e não o espreitou. Não há dia que passe sem que se arrependa. 

"Minha senhora, vai ter de ser forte". Palavras desprovidas de sentido. As pernas fracas. Forte? "O seu filho está em coma". O bater do coração. O medo. E agora?

E agora?

"Sabem qual é a diferença entre uma loira e um mosquito?" A Marta, de novo. Talvez a pessoa com maior habilidade para contar anedotas. Tinha a magia de transformar uma graçola desenxabida numa piada de chorar a rir. "O mosquito quando leva uma pancada pára de chupar!" Na mesa ao lado há quem se volte ostensivamente, mostrando desagrado, homens de fato e gravata que fecham negócios, homens de fato e gravata que parecem nunca ter esboçado um sorriso sequer. Marta não controla as gargalhadas vibrantes. Os copos cansam-se dos brindes, tantos brindes. "Ao sexo forte", à felicidade, ao Euromilhões, à amizade. E as barrigas magoam de tanto riso, como no áureo tempo da faculdade, em que eram conhecidas como "As Cinco". Só quando estão juntas conseguem alcançar a leveza conferida pela irresponsabilidade. Só durante os almoços das quintas-feiras experimentavam esse desatinado prazer do regresso à juventude.

A impossibilidade. A impotência. Em coma? O corredor comprido. Luzes. O odioso cheiro do éter. O Pedro a chegar de lágrimas nos olhos. Os dois abraçados na mesma incredulidade. Como é que ele está? O bater descompassado de dois corações. O medo.

João tinha escolhido o horário da tarde na faculdade. Os pais tentaram dissuadi-lo, "E durante a manhã, o que é que vais fazer? Dormir?" mas ele teimou que não, estudaria de manhã com a cabeça fresca - sabia usar expressões que convenceriam os pais e "cabeça fresca" era uma delas - e depois ocuparia toda a tarde com as aulas. Foi assim no primeiro mês. Do segundo em diante passou a dormir todas as manhãs, a chegar atrasado às primeiras aulas, a sair todas as noites. A mãe sossegava o pai: "Deixa-o. Está na idade."

Nesse dia, João dormiu até tarde, como habitualmente. Acordou em sobressalto, passou fugazmente por baixo do chuveiro, vestiu uma t-shirt e umas calças de ganga, pegou na mota e arrancou à pressa, a mão a acenar à dona Ana. Foi a última vez que a porteira do prédio viu o seu Joãozinho. "Vá com cuidado, menino. Vá com cuidado!", gritara-lhe ela, no segundo imediatamente anterior a vê-lo a sumir-se.

Na 2ª circular, trânsito parado. À uma da tarde, três filas de automóveis estáticos, cabeças de fora dos vidros em busca de razões, sirenes ao fundo.

À saída do restaurante, Margarida a tentar caçar o telemóvel, submerso no interior da mala. Uma mão às apalpadelas, carteira, caixinha das pinturas, agenda, chaves do carro, chaves de casa, escova do cabelo. O telemóvel submerso, o toque abafado e incessante, a mão num desespero de escavadora.

Em Benfica, a porteira a varrer o terraço, a cumprimentar a vizinhança, a comentar a vida alheia, "Sabia que o sr. Mário já não está com aquela rapariga, a Adelaide?", "Não me diga...", "Digo, digo. Aqui para nós, que ninguém nos ouve, também parece que ela era assim a modos que um bocado nervosa...", "Ah, sim?", "Não lhe contaram o que é que ela fez na semana passada?"

"Minha senhora, vai ter de ser forte." Palavras. Palavras avulsas, vazias de significação. As pernas fracas. Forte? "O seu filho está em coma." O bater do coração. O medo. E agora?

E agora?

Margarida a alcançar o telemóvel, teimoso. "Está? Sou sim".

Pedro numa reunião no escritório. A sala cheia, dez homens parecidos com os engravatados do restaurante onde Margarida e as amigas regressavam à juventude, projectos, discussões, cafés em cima da mesa.

Os carros a passar devagarinho, os olhares curiosos e mórbidos à procura de sangue, João inerte no asfalto, a mota debaixo de uma camioneta, um homem de mãos a agarrar a cabeça. Ambulâncias, bombeiros, polícia.

"Dona Margarida Rebelo?" "Sou sim", "Fala do Hospital de Santa Maria, vou pedir-lhe que tenha calma". Margarida em pânico, o coração num disparo, o medo. "O que foi? O meu filho, onde está o meu filho? O que aconteceu ao meu João?"

A dona Ana apoiada na vassoura, à conversa com a porteira do prédio ao lado.

Pedro a receber um telefonema, "Eu disse-lhe que não me passasse chamadas, Cláudia". Cláudia a morder o lábio num pedido de desculpa. "Desculpe, Dr. É a sua mulher. E está muito nervosa."

As cinco amigas a grande velocidade para o hospital, Margarida aos soluços, o riso transformado em lágrimas, a alegria convertida em drama, no maior de todos os dramas imagináveis, a juventude metamorfoseada em velhice. Margarida subitamente envelhecida, engelhada, carcomida, senil.

O corredor comprido. Vozes desconexas. O perturbante perfume do éter. Batas brancas e diagnósticos incompreensíveis. Luzes. O bater do coração. E o medo.

O medo.

"Minha senhora, vai ter de ser forte." Palavras desprovidas de sentido. As pernas fracas. Forte? "O seu filho está em coma". O bater do coração. O medo. E agora?

E agora?

A impossibilidade. A impotência. Em coma? O corredor comprido. Luzes. O odioso cheiro do éter. O Pedro a chegar de lágrimas nos olhos. Os dois abraçados na mesma incredulidade. Como é que ele está? O bater descompassado de dois corações. O medo.

Durante dois dias, a esperança. Um fio ténue e invisível a permitir a sobrevivência. Durante dois dias, a fé. Durante dois dias, a luta de uma mãe e de um pai pelo regresso do filho. Margarida falou com ele quase ininterruptamente. Deu-lhe a mão. Afagou-lhe os cabelos. Pediu-lhe que ficasse. João não pôde ficar.

Já passou um ano mas a dor mantém-se intacta. E agora? Como existir depois de perder um filho? Para quê existir?

Naquela manhã, Margarida não o espreitou enquanto dormia. À hora do acidente, Margarida ria e brindava e tudo isso lhe parece agora demasiado grotesco. Como é que pôde não sentir? Como é possível que uma mãe não sinta no peito a dor instantânea da perda? A dor da dor de um filho?
Os dias teimam em passar, apesar de tudo. Dizem que a vida continua. Talvez. Se quisermos chamar vida à existência pura e simples. Se quisermos chamar vida ao acordar, ao respirar, ao levar um pé à frente do outro. Margarida e Pedro costumam dizer que não vivem. Subsistem. É essa a resposta de ambos para a pergunta que persiste ainda hoje, um ano depois. E agora?

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Conta-me #4

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Sim, acabou por não ser mau de todo. Quer dizer, não tem comparação com a casinha onde estavam antes, que isto é mesmo assim. Era uma gaveta forrada a madeira e veludo, não tinha ponta de humidade. Vi outras ao lado, abertas, todas cheias de musgo, a gente punha a mão e estava molhado. A dos meus pais não. Sequinha. Nem cheirava a mofo. Tinha de ver. Uma maravilha, realmente. Foi o Armando, nosso vizinho lá nas Paivas, que se ofereceu para fazer aquele serviço em honra aos meus pais que o ajudaram muito em vida. Que Deus os tenha em sossego, coitadinhos. Eram boa gente. Sempre prontos para ajudar. O Armando também não era mau rapaz, o que é que tinha a cabeça fraca para o vinho. Começava a beber e depois pronto, estava tudo estragado. Faltava ao emprego, não aquecia o lugar muito tempo. Andava à pancada nos cafés, na rua, em todo o lado. Volta não volta aparecia com um olho à banda. Então, Armando, o que foi isso rapaz? Ó ti Júlia - ele tratava-me sempre por ti Júlia, coitadito - Ó ti Júlia caí. Ai, rapaz, muito cais tu. Ele ria-se. Daí a tempos, outro olho. Então, Armando? Caíste, foi? Tenho o pé pequeno, ti Júlia, isto para o equilíbrio é o diabo! Eu ria-me. Desgraçava-se, coitado. Diz que nem sempre foi assim. A Odete, do 36, diz que foi desgosto. Parece que a mulher o deixou, que o trocou pelo irmão. Diz ela! Que eu não ouvi pela boca dele, nem vi nada, não sei. Mas se assim foi também não se faz. Um irmão roubar a mulher a outro? Também é chato, coitado do homem. Não sei se foi isso ou não e agora também já não posso perguntar-lhe, que já não está entre nós. Sim, há coisa de uns meses levou uma pancada de um carro - bêbado que nem um cacho - e ficou-se logo ali, como um passarinho. Pobre diabo.

Bom, mas de uma coisa não há dúvida. Era muito jeitoso de mãos, o Armando. Foi um dia lá medir o espaço, comprou a madeira, o veludo bordeaux. Ficou um primor. Por isso, sim, quando nos disseram que a porta da gaveta não tinha arranjo e que tínhamos de encontrar outra para meter os meus pais fiquei arreliada, não vou dizer que não. Para ser franca, nem dormi nessa noite. Estas coisas mexem com a gente. Os meus paizinhos lá na sua gaveta, tão bem acomodados, e agora isto? Ter de os mudar, ter de os desassossegar. Os mortos querem-se em sossego. Não é cá para andar a mudar de casa, que muito já eles andaram em vida. Não é? A morte quer-se quieta.

Lá fui, então. Vesti o vestido preto e levei o lenço de renda na cabeça, também preto. Não consigo entrar de outra maneira no cemitério, acho que o preto é a cor do respeito pelos mortos. Mesmo que não estejamos de luto no dia-a-dia, porque aí temos de respeitar os vivos. Mas ali, na morada dos que já partiram, o preto é a nossa forma de lhes dizer que temos saudades. Comprei umas gerberas bonitas, uma mão cheia de gipsofila, prendi tudo com papel de alumínio e fui então à procura de uma gaveta livre que pudesse servir de nova morada aos meus pais, que Deus os tenha. Não sei explicar a razão mas sinto sempre o peito apertado, quando caminho por aqueles corredores com gavetas de gente morta. Levo sempre a cabeça baixa, quase como se tivesse medo. Disparate, não é? Medo de quê? A gente tem de ter medo é dos vivos, esses é que podem fazer-nos mal. Os mortos, coitadinhos, estão para ali em sossego e não podem fazer nada a ninguém, mas há coisas que não se explicam, até parece que sinto assim uma culpa por estar viva e eles não. Acho que é isso. Caminho como se pedisse desculpa. E como se estivesse triste, como se a vida não valesse assim tanto a pena, que é para os mortos não ficarem sentidos. Parvoíces minhas. Adiante.

Andei corredor acima, corredor abaixo, e nada. Só gavetas muito rentes ao chão, ia lá pôr os meus ricos pais ali? Numa gaveta tão em baixo, logo eles que sempre estiveram num andar alto? É tolice, claro. Eles não apreciam a vista. Ai, credo, Deus me perdoe, tanta parvoeira junta. Mas é assim que eu sou. Tenho estas manias. E digo sinceramente: ali, rente ao chão, não ia pôr os meus pais. Sujeitos a levar com toda a lixarada, as folhas, as porcarias todas? É que a gente sabe como é: não andam sempre a varrer. E depois? A sujidade toda a entrar na gaveta? Não. Pode parecer estúpido e admito que seja, mas relembro que os meus pais tinham uma gavetinha muito jeitosa, toda forrada pelo Armando, que era fraco para o vinho mas tinha umas mãos de ouro. 

Finalmente, já derreada das pernas e aflita dos joanetes, encontrei. É uma gaveta alta, está num corredor largo, um bocadinho mais afastado da entrada mas paciência, também não vou lá todos os dias. Não é a mesma coisa, que isto é mesmo assim. Falta-lhe o interior de madeira e veludo bordeaux, é fria, tinha algumas ervitas que já arranquei, mas pronto. O que não tem remédio remediado está. Já não há Armando para fazer o forro e, sinceramente, também não me sinto com forças para ir agora à procura de quem faça um trabalho como deve de ser. Sim, acabou por não ser mau de todo. Que Deus os tenha em sossego. Eram boa gente. E, já agora, que Deus não se esqueça também do Armando. E dos outros todos, que morrem. É triste morrer. Tão triste que a gente, mesmo que já não esteja de luto, continua a entrar de cabeça baixa nos cemitérios. Como se pedíssemos desculpa por estarmos vivos. 

Sónia Morais Santos

Conta-me #3

Foi logo depois do enterro. Caminhávamos ainda com os pés pesados, aquele andar arrastado de quem traz a dor presa às pernas, seguíamos entre ciprestes (sempre os ciprestes) com aquele silêncio condoído de quem traz também a dor agarrada às cordas vocais, e foi então que ela me perguntou:

- Tu sabes que o avô nunca foi mineiro, não sabes?

Engelhei o nariz, franzi o olhar como se me tivesse tornado míope e não conseguisse ver quem me fazia a pergunta.

- Hã?

Chamava-se Manuel Barriga, o meu avô, e viveu toda a sua longa vida na aldeia de Mina de São Domingos, concelho de Mértola, Alentejo profundo. Tinha sido mineiro. Vida dura, passada debaixo de chão. O mesmo chão onde o tínhamos deixado ainda agora, como que um regresso às origens.

Lembro-me de me sentar ao seu colo e de o ouvir contar as histórias de quando ia, com os outros, para os seus dias de escuridão. Acordava às cinco e meia da manhã, todos os dias. A mulher - minha avó - a essa hora já lhe havia feito o pequeno-almoço e a marmita para levar. Beijavam-se longamente porque a minha avó tinha sempre medo de não o tornar a ver. Findo o beijo, ele dava-lhe uma festa na cabeça, e dizia:

- Até já, minha loira.

Todos os dias isto. Como um guião a que tivessem de obedecer.

De seguida, o meu avô Manuel saía para a escuridão da madrugada, que ainda assim era mais luminosa que o negrume da mina.

A mina. Lugar de toupeiras. Cheiro a terra, a cobre, a medo. Gélida pela manhã, um braseiro quando o sol ia alto. Lá dentro, os homens-toupeira sabiam que o sol ia alto pelas gotas de suor que lhes deslizavam cara abaixo, corpo abaixo, acresentando ao cheiro a terra, cobre e medo também o cheiro ácido a calor e a esforço.

O meu avô contava as histórias da mina com uma intensidade dramática, gesticulando muito, levantando a voz, fazendo sons guturais que me povoavam os sonhos e os pesadelos e a infância inteira.

Lembro-me vividamente do relato da derrocada. Os homens todos ali, enterrados vivos, ofegantes, surpreendidos pela terra que os devorava, faminta. Uns ficaram soterrados, os outros, presos numa galeria, fizeram o que o desespero mandou. Uns prantaram-se de joelhos a rezar ("Alguns diziam-se ateus, António! Mas na hora do aperto... ai, na hora do aperto, sabiam as preces de cor!"), outros choravam pelos filhos, pelas mulheres, pelas mães. Poucos se mantinham homens, como antes. A maioria tinha como que regressado a um estado infantil, de uma fragilidade confrangedora. Aos gritos, aos saltos, a pedirem mimo, como numa birra de sono. O meu avô jurava que alguns haviam mesmo diminuído de tamanho ("não era só na altura, António, eles estavam como que reduzidos, mirrados, esvaziados deles mesmos").

- Hã? Como assim, "o avô não era mineiro"?

Dois dias ali metidos, sem saber se os iam conseguir salvar. Defecando no espaço exíguo, comendo nada, bebendo coisa nenhuma, vazios de esperança e de humanidade. Salvaram-se. O meu avô ficou manco de uma perna, a maior parte ficou manca da cabeça, com pesadelos, medos, angústias, choros. Homens para sempre feitos crianças, por culpa da terra. 

- O avô nasceu manco, António. Foi mal de nascença.

- Hã?

Foi então ali, entre ciprestes, que a minha irmã me disse palavras ao início incompreensíveis. O nosso avô nasceu com uma perna diferente da outra. Mais curta, mais estreita, mais fraca. Nunca andou direito, teve sempre de se amparar a duas canadianas para conseguir caminhar. Incapaz, nunca pôde trabalhar. Ainda para mais na mina, único posto de trabalho que a aldeia oferecia aos homens ali nados e criados. Trabalho para homens completos de pernas, braços, de corpo inteiro. De maneira que o meu avô passou a vida inteira a ver os homens passarem de manhã, beijando as mulheres e levando na mão as marmitas preparadas por elas com desvelo, para voltarem ao final do dia, mascarrados e exaustos, com cheiro a terra, cobre e medo. Encontrava-se com eles ao entardecer, na taberna do Arnaldo, para lhes sorver as histórias. Histórias de vidas duríssimas, que ninguém no seu juízo perfeito poderia invejar. E, no entanto, o meu avô daria tudo para ser um deles. Daria tudo para ter também aquela vida dura, feita de escuridão. Porque qualquer negrume seria melhor do que o seu, que era oco, estéril, seco. Inútil. 

Parei, entre ciprestes. Voltei para trás. Ajoelhei-me na campa do meu avô mineiro, limpei as lágrimas, e segredei-lhe:

- Chegaste a casa, finalmente, avô. Descansa.

 

Sónia Morais Santos

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Conta-me #2

Veste um pullover verde já muito coçado, borbotos naquele lugar do torso onde os braços roçam, uma ou outra nódoa antiga, camisa de quadradinhos por debaixo, calças de bombazina castanhas, sapatos de sola gasta comprados no Paraíso do Calçado, estabelecimento comercial onde já o pai comprava sapatos, junto à estação. Ernesto Augusto Pacheco, quando não veste assim, veste muito parecido a assim. Pullover azul já muito coçado, borbotos naquele lugar do torso onde os braços roçam, uma ou outra nódoa antiga, camisa de riscas por debaixo, calças de bombazina bordeaux, sapatos de sola gasta comprados no Paraíso do Calçado, estabelecimento comercial onde já o pai comprava sapatos, junto à estação. Mais coisa menos coisa, é isto. No armário, castanho e bordeaux. Nas gavetas da cómoda, verde e azul. 

Mas não é apenas no vestir que Ernesto Augusto Pacheco é reincidente e enfadonho. Ernesto Augusto Pacheco, revisor de profissão, é homem que aprecia a ordem e toda a gente sabe que a ordem é prima direita da repetição. Assim, no que toca às refeições, por exemplo, Ernesto Augusto Pacheco segue os análogos rituais há cerca de vários anos, procedimento que lhe confere segurança gástrica e alegria intestinal. O mesmo com os gestos, copiados todos os dias, os pés a saírem da cama enfiados nos chinelos de xadrês, primeiro o direito, depois o esquerdo; o roupão verde vestido de seguida, primeiro a manga direita, a seguir a esquerda; o escanhoar da barba a ecoar um som peculiarmente familiar, de baixo para cima, face direita primeiro, face esquerda depois; e por aí fora, numa mimese que outros suporíam impossível mas que para Ernesto Augusto Pacheco representava o prazer supremo da vida. Dia após dia após dia isto, sem tirar nem pôr, porque quer o tirar quer o pôr dar-lhe-iam cabo dos nervos.

Ernesto Augusto Pacheco vive sozinho desde que saiu de casa dos pais, aos 17 anos, tendo feito há pouco 52. Nunca se lhe conheceu mulher, namorada, namorado ou animal de estimação. Ao fim-de-semana, se tiver a sorte de não precisar de sair para comprar algum artigo de primeira necessidade, permanece mudo e quedo todo o sábado e todo o domingo, de tal forma mudo e quedo que, à segunda, quando volta a comunicar com outros seres humanos chega a sobressaltar-se com o som da sua própria voz.

E, em bom rigor, Ernesto Augusto Pacheco não precisa muito de comunicar com outros seres humanos. O seu trabalho é ler páginas e páginas e páginas de livros e livros e livros. Ou melhor, páginas e páginas e páginas de textos que virão a ser livros, depois de revistos por si e de impressos pela gráfica. Passa por isso dias e dias e dias a ler palavras e frases à cata de erros de ortografia ou de sintaxe, a examinar gralhas, espiolhando parágrafos em busca de uma vírgula a mais ou a menos, e rosnando impropérios ao encontrar uma calinada qualquer, malditos-pretensos-escritores-que-nada-sabem-da-língua-e-julgam-que é-só-meia-dúzia-de-patacoadas-e-cá-vai-livro-palavra-de-honra.

Um dia, que seguia igualzinho ao anterior e que por essa simples razão era já um dia suficientemente bom na vida de Ernesto Augusto Pacheco, calhou escutar uma conversa entre o Azevedo e a Lídia, que não haviam dado pela sua chegada (sinal inequívoco da falta de atenção de ambos à vida, uma vez que o colega chegava sempre à mesmíssima hora). Comentavam então os dois metediços a inexistência de uma mulher na vida do revisor, conjecturando sobre se isso faria dele homossexual ou tarado, quem sabe pedófilo ou desses que se sentem atraídos por animais. E dito isto riam, imaginavam coisas e riam alarvemente, com lágrimas e tudo. Não podia acreditar. Ernesto Augusto Pacheco sentiu um rubor subir-lhe às bochechas, o coração disparar, um suor frio percorrer-lhe as têmporas. Não sabia se o mal-estar era provocado pelas enormidades que acabara de escutar sobre si mesmo ou se pela contrariedade que sentia por aquele episódio lhe modificar o rumo do dia. Saiu da sala sem que dessem por ele, foi à casa de banho refrescar a cara e retomar o fôlego, e voltou procurando cumprimentá-los com o mesmo bom dia de sempre, com a entoação costumeira, e o facias usual, para que não lhe notassem qualquer diferença nos actos, nos gestos, no modo. Por dentro, porém, Ernesto Augusto Pacheco fervia. Mal conseguiu trabalhar, tal era a agitação que lhe ia dentro. Só pensava em formas de lhes provar o quão enganados estavam, em como ele era homem como o suposto, mais homem que o Azevedo, mais homem que o marido da Lídia, mais homem do que qualquer homem que aqueles dois já tivessem conhecido.

E foi assim que a vida de Ernesto Augusto Pacheco mudou. Passou os dias seguintes a criar uma conta de facebook - algo de que evidentemente não dispunha até então -, a convidar os colegas para serem seus amigos, a procurar na internet uma fotografia de uma mulher de beleza unânime, loira, voluptuosa, de lábios carnudos e olhar verde, e a criar-lhe também a ela uma conta de facebook. Uma noite, fez magia entre os dois. O seu facebook revelava que ele e a loira que baptizou de Laura estavam "numa relação". Sorriu de uma felicidade que não se lembrava de alguma vez ter vivido. Sentiu um frémito ao imaginar-se com aquela mulher de expressão lúbrica, e percebeu que o seu desejo talvez não estivesse morto, talvez apenas adormecido. Dedicou-se a fazer posts e respectivos comentários. Fotografias de um jantar a dois. Dois copos, dois pratos, uma flor. "Um jantar inesquecícel", escrevia Ernesto Augusto Pacheco. E ela, Laura, comentava "Sem dúvida, meu amor". Quando terminava de escrever o comentário da amada, o revisor sorria um sorriso sardónico e experimentava uma felicidade que o completava. Parecia que lhe explodia o peito. Proliferavam os corações, os "meu amor", os "adoro-te", as piscadelas de olho cúmplices. Ernesto Augusto Pacheco era, por fim, um homem aos olhos dos colegas, ainda incrédulos com o tamanho das novidades. Ernesto Augusto Pacheco era, por fim, um homem aos seus próprios olhos.

Sentia-se melhor do que nunca. Aquela relação fazia-lhe bem. Mudava-lhe o curso dos dias, o que se presumiria trágico mas se revelava, afinal, uma descoberta maravilhosa. Começou por sair da cama sem calçar os chinelos, sem vestir o roupão, sem passar a lâmina pela barba. Esquecia-se de preparar o galão onde devia mergulhar a carcaça com manteiga, como sempre. Entrava no serviço a sorrir ou a assobiar, conversava com as pessoas, deixava passar gralhas, uma ou outra vírgula, nunca os erros ortográficos, que até para o devaneio há limites. Comprou roupa nova, já não vestia o pullover verde já muito coçado, borbotos naquele lugar do torso onde os braços roçam, uma ou outra nódoa antiga, camisa de quadradinhos por debaixo, calças de bombazina castanhas, sapatos de sola gasta comprados no Paraíso do Calçado, estabelecimento comercial onde já o pai comprava sapatos, junto à estação. 

Ernesto Augusto Pacheco estava apaixonado. Laura era a mulher da sua vida, com os mesmos gostos pela leitura, os mesmos autores preferidos, a mesma forma correcta de escrever. Os dias eram tão diferentes agora. Tão alegres, tão cheios de surpresas e possibilidades. Já não se sentia sozinho, na profunda solidão da sua vida. E era um homem. Muito mais do que alguma vez havia sido.

Sónia Morais Santos

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 "Conta-me" é, como o nome indica (e não mente) uma rubrica de contos 

Conta-me #1

Imagino que me ache um monstro. Não, não, esteja à vontade, não lhe levo a mal. Eu própria às vezes olho para o espelho e digo, Maria Isabel, tu és um monstro. Depois há outros dias em que me desculpo, arranjo o cabelo, passo um rímel nos olhos, torno a olhar para o espelho e digo, Não, Maria Isabel, tu não és um monstro. Na verdade, era o melhor para todos.

O melhor. Ao que uma pessoa chega. Pensar no fim como o melhor. Parece impossível, é por isso que eu digo de mim paa mim, Maria Isabel tu não digas essas coisas a ninguém, tu fica-te com os teus pensamentos e nem te atrevas a comentá-los em voz alta, não vão as pessoas achar que não tens coração, que és má rês, que és um monstro. Mas depois também sinto necessidade de desabafar, compreende? No trabalho não falo, entro muda e saio calada, não gosto que saibam da minha vida, prefiro que não olhem para mim e pensem, Olha, lá vem a Maria Isabel, coitada. Sempre me afligiu essa ideia de ser uma coitada, mesmo sendo, como sou. E depois venho para casa e aqui fico. A romena que me ajuda fala pouco português, entendemo-nos quase só por gestos e pouco mais, é só: Violeta, a mãe comeu bem? Violeta, conseguiu dar-lhe os comprimidos todos? Violeta, onde é que está a minha camisola azul? Mas onde é que eu ia? Ah, sim, a necessidade de desabafar. Pois, também não é com a Violeta. Diga? Não... não... os meus filhos têm a vida deles. Chegam tarde a casa, metem-se no quarto e pronto. Mas também não me sentiria bem a desabafar com eles, afinal sou eu a mãe, eles os filhos, e não consigo dizer-lhes que estou cansada, que não aguento mais, que chego a desejar que isto acabe de uma vez por todas. Já viu se eles olham para mim e pensam, Mãe, tu és um monstro?

Mas agora diga-me. Olhe bem para ela. Quem não saiba até pensa que ela está ali entretida a ver a novela. É, não é? Mas a gente depois vem aqui, passa-lhe a mão diante dos olhos e ela, coitadinha, nem pisca. Tirando os dias em que está mais nervosa, em que parece que até espuma, valha-me Deus, é preciso a força de dois homens paa a agarrar. No outro dia, saiu-me para a rua sem a Violeta dar conta, só por milagre é que não foi atropelada, ia-me sem roupa, veja bem, uma senhora com 74 anos como veio ao mundo pela rua fora, foi aí um sarilho para a convencer a voltar para casa. Já viu o que isto é? Já viu o que é ligarem-me para o escritório e dizerem: a sua mãezinha fugiu de casa toda nua, andamos a ver se a apanhamos mas ela grita muito e debate-se e não há quem lhe deite a mão? Diga-me. Ponha-se no meu lugar e diga-me se isto é vida. Largo tudo, venho a correr, chego aqui e dou com aquele espectáculo, a minha mãe naqueles preparos, uma demente, e eu, Ó mãe, ó mãezinha, então?, venha para casa, vá, olhe que se constipa, tenha juizinho. As coisas que a gente diz. Juizinho...

E depois somos quatro nesta casa tão pequena, há dois anos que durmo encolhida, há dois anos que acordo vezes sem conta a meio da noite, há dois anos que ela se levanta ou grita ou então não diz nada e eu acordo sobressaltada a pensar: foi desta. O que e que sinto quando penso que foi dessa? É uma boa pergunta. Sinto... Quando vou no corredor a caminho do quarto atropelam-se-me os pensamentos: imagino-a morta e dói-me o peito, uma dor lancinante, um aperto muito forte, uma tristeza profunda. Sinto-me sozinha, percebe?, muito sozinha. Depois começo a pensar: ora então, ligar para a agência, arranjá-la, o que é que lhe visto?, o saia-casaco com que ela dizia que queria ir já não lhe serve, talvez lhe ponha a blusinha de seda e um casaquinho de malha. Imagine bem a patetice, vai-se rir, mas chego a pensar: ai, só o casaquinho de malha é pouco, vai mal agasalhada. Imagine ao que uma pessoa chega. Mal agasalhada... Ó Maria Isabel, a mãe vai morta, qual mal agasalhada! De que é que tens medo? Que se constipe? Ai , que isto até parece mal, estar aqui a rir-me que nem uma parva, mas é para rir. É para rir... Mas onde é que eu ia? Ah, o que é que eu sinto. Sinto medo, sim, sinto medo. Mas também sinto - e é aqui que me vai achar um monstro - também sinto alívio. Penso: olha, acabou-se. Descansa ela, descanso eu, descansamos todos. É isso, é. Um alívio, uma leveza, quase um contentamento. Não é fácil. Desculpe. Emociono-me muito. Pois é. Quer mais um cafezinho? Não? De certeza? E é assim. É assim a minha vida. Emagreci doze quilos desde que isto começou. As pessoas comentam, Ai a Maria Isabel está tão magrinha, está tão sumida... Depois há as que perguntam: Então a sua mãezinha? Está melhor? Melhor! Há alturas em que até sou bruta: Qual melhor? Isto tem lá melhoras? Isto é sempre a piorar, minha senhora. As pessoas fazem uma cara enfiada, encolhem os ombros e despedem-se com o inevitável: Então as melhoras. Já não digo nada. Desisto. De maneira que é assim. Há dias em que - sou muito franca - me sinto um monstro por desejar que isto acabe. Olho para mim e digo, Maria Isabel, tu és um monstro. Mas talvez não seja. Não sei. 

Sónia Morais Santos

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 "Conta-me" é, como o nome indica - e não mente - uma nova rubrica de contos