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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Querido António Maria

Ontem fez 22 anos que eu e o teu pai começámos a trabalhar juntos. Todos os anos, desde então, fizemos questão de o celebrar. É curioso, porque não foi algo para que nos tenha dado com o tempo, qual nostalgia de dois velhotes que tivessem compreendido, com o passar dos anos, o quanto era bom que as suas vidas se tivessem cruzado. Não. Os festejos arrancaram logo no ano seguinte, quase como se tivessemos precocemente a certeza de que aquele dia se ia repetir para sempre. E foi. E vai. 

Repara no que ele me ofereceu, logo no primeiro aniversário. O trabalho a que se deu para marcar a data. Conheces mais algum chefe que fizesse uma coisa destas para uma jornalista acabada de formar, no seu primeiro aniversário na empresa? Ainda és novo, não conheces muitos chefes, mas acredita em mim: não vais tropeçar em muitos assim (a menos que tenhas a sorte que eu tive). Isto é raro. O teu pai era raro.

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Escrevo-te publicamente porque há já alguns anos que no dia 1 eu e o teu pai tínhamos esta mania de nos escrevermos publicamente. Ele começou, nos editoriais do DNA, depois eu repliquei o gesto, quando criei o blogue, e ele continuou-o também no seu blogue (a última vez foi ESTA). Nunca deixámos de dizer um ao outro a felicidade que sentíamos, eu por ter respondido ao anúncio que ele pôs no Público, ele por me ter escolhido entre 700 candidatos. Eu era muito, mas muito mais afortunada que ele. Mas ele tinha a mania de dizer que havia total reciprocidade, o que me deixava feliz, claro, apesar de saber que era mentira. O que ele me deu não tem comparação com o que eu lhe dei a ele.

Trabalhar com o teu pai foi perfeito. Uma aprendizagem diária. Ele era exigente sem precisar de ser duro. Nós todos queríamos fazer bem porque ele era tão bom que não merecia menos do que isso. Eu queria fazer sempre melhor, queria que ele gostasse do que lia, e ficava em apneia sempre que sabia que ele estava a ler um trabalho meu. Não esbanjava elogios. Quando um texto estava bem era capaz de não dizer nada (o que me deixava com olhos de Gato das Botas), quando gostava mesmo muito era capaz de escrever um editorial inteiro a enaltecer o trabalho e o seu autor.

O teu pai foi a primeira pessoa que acreditou em mim, creio que mais do que até a minha mãe ou o meu pai. Ao longo da vida e até ter começado a trabalhar com ele, acho que senti sempre que eles olhavam para mim sem grande fé. Nunca fui grande aluna na escola e, atendendo a essa mediania académica, julgo que não esperavam de mim grandes feitos profissionais. Ou então estou a ser injusta e isto era mais o que eu própria sentia, por culpa de uma relativamente fraca autoestima. Não importa. O que interessa reforçar é que foi aquele homem, que já tinha quando o conheci um percurso notável (no Independente, na Capa, na Visão), acreditou em mim, sem dúvidas. Foi-me dando progressivamente mais e mais palco, primeiro devagar, um perfil primeiro, um blind-date a seguir, e depois a primeira entrevista, a primeira reportagem, e por aí fora. 

Trabalhar com o teu pai era, além do mais, uma festa. Ríamos muito todos os dias e, quando nos mudámos para um pequeno cubículo do Diário de Notícias, onde nascia semanalmente o DNA, as nossas gargalhadas eram um corpo estranho na vetusta redacção que, não poucas vezes no início, nos olhou com desconfiança e desprezo. 

Com o teu pai fiz de tudo um pouco: ajudei na pesquisa para as suas entrevistas na televisão, fiz de telefonista para esses programas em que os espectadores entravam em directo por telefone, fiz de motorista e fui buscar alguns convidados a casa no carro da RTP, participei no teu programa na Rádio Comercial onde aprendi que, apesar de não ser um directo, a gravação era "live on tape", não havia lugar para enganos. No DNA, fiz entrevistas, perfis, reportagens, grandes entrevistas, crónicas. 

No outro dia, um jornalista conhecido dizia-me que tinha lido coisas muito boas minhas dessa época. Dizia ele "foi a tua década dourada". E foi. Foram os melhores anos da minha vida profissional. Começar a vida profissional com um projecto como o DNA é uma faca de dois gumes: por um lado é avassalador e inesquecível. Por outro lado, depois de se estar no cume da montanha mais apetecível, todas as outras escaladas nos parecem menos interessantes. Há como que um desânimo perante o que sobra. Sim, foi a minha década dourada. E apesar desse desalento que se lhe seguiu, não a trocava por nenhum emprego no mundo. Nem por dez Euromilhões. Trabalhar com o teu pai foi o meu Euromilhões. 

Quando deixámos de trabalhar juntos (ainda o repetimos quando ele teve o projecto "Nós" do jornal i) continuámos a contar os anos, como se nada tivesse mudado (quando, afinal, tudo tinha mudado tanto). E prometemos sempre que ainda havíamos de arregaçar as mangas num projecto conjunto que nos fizesse felizes. Sempre que joguei em jogos de azar, desde que deixámos de trabalhar juntos até Novembro do ano passado, um dos meus sonhos era criar essa revista e tornar o teu pai director (eu faria o que sempre gostei de fazer: reportagens). Ainda tenho muitos destinos para o Euromilhões, se o ganhar, mas a ausência dele fez com que esse sonho se desvanecesse. Uma coisa é certa: não vou criar revista alguma. Que se lixem as revistas.

Escrevo-te, António, porque este foi o primeiro ano em que não pude repetir estas coisas todas ao teu pai. Sim, éramos terrivelmente enfadonhos e todos os anos fazíamos questão de reiterar a nossa amizade, a nossa gratidão (a minha sempre maior, ainda que ele insistisse que não). Escrevo-te porque, apesar de saberes de cor o pai que tinhas, acho que nunca é demais ouvi-lo (neste caso lê-lo) de quem teve o privilégio de trabalhar e privar com ele durante 22 anos. Ontem foi um dia tristíssimo para mim mas, na tentativa de ser daquelas pessoas que vêem sempre o copo meio cheio, foi também e será sempre um dia muito feliz: o dia em que, em 1996, comecei a trabalhar com o teu pai.

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