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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Peter Pan forever

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Envelhecer não é tão simples como parece quando somos novos. Quando temos a vida toda pela frente envelhecer é um conceito distante, quase abstracto, até. E ninguém nos prepara para o momento em que, de repente, compreendemos que estamos a envelhecer. Dir-me-ão: "ah, estamos todos a envelhecer desde que nascemos". Ou outro belíssimo lugar-comum: "o envelhecimento está na nossa cabeça". É verdade mas não é inteiramente assim. Envelhecemos também no corpo. E envelhecemos socialmente, com tudo o que isso implica numa sociedade que exalta a eterna juventude. E envelhecemos profissionalmente, numa sociedade que privilegia as pessoas novas, não só pela sua suposta "energia" e pensamento "fora da caixa", como também porque os que acabam de chegar ao mercado de trabalho são mais baratos e menos reivindicativos. Vejam-se as redacções (que é o meio que conheço bem), cheias de gente nova e perdendo cada vez mais a memória. Ninguém quer saber como era antes. Estamos num mundo que só quer saber como vai ser agora e depois. O que passou passou, ainda que o que passou nos possa ensinar tanto sobre o presente e sobre o futuro. Mas quem diz as redacções diz as empresas, na sua generalidade. Olhamos para a maioria dos funcionários e não vemos gente mais velha, delicada ou violentamente chutada para canto, como convém neste mundinho jovem que habitamos.

Sabemos que estamos a envelhecer quando, além de algumas dificuldades físicas, emocionais, profissionais e sociais, fazemos balanços. É subitamente compreender que se chegou ali a metade da vida (com sorte) e fazer uma espécie de "deve e haver" cujo resultado, se não dá conta positiva, é uma chatice do caraças. Quando somos novos sentimos que podemos comer o mundo. Quando envelhecemos damo-nos conta de que, em bom rigor, foi mais o mundo que nos comeu a nós. E mesmo quando o saldo é positivo não deixamos de pensar: "E se?" E se eu tivesse feito diferente? E se ainda pudesse fazer? Que vida teria sido a minha se tivesse escolhido outro caminho? Que milhares de outras possibilidades teria de viver de outro modo?

Algumas pessoas não encontram prazer no envelhecimento. Diria mesmo que a maioria. Mas não confessam, claro. Afinal, a sociedade não exige apenas que tenhamos uma aparência jovem; exige também que pareçamos sempre felizes. 

A ideia de parecer sempre jovem espalha-se como um veneno. Os cremes das mulheres passam a ser anti-rugas, anti-idade, muitas mulheres começam a ceder à pressão e esticam-se aqui e além, contentes com o resultado que apagou as suas rugas e, por vezes, pelo caminho apagou também todos os traços que lhes davam graça e características únicas e tornam-se todas clones umas das outras. Há cada vez mais produtos e cirurgias que prometem reverter aquilo que é, na verdade, irreversível. Vivemos subjugados por quem insiste em contrariar a degradação celular. Quem não segue a tendência e permite que a idade chegue, sem lutas vãs, é olhado com desconfiança. 

E depois há quem insista em ilusões, calculando conseguir fintar a passagem indelével dos anos. Uma das coisas que sempre me perturbou foi os homens que, ao fim de décadas de uniões aparentemente (e mais do que aparentemente, em muitos casos) felizes, largam tudo por uma mulher muito mais nova com quem, pouco depois, têm filhos. A cena é-me ainda mais dolorosa quando percebo que as primeiras mulheres já não estão em idade fértil, parecendo a troca ainda mais uma traição cruel. Não é só a troca pela troca. É a troca de uma mulher que já esgotou uma função por uma que ainda tem essa função no auge. Soa-me sempre a filha da putice. É desleal, é injusto, é duro. Claro que também há mulheres maduras a arranjarem rapazinhos, claro que sim, há de tudo. E também há separações porque sim, porque as relações anteriores nunca funcionaram e foi a chegada da idade que trouxe a coragem e a determinação para romper com o que não fazia sentido. Um brinde a essas.

Envelhecer é um desafio e quem diz o contrário é porque ainda lá não chegou ou porque chegou mas está claramente em negação. E atenção: um desafio não tem de ser algo mau, negativo. É só mesmo isso: um desafio. Uns superarão com distinção. Outros medianamente. E haverá sempre os que reprovam, rejeitando as evidências, buscando o elixir da eterna juventude, vivendo a síndrome de Peter Pan.  Não é que faça mal. Não faz. Mas é puro logro.

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