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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Pedro Choy

O meu sogro trouxe, há umas semanas, o caderno com os meus trabalhos do DNA de 2003.

Entre eles, estava esta entrevista, que fiz ao Pedro Choy.

Uma história de vida muito impressionante, que refiro muitas vezes quando alguém se queixa da vida. Lembro-me que a minha própria irmã, numa fase da sua vida em que gostava de se lastimar de alguma má sorte que tinha tido, ouviu muitas vezes esta história. 

Vale mesmo a pena conhecer.

 

Entrevista de Sónia Morais Santos

Fotografias de Augusto Brázio

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Tem um aperto de mão como deviam ser todos. A mão aberta, primeiro. A mão fechada, depois. Os ossos da gente uns de encontro aos outros, um calor que permanece durante um pedaço e a sensação de que, efectivamente, se foi cumprimentado. 
Pedro Choy tem 43 anos. Filho de pai português e mãe chinesa, nasceu em Macau mas foi em Portugal que passou toda a infância, que cresceu e se fez homem. Um homem que vive ainda obstinado pela ideia da perfeição, incutida desde sempre pelo pai, e que se reflecte em tudo o que faz. Provavelmente até nos apertos de mão.
Estudante de Medicina em Coimbra, foi-se desiludindo com o curso e com a realidade que observava nas urgências do hospital: as pessoas eram tratadas como máquinas cujas peças tinham uma avaria, sem sentirem qualquer humanidade por parte dos médicos que as atendiam. «Este não é o meu ideal de Medicina», decidiu. Com o 4º ano concluído, seguiu para Marselha com o objectivo de tirar o curso de Medicina Tradicional Chinesa. Cinco anos depois, abria a primeira clínica em Coimbra. Pedro Choy tem actualmente 18 clinicas espalhadas pelo país, é presidente da Associação Portuguesa de Acupunctura e vice-presidente da Federação Europeia de Medicina Tradicional Chinesa. A Salvaterra de Magos, onde vive, chegam pessoas de todo o mundo para serem consultadas por ele. Talvez assim não seja de estranhar que sofra de
um complexo de superioridade. A verdade é que a mania da perfeição o persegue. Até mesmo nos apertos de mao.

Há quanto tempo está a viver em Salvaterra de Magos?

- Há cerca de cinco anos, altura em que decidi que viver em Lisboa fazia mal à saúde.

Não recomenda a ninguém viver em Lisboa.

-  Não, de maneira nenhuma. As pessoas têm um stress muito grande, passam horas no trânsito, andam enervadas, atrasadas, sem paciência para ninguém, agridem-se verbalmente, agridem-se fisicamente. Estava cansado.

Nota essa diferença nos seus pacientes, aqul em Salvaterra?

- Sabe, eu recebo aqui pessoas vindas não só de todo o país como de todo o mundo. Vêm cá pessoas de África, do Brasil, de propósito para me consultar. Por incrivel que pareça já veio cá uma pessoa de Pequim para me consultar. É um absurdo, não percebo porquê. Penso que tem um bocado a ver com a comunicação social. 

E com o facto de as pessoas terem já uma confiança no seu trabalho. Porque muitas vezes, nesta área, existe um certo receio por parte do paciente em relação a algo que ainda lhe é relativamente desconhecido. . .

- O facto é que a formação em Medicina Chinesa nem sempre é boa. E como não existe regulamentação das chamadas Medicinas nao convencionais, há por todo o lado pessoas a exercer sem competência. Isso faz com que o cidadão não sinta, efectivamente, essa confiança.

A ausêncla de lei torna este um território fértil para pessoas menos sérlas.

- Posso dizer-lhe que conheço vários casos de chineses a trabalhar em acupunctura na Europa, e em Portugal também, que na terra deles eram auxiliares de cozinha. 

Isso é assustador.

- E quando digo isso, refiro-me também aos ocidentais. A maioria das pessoas que exerce em Portugal não tem formação. Existem honrosas excepções à regra. Mas sem lei, seja em que profissão for, haverá sempre pessoas desonestas que vão exercer sem a formação adequada.

Quantos anos de estudos são precisos para se ter uma formação adequada?

- Um curso de Medicina tradicional chinesa tem no mínimo cinco anos.

Tem sido um lutador incansável pela legalização da Medicina chinesa.

- Desde o primeiro dia em que comecei a trabalhar em Portugal, creio que em Outubro de 1086. De resto, o meu primeiro dia de trabalho não foi clínico. Reuni os jornalistas em Coimbra (foi lá que comecei a exercer) e fiz questão de lhes explicar quem era e qual a minha actividade. Na altura a situação era ainda mais grave porque ninguém conhecia o termo Medicina chinesa, nem valia a pena falar dele. Além disso, a acupunctura era sobretudo praticada por pessoas que faziam simultaneamente vidência, adivinhação, leitura de cartas, astrologia. Não tenho nada contra esse tipo de práticas, todas as pessoas têm direito às suas crenças. Agora, cada coisa no seu lugar.

E foi isso que foi dizer aos jornalistas?

- Foi. Confesso que, na altura, não tinha noção do grau de ignorância em relação à Medicina chinesa. Era muito maior do que eu pensava. Quando cheguei aos jornalistas e disse quer era acupunctor, a primeira pergunta de todos foi: "O que é isso?" Houve até um hornalista que perguntou: "Apicultor? mas como é que se pode criar abelhas numa cidade?"

É uma prática relativamente recente em Portugal.

- Na altura era. Penso que agora já toda a gente conhece a Medicina chinesa.

De qualquer forma, a acupunctura continua a ser mais conhecida do que o resto da Medicina chinesa.

- Eu próprio achei que tinha de se travar uma batalha de cada vez. Por outro lado, naquele tempo, usar-se o termo Medicina era meio caminho andado para se ser preso. A lei portuguesa é clara em relação a isso. É uma lei de 1942 e, portanto, temos que nos reportar à época. Por um lado, em 1942 vivíamos sob um regime ditatorial. Por outro, os únicos conhecedores de saúde em Portugal eram os médicos. Um enfermeiro tinha a 4ª classe e depois, durante seis meses, frequentava um curso de enfermagem. Os tempos mudaram. Hoje um enfermeiro tem um curso superior de cinco anos.

Os tempos mudaram mas a lei é a mesma.

- É a mesma e diz o seguinte: quem se intitular médico e tratar pessoas, se não for médico e não estiver inscrito na Ordem os Médicos Portuguesa incorre em pena de prisão. Para a lei portuguesa não basta ser médico para se exercer Medicina. É preciso também estar-se inscrito na Ordem dos Médicos. Portanto, na altura, utilizar-se o termo Medicina podia levar um indivíduo honesto à cadeia, mesmo fazendo outro tipo de Medicina que não tivesse nada a ver com a Medicina tradicional.

Acha que ainda estamos muito longe do dia em que a Medicina tradicional chinesa vai estar regulamentada?

- Existem lobbies poderosos muito interessados em impedir a evolução destas práticas. O mais poderoso é o lobby do medicamento. Porque é sobretudo o lobby que perde dinheiro com as Medicinas ditas não convencionais. Não são os médicos. E a Ordem dos Médicos tem sido instrumentalizada por esse lobby das mais diversas maneiras.

Quantos processos é que a Ordem dos Médicos já lhe moveu?

- Cerca de dez.

Perdeu algum?

- Não. Ficaram todos arquivador na primeira instância. Nenhum chegou sequer a julgamento. Não havia matéria para julgamento. Os juízes do ministério público, logo na fase de instrução, resolveram todos invariavelmente arquivar os processos.

Já se diverte.

- Até faço mais: vou à comuniação social dizer que me moveram mais um processo e passado um mês ou dois mando um fax à Ordem dos Médicos a agradecer.

A agradecer?

- Graças a eles, e aos processos que me movem, a minha clientela vai aumentando. Aliás, acho que devo parte do meu sucesso à Ordem dos Médicos e aos processos que me move.

Hoje em dia, ainda há pouco falávamos sobre isso, praticamente toda a gente sabe o que é a acupunctura. Ainda assim, pedia-lhe que me falasse um pouco sobre esta prática.

- A acupunctura é um ramo da Medicina tradicional chinesa, em que se utilizam agulhas para interferir nas ordens de comando do organismo, via sistema nervoso, no sentido de promover um equilíbrio e uma regularização do organismo. Ou seja, introduzindo agulhas em terminações nervosas, conseguimos produzir estímulos no sistema nervoso periférico (e acessoriamente central) que vão promover um acto reflexo e fazer com que o organismo responda, promovendo uma alteração positiva do seu comportamento. De uma forma simplista para o cidadão comum, há pontos de acupunctura que odem acelerar o ritmo cardíaco e há pontos de acupunctura que podem reduzir o ritmo cardíaco. Ou o mesmo ponto estimulado de uma maneira pode aumentar o apetite, estimulado de outra pode diminuir o apetite. Estes pontos de acupunctura ficam em terminações nervosas.

Que são muitas.

- São cerca de 4000. Há 365 pontos ditos principais. A maior parte dos acupunctores que têm baixa formação dizem que existem 365 pontos de acupunctura. É frequente ver-se escrito esse tipo de informação errada. Só para ter uma ideia do quão errado isto é, digo-lhe que só a orelha, o pavilhão auricular, tem 390 pontos.

Conhece-os a todos?

- Não posso garantir que, instantaneamente, sei exactamente onde é que estão os 4000, 5000 pontos do nosso organismo. Porque são realmente muitos. É a mesma coisa que perguntar a um médico se ele conhece todos os medicamentos. Nenhum médico conhece todos. Mas terá acesso a manipular qualquer um dos medicamentos existentes se for necessário, porque tem a formação suficiente para os procurar e descobri-los.

A saúde, para a Medicina tradicional chinesa, baseia-se no equilíbrio das energias. O que é que pode provocar desequilíbrio e, logo, a doença?

- Em primeiro lugar viver. A vida é um desequilíbrio, é um caminhar entre dois pólos, como tudo na natureza. Tudo tem um pólo positivo e um pólo negativo. Viver promove desequilíbrio, promove desgaste. A primeira condição para se estar doente é estar-se vivo. Todos nós, sem excepção, estamos doentes. Uns mais, outros menos. Se levar um médico chinês a uma maternindade, ele encontra doença em todos os recém-nascidos. Doença presente e doença hipoteticamente futura. Porque consegue classificar, de acordo com alguns sinais e sintomas do recém-nascido, sinais de reconhecimento de desequilíbrios das energias.

Um médico chinês numa maternidade seria o pavor de todas as mães.

- Poderia ser para as mães ocidentais, não habituadas a este tipo de conceito. Aliás, essa é uma das grandes diferenças da educação ocidente-oriente. E penso que a educação ocidental é responsével por muita da patologia psicológica e psicosomática do adulto jovem.

Porquê?
- Porque as pessoas são educadas num mundo cor de rosa. Um mundo em que não há Yin e Yang, não há bem e mal. Às crianças só é dado ver o bem. E, a dada altura, descobre-se o mal, porque ele faz parte da própria vida. Esta dicotomia entre dois pólos opostos existe sempre em todo o lado.

Isso é interessante. Os ocidentais escondem o pólo negativo para proteger os mais novos?
- E acabam por prejudicá-los. Os orientais são educados desde que nascem na noção de que qualquer coisa tem o seu contrário em simultâneo. Bern e mal existem sempre juntos. Então, não têm o mesmo choque de adolescência e de jovem
adulto que têm os ocidentais, que criam graves conflitos existenciais com repercursões que, às vezes, ficarn para sempre.

A acupunctura pode curar tudo o que a Medicina chamada convencional pode curar? Dou-lhe um exemplo: alguns tipos de
cancro, detectados precocemente, são curáveis pela Medicina convencional. A acupunctura tem essa capacidade também?

- A acupunctura pode ser aplicada em qualquer problema de saúde, seja ele qual for. Mas o mais importante é o facto de ambas as Medicinas serem perfeitamente compatíveis. E poderem ser exercidas em simultâneo, para beneficio do paciente. Justamente por terem mecanismos de acção tão distintos, tão diferentes, que nunca se chocam, nunca colidem. É por isso que a definição de Medicinas paralelas é tão perfeita. Porque é realmente o que são: podem caminhar lado a lado, em simultâneo, sem nunca se tocar.

Reencaminha, em algumas circunstâncias, os seus pacientes para os médicos ditos convencionais?
- Trabalho sempre em colaboração com a Medicina convencional, quer o médico que está a tratar dos meus pacientes o saiba, quer não saiba. Dizemos sempre ao paciente que não pode, de maneira nenhuma, abandonar a Medicina convencional, nem os medicamentos que está a tomar. Em contrapartida, como a Medicina chinesa trata sobretudo a causa
das doenças, mais cedo ou mais tarde, o paciente vai melhorar dos sintomas. E será o próprio médico o primeiro a retirar-lhe os medicamentos quando eles deixarem de ser necessários. E a retirá-los da forma que têm de ser retirados. Porque tudo tem técnica. Dar fármacos tem técnica e retirá-los também. E deve ser quem os prescreve a retirá-los.

Não toma fármacos?
- Tomo quando é preciso. E não tenho problema nenhum, não tenho nada contra. Não se deve ser fundamentalista.

Também exlste o contrário? Médicos da chamada Medicina convencional a reencaminharem os pacientes para a Medicina tradiclonal chlnesa? 

- Sim. Todos os dias recebo pacientes enviados do médico. E todos os dias envio pacientes ao médico. E recebo muitos médicos na qualidade de pacientes.

A Medicina tradicional chinesa é cara?

- Infelizmente, para a maioria das pessoas é. Uma das circunstâncias pelas quais me tenho batido é a necessidade de o cidadão ter acesso a estas práticas também pela via estatal. A Associação Portuguesa de Medicina Chinesa, a que eu presido, está a criar centros de atendimento gratuito. Há já um centro a funcionar em Almeirim, destinado a uma população carenciada. Estão neste momento em projecto outras clínicas gratuitas, que serão patrocinadas por mim e pela Associação Portuguesa de Acupunctura. Mas isto devia competir ao Estado Português.

Quanto custa exactamente uma consulta, um tratamento?

- A Associação Portuguesa de Medicina Chinesa recomenda que se cobre 50 euros por uma consulta e 30 euros por uma sessão de acupunctura. Estes valores estão abaixo dos praticados por qualquer especialidade de medicina convencional. Bastante abaixo até. O problema é que a acupuntura exige uma repetição de sessões. São tratamentos de longo prazo.

Esses são valores recomendados pela Associação Portuguesa de Acupunctura. São os que pratica?

- Não. São os que praticam as minhas clínicas. Eu, Pedro Choy, cobro 120 euros por uma consulta.

Como tem 18 clinicas, imagino que esteja rico.

- Depende do que se entende por rico. Estou longe de ser uma pessoa pobre. Penso que, enquanto indivíduo, devo ser das pessoas que paga mais impostos em Portugal.

Gostava muito de poder dlzer o mesmo.

- De qualquer das formas - e isto vai parecer que é conversa - acho que o dinheiro não tem nenhum valor. Nada do que fiz foi feito por dinheiro. Não foi a minha motivação.

Mas que dá muito jeito, dá.

- Não me queixo de ter muito. Mas penso que conseguia viver com aquilo com que vive qualquer cidadão português e ser feliz na mesma.

Em que é que gasta o dinheiro? Quais são os seus prazeres?

- Tenho um vício que passa pela adrenalina. Quem me vê não imagina, porque sou uma pessoa muito calma, tranquila. Justamente porque a minha adrenalina está muito domesticada pelo facto de fazer karaté há 37 anos.

Chegou a trelnar um campeão do mundo.

- Fiz vários campeões do mundo. Fui o primeiro português a fazer um campeão do mundo. Acho que quando se faz artes marciais a um nivel internacional fica-se um bocado viciado em adrenalina. Quando era novo descarregava isso nas motas. Hoje tenho tendência para gostar de carros desportivos. Costumo ter carros desportivos. É a única coisa em que faço alguns excessos. Não sou pessoa de excessos. Tenho uma vida perfeitamente normal, visto-me normalmente, não compro roupas de marca. Nunca comprei roupas de marca na vida. As roupas que trago hoje devem ter, pelo menos, uns sete ou oito anos, se nao tiverem mais. Alias, vê-se, estas calças já estão desfeitas na baínha, esta camisa já está descolorada. Não ligo a coisas materiais, nunca liguei. Tenho uma ascendência rnuito pobre, sou filho de gente muito pobre.

Nasceu em Macau. Com que idade veio para Portugal?
- Com três meses. O meu pai era militar de baixa patente. Quando rebentou a guerra colonial chamaram todos os efectivos que consideravarn válidos para a guerra. Foi assim que viemos para Almeirim, onde vivia a minha avó. Nos primeiros meses ficámos a viver em casa dela. Um ano depois de termos chegado a Portugal, o meu pai foi mandado para a guerra. E passou lá os primeiros 14 anos da minha vida.

A sua mãe ficou sozinha com quantos filhos?
- A minha mãe, que é chinesa, ficou sozinha com quatro filhos, três rapazes e uma rapariga. Sozinha, numa terra estranha, sem falar uma palavra de português. Quando digo que éramos pobres, não exagero. Tive electricidade pela primeira vez aos 15 anos. Havia uma única torneira em casa, as instalações sanitárias eram no fundo do quintal e consistiam num buraco feito no chão, rodeado por uma cabana de madeira feita por nós, crianças, com tábuas e pregos. Todos os anos tapávamos aquele buraco com terra e abríamos outro buraco ao lado. Isto eram as nossas instalações sanitárias. Além disso, partilhava a cama com o meu irmão mais velho, na cozinha. Estudávamos à luz dos candeeiros a petróleo, mas estivemos sempre entre os
melhores alunos no liceu. De outro modo não teriamos ido para Medicina.

Foram todos para Medicina?

 

- Todos excepto a mais brilhante de nós. A minha irmã foi para Biologia. Hoje é professora catedrática em Kalmar, na Suécia, e é uma das investigadoras mais reputadas do mundo em Genética. Tem 30 anos. Neste momento está a trabalhar num projecto para a Organização Mundial de Saúde que se destina a combater a malária.

Há alguma razão para que todos tenham enveredado pela área da saúde?
- Nao. Aconteceu. Eu desde criança que tive sempre vontade de curar. Não sei porquê.

Gostava ainda de voltar ao facto de a sua mãe ter ficado sozinha, num país que não era o seu, com quatro crianças. Ela em-
pregou-se?
- Não podia. Além de não ter com quem nos deixar, não falava português, era muito difícil comunicar com as pessoas. A minha mãe cozinhava a carvão, lavava fraldas de pano, remendava e fazia as nossas roupas, porque nao havia dinheiro para comprar. Mas posso garantir uma coisa: podíamos ser pobres, podíamos usar roupas usadas, velhas, dadas, mas estavam limpas. Podia nao haver dinheiro para comer carne mas tínhamos, pelo menos, arroz todos os dias. Arroz e leite. Não passávamos fome do ponto de vista quantitativo.

Não se lembra de passar fome.

- Passei fome mas já em adulto, enquanto estudante universitário. Uma das coisas que me marcou muito foi ter pedido uma bolsa de estudo e ter-me sido recusada, quando estudei Medicina em Coimbra. Criou-me uma grande revolta... Fui trabalhar. De resto, antes de entrar para a faculdade aos 14 anos, prevendo qualquer dificuldade tentei armazenar dinheiro e trabalhei na Compal, em Almeirim. Exerci um cargo pomposamente chamado de higienista, que na prática queria dizer lavar a fábrica toda. Alias, foi um cargo que escolhi porque era o mais bem pago. Tinha um subsídio de risco porque era necessário lavar as máquinas por dentro. E às vezes havia acidentes. Além disso, era preciso carregar às costas sacos de 50 quilos de soda cáustica. E a soda cáustica, como o nome indica, é... cáustica.

Durante quanto tempo fol «higienista»?
- Mais ou menos durante um ano. Enquanto não era chamado para a Compal, ia trabalhar noutras coisas: nas vindimas, na apanha do tomate, como servente de pedreiro. Até que, quando cheguei a Coimbra, tinha um dinheiro economizado mas acabou por não ser o suficiente. Foi aí que passei fome.

O que é que comla?
- Comia uma vez por dia, ao almoço, na cantina da universidade de Coimbra. Não tocava na maçã e no pão. Embrulhava-os e levava para casa, para me servirem de ceia. É difícil dormir quando se tem fome.

Como é que deu a volta?
- Decidi romper com uma das minhas coerências filosóficas, que era a de que ensinar karaté devia ser gratuito. A fome também faz repensar um pouco este tipo de convicções. E foi então que comecei a ensinar karaté, sendo remunerado por isso. Algum tempo depois de ser mestre de karaté convidaram-me para trabalhar em segurança. E eu aceitei. Fui segurança de discotecas e, mais tarde, fui convidado para ser guarda-costas.

 A sérlo? Não fazia ideia.
- Fui guarda-costas de algumas figuras conhecidas por esse mundo fora. Era contratado para fazer reforço de segurança, ou seja, em circunstâncias de perigo. Isso permitia-me trabalhar durante duas semanas, três semanas, um mês, a remunerações absolutamente impensáveis.

O que são remunerações impensáveis?

- Num desses meses era possível ganhar mais do que dez famílias portuguesas ganhavam num ano. Mas corria-se risco de vida, sem dúvida.

O que é que os seus pais pensavam disso?

- Nunca chegaram a saber. Eu tinha a minha independência, vivia em Coimbra. Aliás, houve uma ruptura com o meu pai aos 17 anos, uma ruptura...

De gerações.

- Não só de gerações. o meu pai era muito exigente, muito duro connosco. Filho dele tinha de ser o melhor.

lsso é um peso?
- É. Um peso muito grande. Nós tínhamos de ser os melhores em tudo. Não era só na escola ou só no karaté. Era em tudo. Quando tinha 17 anos fazia quase tudo ao mesmo tempo: judo, karaté, esgrima, equitação, atletismo. Fazia seis horas de desporto por dia e era o melhor da turma, na escola. E ainda trabalhava nas férias. Claro que isso fez com que não tivesse tido tempo para ouvir música, para ir a festas, a primeira vez que dancei já tinha vinte e tal anos.

Estávamos na ruptura com o seu pai.
- Foi em 77. O meu pai tinha chegado da guerra no final de 1975 e vinha com um stress pós-traumático muito forte, que felizmente já ultrapassou. 

Graças também à acupunctura ou não?

- Não, ultrapassou sozinho. É um homem muito forte. Mas estamos a falar de alguém que passou 14 anos de guerra em zonas terríveis. Vinha muito alterado e tinha uma exigência tão grande, tão grande, que se tornava incompatível connosco. Para já tínhamos de andar de cabelo rapado. Depois, tínhamos de chegar a casa a determinadas horas, rígidas, inflexiveis. E era obrigatério que fôssemos os melhores em tudo o que fizéssemos. Ele estava presente em qualquer competição desportiva em que participássemos e ai de nós se não ganhássemos. O segundo lugar nunca chegava. Tinha de se ganhar.

lsso é de uma vloléncla...

- Agora imagine uma pessoa que faz judo, karaté, esgrima, marcha, equitação e atletismo. Claro que eu não conseguia ser o melhor em tudo. Era o melhor em algumas coisas. A tal fase de ruptura deu-se um dia em que o meu pai me disse: «Estás a viver em minha casa, portanto tens de fazer o que eu quero!»

lsso soa-me a algo muito familiar...
- Quase todos os pais dizem isso aos filhos, é verdade. Mas eu tinha 17 anos, uma personalidade muito forte, e tinha aguentado tudo até aquela altura. Disse: então, se é assim, vou-me embora. E houve uma ruptura que durou alguns anos. Felizmente foi ultrapassada. Uma das vantagens da maturidade é que traz alguma sabedoria.

Tirando a exigência, como é o seu pai?
- É o homem mais honesto que conheço. Para ele a honestidade é o primeiro valor. Aquilo que está certo, aquilo que é justo, aquilo que é honesto é o que tem de ser feito, independentemente das consequências. O men pai preocupa-se com coisas tão peculiares como, por exemplo, nao apanhar uma multa por mau estacionamento. Para ele, apanhar uma multa por qualquer coisa como mau estacionamento é uma coisa grave, é uma coisa que o faz sofrer. Porque ele faz o que pode para ser o cidadão mais honesto do mundo.

E como pai?
-  Sempre foi um homem de uma ternura extraordinária, o que é curioso se pensarmos que teve 14 anos de guerra. Sempre teve muito carinho para dar aos filhos todos, no pouco tempo que tinha connosco.

Havia na vossa relação alguma cerimónia pelo facto de não estarem sempre juntos ou não sentiu isso?
- É preciso pensar que o meu pai é militar. E os militares são muito exigentes e duros na sua educação. Conto-lhe um episódio: terminada a guerra, ele foi dos últimos a sair de Angola, já chegou a Portugal em finais de 75. Os Beatles estavam na moda, os três rapazes tinham o cabelo comprido e a primeira coisa que ele fez quando chegou a casa foi mandar-nos rapar o cabelo. «Só falo com vocês depois». Contudo era um homem muito meigo. Claro que para nós foi um desgosto terrível ir cortar o cabelo.

E a sua mãe?

- É uma pessoa extraordinária. Muito doce. Além do mais é uma sobrevivente. A minha mãe perdeu a família toda quando tinha seis anos. Com a invasão japonesa. Ela era natural da região de Cantão, mais ou menos a 200km de Macau e, na sequência da invasão, a família fugiu.Até porque as pessoas sabiam da crueldade dos militares japoneses. Não sou matavam os homens e violavam as mulheres, como as matavam com requintes de malvadez. Só que, naquele fluxo de multidão a fugir, ela e um irmão de dois anos que levava às costas perderam-se da família. Acabaram por chegar a Macau. Ou seja, 200 km a pé. Em Macau, a minha mãe foi adoptada por uma família de chineses e separada do irmão, que foi adoptado por outra família. Perdeu completamente o contacto com o irmão e com o resto de toda a família original. Foi adoptada mas tratada como criada de servir. Até que conheceu o meu pai, aos 20 anos, e casou.

Como é que se conheceram?

- Frequentavam a mesma padaria. A história deles passa também pelo stress pós-traumático da minha mãe. O meu pai era militar e estava vestido de militar. E num dia de chuva, para não sujar o espaço da padaria, bateu com as botas, sacudiu-as com vigor à entrada da padaria. E a minha mãe fugiu a correr, com medo. Ele fixou-a e no dia seguinte pediu-lhe desculpa. E assim nasceu um amor muito bonito, que dura até hoje.

Quando vieram para Portugal, a sua mãe devia sentir muitas saudades de casa, de Macau.

- A primeira coisa que a minha mãe sentiu em relação a Portugal foi um medo muito grande pelo facto de não haver pessoas.

Como assim?

- Não nos podemos esquecer que a China tem uma densidade populacional muito grande, Macau também. Lisboa para ela era um deserto. Mais ainda Almeirim. O meu pai assegurava-lhe vezes sem conta que não havia nenhuma espécie de guerra, que estava tudo bem. Não havia nem guerra, nem peste, nem epidemias. Porque ela não conseguia acreditar que a população da terra dosse mesmo só aquela, que não estava ninguém escondido.

Isso é extraordinário. Para ela era outro universo.

- A minha mãe, além de ser chinesa, vestia-se de forma completamente chinesa. Naquela altura, em Almeirim, nunca ninguém tinha visto um chinês. As pessoas andavam atrás dela como quem vê um extraterrestre. Faziam fila para a ver. A ponto de, um dia, ela ter desatado a fugir e ter caído, porque tinha medo. Por outro lado, o meu pai era o único adulto com quem ela conseguia falar, dado que não falava português. É uma sobrevivente, a minha mãe. Uma mulher muito especial.

E a sua avó, em casa da qual viveram nos primeiros meses?

- A minha avó chamava-se Maria da Graça. Era cauteleira e vidente.

Cauteleira e vidente? Devia ser uma personagem fantástica.

- Era conhecida como a bruxa. Lembro-me de passar e ouvir as pessoas dizer: "Olha, lá vai o neto da bruxa!"

Incomodava-o?

- Eu fui educado para ser forte. Nós fomos vítimas de chacota, não só por sermos pobres mas também por sermos chineses. No meu caso, por exemplo, inventavam-me nomes. Chamavam-me "Choy-Roy.Foy-Coy-Moy...", tudo acabado em oy.

A típica crueldade das crianças.

- O meu pai sempre me ensinou a dar como resposta, quando as pessoas me chamassem chinês: "Pois é. É por isso que sou melhor do que tu": Foi muito inteligente da parte dele, a forma como nos educou. Acabei foi por desenvolver um complexo de superioridade.

Mantém esse complexo de superioridade hoje?

- Infelizmente mantenho.

Gosto dessa sinceridade.

- Lembro-me que, quando rtinha 15, 16 anos, as pessoas diziam "É pá, tu tens a mania que és bom". E eu respondia: "Não, não, estás muito enganado. Não tenho a mania. Eu su bom."

Chamar-lhe complexo de superioridade é uma forma de pôr as coisas. A outra é chamar-lhe vaidoso.

- Não. Não sou vaidoso. Acho que este complexo de superioridade deu-me para ser paternalista. Fui sempre defensor dos mais fracos. Daqueles que precisavam de ajuda.

Mas, voltando ainda à avó.

- A minha avó era uma pessoa muito ambígua. Uma pessoa muito amarga com a vida. E como era muito amarga com a vida, despejava esse azedume visceral em cima de todas as pessoas que a rodeavam. Para começar, dizia mal de toda a família. Fosse quem fosse, filhos, netos... dizia o pior possível. Também tinha uma história dura. Casou com um homem chamado Pedro, que não conheci porque morreu de tuberculose quando o meu pai tinha dois anos. A minha avó ficou sozinha a tomar conta de três crianças. Vendia cautelas para viver e era vidente, que acho que era uma tradição que vinha de família. Fazia cartomância, sobretudo lia as cartas. Também sabia ler as linhas das mãos. Mas não cobrava nada. Eventualmente aceitava ofertas mas nunca dinheiro. Ensinou-me a fazer essas coisas todas.

Ainda sabe fazer?

- Sei mas não faço. Mas a avó, como era velhinha, precisava de companhia, até porque, entre outras coisas, tinha medo dos ladrões. E vivia numa casa, o mais rústico possível. Era uma casa sem divisões, as divisões foram feitas por nós com tábuas. Era uma casa sem chão, o chão era de terra. E eu fui o neto que viveu mais com ela. Porque como era assim visceral, os outros netos tinham um grande repúdio por rla. Eu era o que tinha mais paciência.

Como eram esses serões?

- Havia um buraco no chão, uma cavidade, dentro da qual se fazia uma fogueira. E os serões eram passados à volta desse buraco. Um dos meus entretenimentos, além de ouvir as histórias que ela contava, era pegar na terra, que era mesmo barro, pôr-lhe água e fazer estatuetas. Ao mesmo tempo, no candeeiro a petróleo que nos iluminava, existia um púcaro de metal que fazia o café. O café levava aí uma hora ou duas a fazer, se não fosse mais. Depois quando estava pronto, dividia-se pelos dois. Era um café de borras, aquelas borras antigas, que depois era passado por um pano normal.

Uma avó mágica.

- Uma outra coisa curiosa era que ela fumava. Uma mulher daquela idade, do povo, naquela época, não fumava. Era uma figura muito típica. Vestia-se com roupas fabricadas por ela que eram feitas de recortes de trapos, em que havia um pedaço de uma cor, outro de outra, outro às riscas...

Patchwork.

- Perfeitamente. Era assim que ela se vestia.

Como é que ela encarou o casamento do seu pai com a sua mãe?

- Muito mal. O pior possível. Aliás, a minha mãe foi muito maltratada pela minha avó.

É casado?

- Sou casado. Sou pai de três filhos. O Artur com 5anos, o Filipe com 3 e a Ema com poucos dias.

E vai ser tão exigente com eles como o seu pai foi consigo?

- Vai ser difícil porque eles herdaram algumas coisas do pai, entre elas a teimosia. O critério chinês diz que nada é bom, nem nada é mau, tudo é bom e mau em simultâneo. E a teimosia é um grande defeito e uma grande qualidade. É um grande defeito porque ser teimoso é chato. Mas é uma grande qualidade porque faz com que as pessoas consigam vencer, insistam. Porque vencer não depende de mais nada a não ser da capacidade de trabalho, da insistência, da vontade, da perseverança. A maior parte das pessoas desiste quando perde. E é preciso perceber que, para ganham uma vez, tem de se perder dez. É por isso que as pessoas não vencem. Não sabem perder. É absolutamente essencial saber perder para se poder ganhar.

 

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