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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Paula Rego por Paula Rego, a apresentação

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Foi bonito ver o auditório da Casa das Histórias cheio, ontem, às 16h. Tanta gente para assistir à apresentação do livro da minha querida amiga Anabela. Tão bonita que estava, tão serena, aquele olhar tão profundo que ela tem, perscrutador, de quem vê muito para lá da superfície, de quem quer saber muito mais do que o trivial. A minha manabela. Inteligentíssima. 

Adorei ouvir o crítico de arte e poeta Bernardo Pinto de Almeida falar sobre o livro e dizer aquilo que senti ao lê-lo, mas que não teria sido capaz de verbalizar. Que a Anabela consegue "atravessar o véu do escondimento" em que a Paula Rego sempre se envolve. "A primeira qualidade do livro é conseguir penetrar esse campo de minas e armadilhas de que a Paula Rego se rodeia e mostrar muito de como ela é." Porque a artista "vive fechada no seu refúgio e é aí que as suas assombrações vão surgindo". A Anabela - disse Bernardo Pinto de Almeida (e digo eu, se bem que eu não importo nada) - "não faz perguntas, antes aguarda que a palavra se solte e depois aguenta-a para a fazer fluir." E é isto mesmo que ela faz e que é tão admirável. A Anabela não tem perguntas. Tem conversa. Sabe conversar. Não leva uma lista com as perguntinhas de sempre. Ela tem um conhecimento profundo sobre quem entrevista, tem muita cultura e depois tem a inteligência e a curiosidade. Tudo junto faz com que leve os seus entrevistados ao mais fundo de si. Como numa psicanálise.

Bernardo Pinto de Almeida prefere "psicoterapia". Porque Paula Rego não se analisa. Mas deixa-se mostrar como é. "Ela conta-se". O crítico terminou a sua apresentação dizendo que este não é mais um livro sobre Paula Rego. É um livro da Paula Rego, por si própria (como o título tão bem define). É ela.

Seguiu-se a psiquiatra Manuela Correia, para quem Paula Rego transgride para poder prosseguir, para quem a artista é "um trovão para continuar viva, para se defender do medo de ter medo". E das duas Paulas: a que vive para pintar e a que pinta para viver. Brindou-nos ainda com o poema de T.S. Eliot, "O tempo presente e o tempo passado".

Por fim, André Teodósio, encenador, que encontrou pontos de contacto entre a entrevistadora e a entrevistada, as máscaras e os disfarces, referindo a performance como linha condutora de tudo, e o que mais gostei de o ouvir dizer foi que "não pode haver maior benevolência do que a de desaparecer enquanto autora", referindo-se à minha manabela e com toda a razão.

Fechou a apresentação a Anabela, que agradeceu a todos os que colaboraram para que o livro existisse da forma bela como existe, que agradeceu às suas referências literárias e culturais presentes ou representadas na sala, e terminou com esta belíssima frase: "Ali fora fizeram-me uma pequena entrevista para a RTP e perguntaram-me se eu já sabia onde fica o quarto escuro da Paula Rego. Eu respondi que não sei onde fica o seu quarto escuro, mas sei onde fica o meu e sei que me sinto muito menos sozinha no meu por haver pessoas como a Paula que nos mostram o seu."

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