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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Parar, respirar, viver

Escrevi um texto parecido com este no Instagram (mais curto, assim a natureza da rede social "obriga") mas não queria deixar de escrever também aqui, porque há quem não tenha IG e há quem só me siga por aqui e, afinal de contas, foi por aqui que tudo começou.

Durante muito tempo, vivi a correr. Sofregamente. Só sabia existir assim. Quanto mais fazia, mais me sentia realizada. Ou pensava que sentia. As pessoas surpreendiam-se com o tanto que eu fazia. E quanto mais as pessoas se revelavam surpreendidas, mais validada eu me sentia. Ou pensava que sim.

Nunca fui dada à contemplação, no sentido de me obrigar a ter tempo para contemplar, para parar, para apenas reflectir. Andei anos e anos da minha vida como um ratinho na roda, a correr e a correr e a exibir ao mundo todos os meus muitos afazeres, como se só o aplauso externo me realizasse, como se só assim tivesse a garantia de que era válida, completa, próxima de uma "perfeição" que eu própria inventei para mim. Mas depois vieram tragédias avassaladoras na minha vida e a dúvida instalou-se: o que raio ando eu a fazer aqui, afinal? 

Foram precisos dois anos e meio de psicoterapia para aprender que não preciso provar nada a ninguém e que o modo "hamster" não me traz qualquer felicidade. Contemplar passou a fazer parte dos meus dias. E quando me perguntam em que mil projectos estou envolvida (porque a exaustão se tornou um símbolo social de sucesso), sinto um prazer absolutamente libertador em responder: "Pouca coisa. Só o que me faz sentido" (o que não é inteiramente verdade, porque tenho de ganhar a vida, mas o certo é que nunca mais fiz os mil projectos ao mesmo tempo por que era conhecida). É sempre delicioso observar a expressão confusa do meu interlocutor (seja ele quem for) porque no mundo em que vivemos só é alguém de valor quem está em burnout ou a caminhar a passos largos para lá.

Partilho isto porque acho mesmo que toda a gente devia cuidar da saúde mental tal como cuida da saúde do corpo (e é lamentável que, no SNS, ainda lhe dêem tão pouco valor). E não, não é preciso estar louco, não é preciso ser desequilibrado ou neurótico. Basta estar perdido e triste. Ou só a precisar de uma reorganização, uma espécie de reset. A ninguém passa pela cabeça não tratar de uma perna se estiver partida, mas muitos ainda acham tonto e desnecessário cuidar da mente quando ela está perdida. E é pena. Porque pode ser a diferença entre fingir que se vive e... realmente viver.

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