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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

O mineiro

Foi há muitos anos, creio que em 1997. Tinha ido fazer uma reportagem sobre a Mina de São Domingos, no Alentejo, e quando cheguei fiquei assoberbada pelo local. Um silêncio imenso, um abandono que cortava, uma lagoa ácida com avisos de perigo, a ferrugem-metáfora de um passado sem volta. Estava eu ali, absorta nos meus pensamentos, procurando imaginar como seria a mina em pleno funcionamento, quando vislumbrei um homem, lá em cima,  mirando o mesmo que eu. Fui ter com ele. Fiz o que é suposto: meti conversa, perguntei-lhe se tinha trabalhado ali, que histórias teria para me contar, que vida agreste teria sido a sua. O bom homem respondeu a tudo. Apoiava-se numas canadianas, garantia que as pernas e a «espinha» se tinham vergado ao peso da sua dura existência, recordou o trabalho no buraco escuro, a 400 metros de profundidade, o calor, o frio, o medo, o cansaço. Eu fui anotando tudo, encantada com aquele deslumbrante contador. Que pontaria tinha tido! Logo à primeira, um relato tão fiel.
Despedi-me, contente, e fui à tasca mais próxima. Vários homens bebiam, jogavam às cartas, deitavam conversa fora. Sentei-me junto a um pequeno grupo, indaguei sobre o mesmo tema. A mina, a vida que lá se levava, os almoços cuidadosamente preparados pelas mulheres que todos levavam nas marmitas, os sustos, os perigos. Depois, a páginas tantas, referi uma história que o primeiro mineiro me tinha contado. Foi então que um silêncio maior do que a taberna pousou em cima das mesas, do balcão, dos rostos. Qual mineiro de canadianas?, pediram-me para especificar. Descrevi o meu primeiro entrevistado, ainda sem poder imaginar o que aí vinha. Foi então que soube: aquele belíssimo contador, tão entusiasta nos relatos da sua profissão, nunca tinha sido mineiro. Nunca na vida. «Ele nasceu coxo, nunca pôde trabalhar na vida.»

Esta foi uma das histórias que mais me impressionaram, entre muitas outras de gentes que tenho conhecido ao longo destes 16 anos (glup) de jornalismo. Uma história que ainda hoje, tanto tempo depois, relembro amiúde. Aquele homem emocionara-se a descrever as dificuldades da sua vida, a claustrofobia da mina, os riscos que correra, as maleitas de que agora sofria por culpa da mina, que por um lado lhe dava o pão e por outro roubava os anos. Aquele homem inventara para si essas memórias, porque as suas memórias verdadeiras, as que realmente lhe pertenciam, eram muito mais cortantes do que as dos mineiros. Ao longo da vida, tinha visto gente da sua criação ir para a mina, vir da mina, tinha ouvido os amigos queixarem-se da mina, praguejarem contra a mina, agradecerem à mina. Ao longo da vida tinha-se limitado a ver e a ouvir, sentindo-se de parte. Quando lhe perguntei, pôde por fim fazer parte.




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