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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

O escritório

Durante muito tempo, gostei de trabalhar em casa. Muito. Sou freelancer há 12 anos e, logo a seguir ao prazer de ser dona do meu tempo, veio a satisfação de não ter de sair da minha casa para fazer o meu trabalho. Vejamos: eu gostei de trabalhar em redacções. Durante muitos anos, mais do que gostei! Vibrei verdadeiramente. Aquela adrenalina, o fervilhar de quando acontecia algo no país ou no mundo que punha toda a gente em sobressalto, as histórias contadas pelos velhos jornalistas, que sempre me deliciei a ouvir (e tanto que aprendi!)... Mas quando tive muitos anos disso, ficar em casa foi um bálsamo. Nunca alinhei na coisa de ficar em pijama (só agora, em alguns dias mais cinzentos de confinamento), tomava banho, vestia-me, pintava-me, e sentava-me ao computador logo pela fresca e até ao final do dia. Mantive as rotinas, só não saí do ninho. E gostei. Percebi que a disciplina férrea que a minha mãe me incutiu não me permitiria nunca encostar-me a ver séries ou filmes ou a dormitar o dia inteiro. E resultou, para mim.

Há uns anos, porém, fui desafiada por amigas a partilhar um escritório. E também foi muito bom. Éramos quatro (no início, depois ficámos três), e trabalhámos juntas num T2 no Chiado até o senhorio se lembrar que os tempos de vacas gordas lhe permitiam subir a renda para mais do dobro, ignorando o facto de termos feito obras de renovação que transformaram um espaço inóspito num lugar prazeroso (ou melhor, aproveitando o facto, mas ignorando-nos a nós). E pronto. Pegámos nas trouxas e rumámos a casa. E ficou tudo bem na mesma. Até chegar a pandemia e eu ver o meu local de trabalho ser invadido por 5 pessoas, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Sucede que a minha casa não tem escritório, o que levou a que deixássemos de ter sala. Se já era complicado só comigo (que recebo muitas encomendas e sou caótica a trabalhar), com mais 4 miúdos a terem aulas e a quererem estar na sala... foi a anarquia.

Houve um dia em que me pus a pesquisar lojas perto de casa. Não queria ir para longe, estava mais a pensar numa coisa tipo extensão da minha casa. Algo que ficasse à distância de alguns passos, bem pertinho para me escapar sempre que a loucura estivesse impossível de aturar. Até que recebi uma mensagem de uma das minhas amigas mais antigas (mais antiga que ela só mesmo outra - uma conheço há 44 anos, a outra há 42): "Tenho um loft espectacular para ti no Sítio Alto de São João. Com estacionamento e tudo. Liga-me e falamos." E pronto. A minha vida (ou uma parte dela, vá) estava à beira de mudar - e eu nem fazia ideia.

Assim que cheguei ao Sítio, fiquei logo com a pulsação acelerada. Era um centro de escritórios, sim, mas não com aquele ar formal e certinho dos centros de escritórios. Fazia lembrar Chelsea Market, louco, cool, artístico, criativo. Nos corredores havia secadores de cabelo pendurados, uma bicicleta de ginástica antiga, um saco de boxe. Na entrada um contentor a fazer de bar, e depois um terraço enorme, comum. IMG_6381.jpgIMG_6382.JPGIMG_6384.JPGIMG_6008.JPGIMG_6450.jpgIMG_6383.JPG

Depois de mostrar os espaços comuns, mostrou-me alguns lofts - uns enormes, a darem para o terraço, outros mais pequenos. E pronto. Fiquei apanhada pelo Sítio. E passado algum tempo, estávamos a assinar contrato. Este foi o espaço que ficou logo mais ou menos definido que seria o meu.IMG_6020.JPGIMG_6021.JPG

Entre o assinar contrato e poder começar a pôr o espaço ao meu gosto, estive a decorá-lo na minha cabeça. Como sofro de intensidade em demasia, passei horas a pensar e a escolher cada peça  (sou mesmo insuportavelmente intensa - sejam coisas boas ou coisas más, quando estou envolvida em determinado assunto, deixo de dormir, só penso nesse tema, fico imersa naquilo até ao enjoo). Tintas, cores, sofá, mesa de reuniões, mesa de trabalho para mim, um móvel de casa da minha mãe (que lixei e pintei), um quadro pelo qual me perdi de amores, um espelho, uma máquina de escrever com 100 anos, uma estante para colocar a minha colecção de DNAs, um espaço mais de leitura e outro mais girly, tapetes, candeeiros. Nada foi deixado ao acaso, nada foi escolhido só porque sim. 

Tinha pensado alisar eu mesma as paredes (algumas delas tinham tinta de areia e eu queria alisar) e fazer a pintura, mas um dia olhei em redor e percebi que não seria muito esperto tratar sozinha de tudo, uma vez que apesar de serem apenas 40m2, o pé direito do meu escritório novo tem 5 metros. Antes desse momento de epifania, tinha sido contactada por um representante das tintas Kerakoll (de que nunca na vida tinha ouvido falar, sou franca) a oferecer-se para me entregar a tinta da cor escolhida, bem como a massa para alisar as paredes. Aliás, acho que foi quando vi chegar dois sacos de massa lá a casa (tipo saco de cimento) que pensei: epá... em calhando não sou menina para fazer isto. Liguei então ao senhor Luís, que nos tinha posto o chão novo no terraço de casa, e perguntei-lhe se achava que eu conseguia alisar as paredes. Riu-se. Explicou então que é coisa mesmo difícil, é preciso ter uma mão muito treinada porque se fazem dois barramentos e o segundo tem de ser muito fininho, para que a parede não fique às ondas. Ok, percebido. Pedi então orçamento para alisar e para pintar. Ele foi lá, mediu, fez contas e quando me disse o valor do alisamento das paredes... esqueci-o imediatamente. Que se lixe o alisamento! Fica como está, pois claro, então tinta de areia não é tão bonito? Ora, pois, com piquinhos, se a pessoa acaso tiver uma comichão nas costas pode sempre esfregar-se na parede e está o assunto resolvido, disparate agora alisar algo tão lindo e funcional. E assim foi. Pintou-se, apenas, e já foi um regalo.

Falando em pintura, dizer que o Jorge Francisco, da Kerakoll foi espectacular. Eu que não conhecia as tintas fiquei impressionada com o facto de serem líderes internacionais no mundo Greenbuilding que é - o nome está mesmo a dizer - construção com preocupações ambientais. Eles levam o assunto muito a sério, levando a cabo estudos de âmbito biomédico, epidemiológico, pneumológico, impacto ambiental e qualidade do ar interior, fomentando parcerias científicas com universidades.

Na verdade, e se pensarmos bem, nunca como hoje a qualidade do ar interior foi tão importante, quando cada um de nós passa mais de 90% do seu dia fechado entre 4 paredes (quando escrevo isto fico horrorizada, mas é a cruel realidade). O crescente uso de materiais sintéticos nas nossas casas e as medidas de conservação de energia que reduzem a quantidade de ar exterior fornecido, originam a Síndrome do Edifício Doente. Neste sentido, a Kerakoll desenvolveu linhas de materiais de construção naturais que melhoram a qualidade do ar interior, evitando a proliferação de fungos, bolores e bactérias, garantindo uma elevada qualidade higiénico-sanitária dos edifícios. Entre as fontes que afetam a qualidade do ar interior estão os compostos das tintas e, tendo essa questão como preocupação de base, a Kerakoll utiliza pigmentos seleccionados e as pastas e corantes são totalmente de base aquosa, respeitando o ambiente e as pessoas. As tintas são ainda permeáveis ao vapor de água, laváveis e resistentes a fungos. Muito obrigada ao Jorge, da Kerakoll, por me ter dado a conhecer esta tinta e, assim, contribuir para um ar mais respirável dentro do meu novo espaço de trabalho, onde tenciono passar muito tempo da minha vida.

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Além de pintar, pedi também ao senhor Luís (da Versatilorbis) orçamento para reforçar a mezzanine (que tinha um chão fininho, mesmo a pedir para vir cá parar abaixo) e para lhe colocar um varandim (porque não tinha protecção alguma) e, apesar de não me apetecer gastar muito com obras num sítio que um dia posso deixar para trás (não me esqueço das obras que fizemos no escritório do Chiado e do pontapé no rabo que levámos do senhorio - espero que aqui não aconteça mas é óbvio que não posso perder de vista que isto não é meu, é apenas temporariamente "meu"), apesar disso, não queria ter uma mezzanine onde não pudesse andar com medo de cair e que não servisse para nada. Adjudiquei também essa obra e em 3 dias estava tudo feito.

Enquanto os homens trabalhavam, pus mãos à obra para construir um painel de livros para uma parede. A ideia não é minha mas vi-a algures e nunca mais me esqueci. Pedi autorização para ficar no espaço polivalente a fazer "arte". Pus um painel de madeira comprado no Leroy no chão e depois fui estudando que livros cabiam, como ficavam melhor, pus uns novos ao lado de uns velhos, fiz uma espécie de Tetris. E depois, quando ficou decidida a disposição, comecei a colá-los, um a um. Tinha comprado uma super-cola, que me garantiram colar até lavatórios, de maneira que confiei. Quando terminei, pus outra placa de madeira por cima, uns tijolos, e deixei ficar de um dia para o outro.

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No dia em que os homens que fizeram a obra se foram embora, à mesmíssima hora, chegaram os homens com os móveis. Além desses, fui buscar um móvel enorme a casa da minha mãe, que está na casa de férias dela mas que existe desde que eu nasci (e estava na casa onde cresci). Era um móvel de madeira escura, que meti na cabeça que havia de pintar de encarnado, porque vi imensas fotos e outros tantos vídeos de recuperação de móveis antigos e encontrei alguns que foram pintados de encarnado e achei mesmo giro. O móvel é feito de 4 peças diferentes: uma base inteira, com mais de 2 metros de comprimento, e depois 3 estantes com prateleiras e armários que se fixam em cima dessa base. Lixei tudo, pintei com primário, dei duas ou três demão de encarnado. E a seguir, montei todos os móveis da Ikea, todos, até ter todos os dedos em ferida, calos nas mãos e unhas a esfiaparem. Mas um prazer.... do tamanho de todos os sonhos. 

Como sou pessoa de pensar muito nas coisas - em todas as coisas (chataaaa) - usufruí muito daqueles dias de construção. Porque não há nada que seja mais promissor do que um início. Um início promete tudo, ainda que depois não cumpra nada. Um início é uma página em branco - pode vir a ser um bestseller ou acabar amarrotada no lixo. Um início pode vir a ser uma vitória ou uma derrota, mas promete sempre ser uma vitória porque o início é feito de sonhos, não de pesadelos.

Vai daí que pensei que talvez fosse melhor desfrutar à bruta daquele início, do prazer de estar sozinha num espaço vazio e silencioso, todo ele início, a lixar, pintar e montar móveis, todos eles início também. E tive medo que essa fase terminasse, ainda que depois fosse um prazer usufruir do espaço todo decorado por mim. Tive medo de sentir aquela tristeza pelo fim do início (que acaba a ser também, de certo modo, o início do fim, mesmo que o fim esteja ainda longe - esperemos). Felizmente, não aconteceu. Estava de tal modo exausta de meter as mãos na massa, que já só queria sentar-me à secretária a trabalhar naquele que é o meu ofício: escrever. E voltar a fazer nascer muitos inícios, desta vez no papel. 

Levou um mês, a ficar tudo pronto. E eu acho que está lindo. As fotos são da minha querida amiga Inês CM, da Afterclick (menos a primeira, que é minha, não fosse agora a carreira da mulher ficar arruinada por uma foto sem condições).

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A máquina de escrever tem 100 anos e tem lugar de destaque, com uma frase feita com palavras de metal que foram a minha primeira compra para o escritório, e um candeeiro com uma lâmpada (porque as ideias nos remetem, desde os desenhos animados, para a imagem de uma lâmpada).

O quadro é da Marta Pinho Fernandes. Ela já me tinha desenhado, uma vez, e ofereceu-me o quadro. Desta vez, fui eu que - como a passei a seguir - vi este quadro e vidrei! Aquela menina era eu: sempre a escrever, sentada no chão do meu quarto. E aquela máquina era igual à minha. Perguntei o preço e comprei. Ela veio trazer-mo e aproveitou para conhecer o espaço (ainda estava muita coisa por fazer).

Ao lado do painel dos livros, coloquei o primeiro DNA emoldurado. Tem a data de 1 de Dezembro de 1996 e eu fiz parte dele desde o início até ao fim (em 2006). O DNA, para quem não sabe, foi o suplemento de sábado do Diário de Notícias durante 10 anos. Os melhores anos da minha vida profissional. Esta foi uma homenagem a esses anos, ao Pedro Rolo Duarte, seu mentor e director, e meu amigo de quem tenho tantas saudades. E valeu também pela metáfora. A capa diz "Nascer" e é justamente o que eu quero que aconteça aqui: um novo nascer, ou pelo menos um espaço onde nasçam coisas bonitas. 

 

E é isto. Agora... arregaçar as mangas e escrever coisas boas. A ver vamos se este início culmina num bom fim. 

 

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