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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Mudar de Vida #18: Bárbara Alves da Costa

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Foto: Paulo Miguel Martins 

 

Não seria estranho se a víssemos chegar montada num cavalo bravo, sem sela ou arreios, domando o bicho apenas com a força da sua natureza. Vendo-a ali, no campo, a conversar com a dona Gertrudes, a caminhar pelas ervas altas, apontando para os limites do terreno, fica difícil acreditar que nasceu em Lisboa, que foi jornalista, que teve outra vida antes desta, que lhe parece colada ao corpo, à alma, à existência inteira. 

Bárbara Alves da Costa tem 44 anos e é a prova de que todos podemos ser muitas coisas, muito mais do que uma só. Ela é cidade e informação e festas e amigos e viagens, mas também é campo e silêncio e contemplação e sossego. Talvez seja uma mistura de mãe, pai e avó. A mãe, nascida e criada na Avenida de Roma, sonhava com a vida no campo. O pai, nascido e criado no Areeiro, era urbano e "alucinado", baterista da banda "Jets", jornalista de investigação. A avó Corina (mãe do pai) era toda fantasia, amor e viagens pelo mundo inteiro. Lia histórias sentada no chão, acreditava que o mundo era mágico e garantia aos netos que tudo era possível, bastava acreditar. Acreditar e dar: "Quanto mais dás, mais recebes", era um dos seus lemas.

É neste caldo que Bárbara cresce, entre a realidade e a imaginação, entre Lisboa, Cascais e o mundo. Talvez por influência do pai (cresceu a vê-lo investigar temas como a droga ou a prostituição), estuda Comunicação e Marketing no ISCEM e, em 1995, vai para Nova Iorque fazer um ano (Marymount Manhattan College). Chegou em Setembro e em Dezembro levou o seu currículo à MTV da Broadway. Em Janeiro começava um estágio na MTV Latino News. "Se acreditares, tudo é possível", dizia-lhe a avó desde sempre. E mesmo longe, com um oceano entre elas, Bárbara conseguia ouvir aquela frase, tantas vezes repetida, como um mantra. Foi assim que, sem pensar duas vezes, foi entregar o currículo à ABC mal terminou o estágio na MTV. E, como se fosse uma das magias de que a avó lhe falava, começou a trabalhar no Good Morning America. 

Foi um ano do caraças. Não há adjectivo melhor. Foi do caraças mesmo. "Fui com três amigas da universidade e vivemos um ano em Nova Iorque. Dá para imaginar?" No final do ano, Bárbara recebeu uma proposta para ficar a trabalhar na MTV e não aceitou: "Sou Caranguejo e a família e os amigos são muito importantes. Não quis ficar. Voltei para Lisboa, terminei o ISCEM, fiz o Cenjor. Estagiei na LUSA, no Público e na TVI. Entretanto, uma das minhas melhores amigas manda o meu currículo para o CNL (Canal de Notícias de Lisboa) e eu vou abrir o CNL e fico lá até ao fim. Nessa altura, éramos um grupo de amigos todos a viver no mesmo prédio, em Xabregas. Foi épico. Quando aquilo acaba, o Nuno Santos vai-me lá buscar para o arranque da SIC Notícias."

Namorou com um jornalista da SIC e, depois de 3 anos a viverem juntos, casaram durante uma reportagem em Las Vegas. Estavam juntos havia 5 anos quando nasceu a Maria do Mar. Separaram-se pouco depois. Ficaram amigos mas a convivência já não era possível. Esteve três anos sozinha, viveu com a irmã, não quis envolvimentos apressados para colmatar algum vazio, até porque, com ela, há poucas hipóteses de nascer qualquer vazio. Entretanto, reencontrou um ex-namorado (de quando tinha 17 anos). O Pedro. Ele com um filho de três anos, ela com uma filha de três anos (tinham apenas 1 mês de diferença). "Durante um tempo íamos a casa um do outro sem que os miúdos nos vissem. Aproveitávamos quando eles já estavam a dormir. Não queríamos precipitar nada. Quando decidimos viver juntos foi o caos. Fomos para casa dele, que tinha dois quartos. Os miúdos começaram a dar-se como cão e gato. Dividiam o quarto como se fossem territórios inimigos. "Não passas em cima do tapete porque este lado é meu!" Foi um início muito duro. Quis acabar com aquilo, sugeri que vivesse cada um na sua casa mas o Pedro protestou. Dizia que isso não era uma família. Lutámos imenso para que os miúdos ultrapassassem o facto de terem deixado de ser filhos únicos. Estamos juntos há 10 anos mas os primeiros 4 foram mesmo uma prova de fogo. Quando íamos de férias todos juntos era um tormento. Só pensava: porquê?? Porque é que insistimos nisto? Depois íamos de férias os dois, para compensar."

Há 8 anos, Bárbara e Pedro compraram um monte no Alentejo. Tinha uma casa e umas ruínas e a ideia era terem ali um refúgio para os fins-de-semana e as férias. Sempre que iam para lá, a filha de Bárbara e o filho de Pedro davam-se bem. Havia espaço, muito espaço, e a liberdade tinha em ambos um efeito apaziguador. Era o lugar onde tudo corria bem, a uma hora e picos de Lisboa. Entretanto, Bárbara engravidou da Alice. Nesse ano, a sogra tinha um cancro, o sogro morreu com um cancro. A vida tornou-se mais triste e pesada, com tanta doença. Bárbara entrava todos os dias na SIC, em Carnaxide, às 8.30 da manhã. Saía cedíssimo de Cascais e levava a miúda ao colégio no Restelo. Não gostava de ser aquela mãe, o tipo de mãe que passa o dia inteiro longe da família. E estava grávida. Na SIC era feliz, claro, felicíssima a fazer reportagem. Mas sentiu que tinha de escolher. Um dia, ligou ao Pedro e disse: lhe: "Vou-me despedir." Ele, que a conhece de ginjeira e sabe que ela era mulher para isso, perguntou: "Hoje?" Ela gargalhou. "Hoje não. Mas prepara-te. Vamos fazer um Turismo Rural no monte. Vamos largar tudo e vamos viver para lá."

BAC.jpgFotos: Rita Ferro Alvim

 

Pedro, arquitecto de formação, começou a fazer contas sem ela saber. Um plano com pés e cabeça. Três meses depois do  telefonema em que ela o avisou de que se iria despedir, Bárbara pediu a demissão. Era Dezembro. Ainda tentaram candidatar-se aos fundos da União Europeia mas já era tarde. Então, meteram-se numa formação de jovens agricultores para se poderem candidatar ao processo todo. Ela grávida de 8 meses, a subir e a descer de tractores. Entretanto, houve uma reabertura do fundo ao qual se tinham tentado candidatar. "Tinham sobrado uns dinheiros e tínhamos um mês para apresentar uma candidatura detalhada. Era preciso descrever tudo ao mais ínfimo detalhe: uma memória descritiva desde que o cliente entrasse até que saísse. Um dossier com três produtos para cada item de cada assoalhada. Ou seja: tínhamos de apresentar 3 orçamentos para candeeiros, 3 orçamentos para camas, para sofás, para mesas de cabeceira, três orçamentos para tudo! Tivemos uma conversa com os miúdos em que lhes explicámos que eles iam ter de se orientar muito sozinhos naquele mês. E falei com as minhas melhores amigas para nos ajudarem. Entregámos o dossier no último dia, nos CTT de Cabo Ruivo, que eram os correios que fechavam mais tarde. Dois meses depois recebemos uma carta a dizer que o projecto estava aprovado."

E agora? A palavra aprovado trouxe consigo o susto. Quase como se só perante a palavra "aprovado" tivesse acordado os dois sonhadores para o passo que estavam efectivamente a dar. As escolas. A filha dela num colégio, o filho dele noutro. E o resto? O mobiliário para o turismo, as obras, tudo. "Fui às arrecadações da minha mãe e das avós, minhas e do Pedro. Comprámos camas, algumas cadeiras, lençóis, toalhas, essas coisas de hotelaria, alguns candeeiros. Tudo o resto é das avós e bisavós. Ligámos para os amigos para nos ajudarem a montar tudo. Estivemos a trabalhar de manhã à noite sem electricidade, sem água quente. A Terra do Sempre existe com os amigos. Fizemos sempre tudo com os nossos melhores amigos."

Em Junho abriu com um quarto. Depois foi abrindo mais outro. E outro. Em Outubro

abriu os 7 quartos do conhecido turismo "Terra do Sempre". Porquê? É a influência da sua avó mágica. A avó das histórias. A avó de encantar. No fundo, Bárbara é um bocadinho como o Peter Pan. Ele não queria crescer e a ilha onde vivia reflectia essa negação. Ela continua com uma alma de criança mas, ao contrário do Peter Pan, não recusa o crescimento. Cresce mas com alegria, com fantasia, com a eterna crença de que é possível. Sempre. "Queria fazer um turismo de histórias. Descobri o projecto da Alexandra Prieto e fiquei apaixonada pelos desenhos dela. Não a conhecia de lado nenhum e disse: ela é que vai fazer os desenhos nas paredes dos quartos. Sete quartos, sete histórias: Peter Pan, Alice no País das Maravilhas, Felizes para Sempre (não queria a Cinderela ou a Gata Borralheira), Romeu e Julieta, 1001 Noites, Robin Wood e Tom Sawyer."

Foi preciso muito trabalho para erguer a Terra do Sempre. "A minha avó chorava quando me via a lavar vidros. 'Fizeste tudo o que quiseste na tua vida. Estudaste em Nova Iorque, trabalhaste na televisão e agora olha para ti!' Eu olhava para ela e respondia: 'Ó vó, mas eu estou felicíssima!'." Houve momentos de algum sufoco mas nunca desespero porque Bárbara é pouco dada à negatividade: "Um dia o Pedro disse que não tinha dinheiro para pagar o colégio do Bernardo. Eu respondi: ok, vou vender quartos!' Comecei a trabalhar no que faltava: a comunicação. Contei a nossa história no Facebook, enviei press releases e comecei a ter pedidos de entrevistas. Começámos a crescer. No primeiro ano não fechámos. Tínhamos de perceber quais os meses mais fracos e de mais chuva. Depois, ficou assente: de Dezembro a Março fechamos e vamos viajar."

A Terra do Sempre é um turismo rural sem mariquices. É rural, é despretensioso, tem aranhas, às vezes tem pó. "Às vezes ficamos sem água, às vezes ficamos sem luz. Quem venha à espera de sofisticação não vai gostar. Este é um lugar mágico para quem venha mesmo com vontade de fugir do bulício da cidade, para quem queira simplicidade e silêncio. Para vir a dois ou em família."

Bárbara e Pedro viveram na Terra do Sempre, perto de Grândola, durante dois anos e meio. Praticamente todas as semanas ela sentia necessidade de ir a Lisboa jantar com as amigas porque - lá está - ela é a prova de que todos podemos ser muitas coisas, muito mais do que uma só. Ela é - já o dissemos - cidade e informação e festas e amigos e viagens, mas também é campo e silêncio e contemplação e sossego. Umas vezes ia e voltava depois do jantar. Outras ficava lá a dormir e só regressava no dia seguinte. Uma das noites em que voltou, vinha no carro a pensar: "As minhas filhas precisam de mundo e de línguas. Isto é tudo muito bonito mas é como a minha avó dizia: eu tive tudo o que quis. Elas também têm direito a ter. Aqui há liberdade, sim, há silêncio e o céu cheio de estrelas. Os miúdos saem da escola, almoçam juntos, esperam por nós na biblioteca. A minha Maria do Mar chegou aqui uma princesa e saiu uma gaja do caraças. A Alice veio para cá com 3 anos e transformou-se rapidamente no Mogli. Mas aqui não há CCB, não há teatro, não há uma série de coisas que eu quero que elas tenham. Às 2h da manhã acordei o Pedro e disse-lhe: 'Em Setembro vamos para Lisboa.' E fomos. E o difícil que foi calçar sapatos à Alice? Enfiá-la numa farda?"

A Terra do Sempre passou a gerir-se quase sozinha. Está bem entregue, a quem a ama como se fosse sua. Eles vão para lá aos fins-de-semana e, claro, no Verão. Os amigos do casal continuam a ter um papel essencial, como sempre tiveram. E a gratidão que lhes têm é enorme. Há uns meses, quando casaram, Bárbara e Pedro levaram os amigos todos para Marrocos. "Casámos no aeroporto de Lisboa e depois fomos para Marrocos. Éramos 43 pessoas, 15 crianças. Alugámos um autocarro para 50 pessoas e percorremos Marrocos durante 7 dias. Fizemos uma festa de casamento berbere, no deserto. Foi incrível. Os nossos amigos fizeram a Terra do Sempre connosco. Se não tivessem sido eles nada disto teria sido possível. Temos os melhores amigos do mundo."

Não seria estranho se víssemos Bárbara passear-se por ali montada num cavalo bravo, sem sela ou arreios, domando o bicho apenas com a força da sua natureza. Às vezes fica mesmo difícil acreditar que nasceu em Lisboa, que foi jornalista, que teve outra vida antes desta, que lhe parece colada ao corpo, à alma, à existência inteira. O certo é que teve e o não menos certo é que nunca se sabe o que ainda pode vir por aí. Com ela, é imprevisível. Porque gosta demasiado de viver para se acomodar, para não experimentar tudo o que tiver vontade. E também porque lhe falta o medo. Afinal, cresceu a ouvir a avó Corina dizer que tudo é possível. Que basta acreditar. E ela acredita. Sempre.

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Terra do Sempre: https://www.facebook.com/Terra-do-Sempre-137486599637912/

 

 

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