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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Mudar de Vida #17: Raquel Ruiva

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"Senhoras e senhores... a miss Portugal é..." E Raquel Ruiva sonhava - acordada - que recebia, com os olhos a tremer de emoção, a coroa, o manto e o ceptro que lhe confirmavam a beleza. Sempre que a RTP emitia mais uma edição do concurso que elegia a mulher mais bela do país, Raquel não descolava o olhar e a atenção do ecrã e suspirava pelo dia em que seria ela a escolhida. 

Os anos foram passando e as ideias de viver da beleza foram ficando guardadas no baú das memórias que se contam aos filhos e netos e em entrevistas como a que deu origem a este texto. Raquel era boa aluna e decidiu seguir Gestão. Entrou no ISEG com média de 17,8 e a sua praxe foi andar com o notabilíssimo número escrito na testa. A maior parte dos colegas tinha dificuldade em entender que aquela rapariga, que tinha média para entrar na Universidade Nova (sempre tão desejada), tivesse optado pelo ISEG por questões ideológicas: "Como muitos jovens tinha ideologias mais à esquerda e por isso meti na cabeça que a Nova não era para mim. E como sou de vestir a camisola, passei a sentir que o ISEG era a minha casa e defendia-a com unhas e dentes. O meu desporto preferido da altura era picar-me com pessoas da Nova."

Depois do curso de Gestão, especializou-se em Marketing porque sempre se sentiu mais comercial do que financeira. E em 2002 entrou para a Deloitte, onde ficou 8 anos. Em 2008 foi para Angola, pela Deloitte: "Gostei muito de estar na Deloitte. Não se tem vida, é verdade, mas eu sabia que se temos de dar à perna é nesta fase da vida. Sempre tive essa consciência. E a Deloitte é uma daquelas empresas em que até podemos começar por não ganhar muito mas se fizermos a nossa parte podemos ter a devida compensação."

Em 2009, Raquel recebeu um aliciante convite para ser Directora Financeira da Toyota em Angola. E foi também nesse ano que conheceu o Afonso, que viria a ser o seu marido, e que era administrador de uma empresa também em Angola. Foram dois anos e meio de pura loucura. "Éramos como dois putos a fazer Erasmus, mas com dinheiro. Ganhávamos muito bem, divertíamo-nos muito, tínhamos muitos amigos. Era uma vida de sonho. Tínhamos uma casa com duas empregadas. Era um luxo."

Em 2012 vieram para Portugal porque já não aguentavam as saudades de casa. Queriam ter filhos e sentiam que só fazia sentido constituir família por cá. A diversão tinha sido boa mas agora era tempo de falar a sério. De assentar. "Quando voltámos eu não tinha emprego. As pessoas achavam que éramos malucos por voltarmos para um país em crise, logo nós que estávamos tão bem. Mas ainda bem que o fizemos. Foi na altura certa. Muitos amigos não vieram nessa altura e depois já não conseguiram fazer a transição. Além disso, antes de voltarmos, fizemos um plano a 5 anos prevendo os piores cenários. Até os filhos que ainda não tínhamos estavam naquela folha de Excel!"

Depois de regressar e responder a alguns anúncios, ela arranjou emprego como responsável financeira de uma pequena empresa de restauração mas entretanto engravidou e o ambiente tornou-se tóxico: "Os sócios contradiziam-se e ir trabalhar num ambiente de guerra era tudo o que eu não queria, ainda para mais grávida. Deixei de trabalhar e dediquei-me a ser grávida. Depois, o Vicente nasceu e dediquei-me a ser mãe."

Entretanto, juntou-se com um grupo de amigas que tinham o ideal de se juntarem a trabalhar em projectos em part-time ao mesmo tempo que tinham os filhos consigo. Era uma espécie de cooperativa de mães. Elas trabalhavam e as crianças estavam por ali, a brincar, a dormir a sesta, todos juntos. Uma dessas mulheres estava ligada à alimentação e nutrição, até escreveu um livro sobre a alimentação paleo e todas se surpreendiam com as caixas que a Raquel tinha para guardar os alimentos. Façamos então uma paragem aqui, para introduzir outro tema.

Raquel Ruiva sempre viveu rodeada pela Tupperware. A mãe quando se viu desempregada começou a vender cremes, primeiro, Bimbys depois, e por fim Tupperware. Passado um mês, a mãe era chefe de grupo e passado um ano era coordenadora. Em casa da mãe sempre houve Tupperware, nunca fakeware. "O meu irmão vivia em Inglaterra e, quando veio com a minha cunhada para cá, sem emprego, ela ficou a trabalhar com a minha mãe e o meu irmão posteriormente também se juntou, apesar de ser financeiro de uma empresa. Por isso, sim, a Tupperware sempre fez parte da minha vida. Mas nunca profissionalmente." Até ao dia.

Foi quando as amigas lhe perguntavam que caixa era aquela ou onde é que tinha comprado aquela caixa tão boa que Raquel pensou "e se?" E de tanto pensar "e se?" avançou mesmo e criou a Caixa Mágica, no Facebook, para vender Tupperware. E a partir desse dia, vestiu a camisola, tal como quando se picava com os alunos da Nova, para defender o "seu" ISEG. Algumas pessoas próximas e até amigas ficaram chocadas. Primeiro acharam que era uma situação temporária, uma espécie de gracinha, de part-time. Mas quando perceberam que Raquel estava empenhada e que a sua vida nova era realmente esta afastaram-se. "Há um certo preconceito. Eu era financeira, fui quadro de grandes empresas, e em vez de retomar esse caminho (e tinha convites), optei por tornar-me vendedora de Tupperware. Foi como se, para alguns, me tivesse tornado noutra pessoa. Mas não. Eu sou a mesma. E gosto realmente disto. Porque não é só vender. Há marketing, há todo o trabalho de formação da minha equipa, há o contacto com os clientes."

Raquel começou por ser vendedora mas depressa se tornou chefe de grupo e agora é team leader. Faz gestão dos grupos e dá formação contínua. Neste momento tem mais de 90 pessoas a quem dá formação:  "Estes são artigos de qualidade superior que requerem explicação porque uns têm uma especificidade, outros têm outra. Uns são para guardar alimentos cozinhados, outros são para guardar alimentos crus. E podem revolucionar a forma de armazenar alimentos, podem ajudar a que durem incomparavelmente mais, preservando as suas propriedades. E é preciso adequar a formação ao tipo de pessoa que recruto para o vender."

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O brilho do seu olhar, enquanto fala da Tupperware, é indesmentível. Por muito que por vezes seja estranho dizer que é vendedora da Tupperware quando lhe perguntam a profissão durante um jantar, por muito que não seja propriamente o que sonhou escrever no item "Profissão" nos boletins de matrícula da escola dos filhos, por mais que ainda perdurem olhares de "mas-como-é-que-esta-mulher-se-meteu-nisto", Raquel gosta genuinamente do que faz. "E tenho tempo para mim, para os meus filhos, não tenho de sair às tantas e sacrificar todos ou quase todos os momentos em família por conta de uma carreira numa empresa de topo." Além disso, é bem paga. "Sim, estou neste momento a ganhar o mesmo que ganharia na área financeira", acrescenta. O que, pensando bem, não é despiciendo para se acrescentar. Raquel termina a frase dizendo: "Não trocava a Tupperware, não. Nem pensar."

Em 2018 conquistou um patamar importante nesta nova carreira. "Fui a rainha-chefe de 2018, ou seja, significa que fui a primeira do país no que diz respeito ao recrutamento de novos vendedores, à retenção de vendedores e ao crescimento." E sabem o que implicou ser a rainha-chefe de 2018? Ser chamada ao palco, numa cerimónia com pompa e circunstância, e receber uma coroa, um manto e um ceptro. Lembram-se do primeiro parágrafo? Pois bem. Raquel conseguiu até cumprir aquele sonho infantil. Não foi Miss Portugal. Mas foi a rainha da Tupperware. Dito assim pode dar vontade de rir ("o meu marido gozou um bocadinho") mas dentro do contexto foi realmente um momento que fez sentido. E que pode repetir-se por vários anos, que ela nunca achará demais. Afinal, quem não gosta de ser premiado pelo seu bom trabalho? Ainda para mais quando esse trabalho representa uma nova escolha, um novo caminho, uma nova vida.

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