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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Mudar de Vida #15: Bruno Teixeira

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Trabalhou 18 anos de gravata a sufocar-lhe a garganta. Durante quase duas décadas, a banca foi a sua segunda casa, às vezes a primeira. Passou por alguns dos mais importantes bancos nacionais e chegou a chefiar 40 pessoas. Foi então que sentiu aquele vazio. Aquele aperto. Como se, de repente, a gravata o estrangulasse. Mais do que o possível. Mais do que o suportável. E percebeu que não podia continuar ali. "Estava a morrer por dentro".

Bruno Teixeira não foi sempre infeliz na banca. Sublinha que aprendeu muito com algumas pessoas com quem se cruzou, que lhe deram formação, que o ajudaram, que o ensinaram a crescer, a ser melhor. Dessas não esquece. Porque se há qualidade que se orgulha de ter é a de ser grato. Na verdade, também não esquece as outras, as que lhe mostraram exactamente que pessoa não queria ser, que caminho não queria seguir. O importante é não esquecer nunca. E levar lições de onde quer se passe.

Pouco tempo depois de sentir que já não pertencia ali, chegaram por parte da administração as propostas de rescisão amigável. Ainda pensou que talvez não estivesse a ser justo, talvez pudesse aguentar mais, talvez não fosse o momento. Mas, como acredita que nada acontece por acaso, nessa mesma altura não recebeu um prémio de produtividade que era suposto ter recebido. E pronto. Ao desalento que já o consumia juntou-se o sentimento de injustiça. Uma chama perto de um barril de pólvora. A decisão estava tomada. Era só preciso assinar. Nessas vésperas, pouco ou nada dormia. Ia à casa-de-banho dezenas de vezes, com a barriga às voltas. De noite, deitado na cama, conseguia escutar os diálogos entre o diabinho - que repetia que era uma loucura trocar o certo pelo nada - e o anjinho - que jogava a cartada do "vais livrar-te disto, podes fazer algo de que gostes realmente".

Quando o anjinho ganhou o braço-de-ferro e Bruno assinou a rescisão do contrato, o chefe perguntou-lhe se tinha alguma coisa em vista. Não tinha. Então perguntou-lhe se ficava mais 6 meses, só para fazer uma transição mais suave. Ele disse que sim porque, na verdade, ainda não tinha traçado qualquer plano para si. Só sabia que não podia continuar ali por se sentir a morrer devagarinho. "Como o medo é forte, comecei a disparar currículos para todos os lados: financeiras, consultoras, outros bancos... É tão forte a ideia que nos passam de termos de procurar um emprego estável que ficamos sempre com medo. E o medo mata sonhos. Pode matar o futuro. E depois é engraçado o que se passa com este sentimento. Porque se não tens medo és inconsciente mas se tens medo és maricas. Aprendi que a melhor forma de lidar com ele é respeitando-o. Conversar com o medo, de frente, e dizer: tu vais-me acompanhar mas não me vais dominar. E foi assim que comecei a minha aventura."

Como nenhuma das empresas para as quais tinha enviado currículo lhe respondeu, como nem a uma entrevista foi, começou a pensar na vida. O que fazer? Foi então que pensou no skate. "Comecei a andar de skate com 13 anos. Entretanto, uns amigos meus que eram comentadores de manobras e circuitos e campeonatos de skate na Fuel TV um dia convidaram-me para ir. Fui e gostaram de mim. Tanto que passei a ser comentador residente. E então pus-me a pensar: eu gosto tanto do skate e do que o skate representa... e se eu desse aulas? Se criasse uma escola? E foi então que comecei a planear tudo, nesses 6 meses em que o meu chefe me pediu para permanecer no banco."

Começou devagarinho, com os filhos de alguns amigos. Mas, como tudo o que é bom tem um rastilho rápido, depressa vieram outros. E mais. E hoje a Flow Skate School já conta com quase 100 alunos, dos 4 aos 50 anos. 

O que é que mudou na vida do Bruno? Tudo. "Sabes, o pior que te pode acontecer na vida é ficares na tua zona de conforto. Acomodado. Porque aí já não evoluis, já não cresces, já não sentes medo. E sim, é importante voltar a falar dele. Eu sinto medo todos os dias. De não fazer dinheiro suficiente, de não conseguir pagar as minhas contas. Mas depois penso: foca-te no teu trabalho que o dinheiro vem." E tem vindo. Mas muito mais importante que o dinheiro é a qualidade de vida que passou a ter. A possibilidade de se encostar a uma árvore a ler um livro, a olhar o céu, a usufruir da vida. Trabalho não lhe falta, mas passou a ter tempo. E o tempo é demasiado valioso para ter preço. 

Além da qualidade de vida, o que passou a reger os seus dias foi a vontade de ajudar a transformar vidas e o desejo de ser transformado também. Porque nesta vida de professor garante que é ele quem mais aprende todos os dias. Sobretudo quando, do outro lado, o feedback é tão positivo: "Às vezes chegam-me miúdos a dizer: 'na escola ninguém gosta de mim porque eu não sei jogar futebol.' E ao fim de umas aulas, quando já conseguem fazer manobras de skate que os outros não sabem fazer, ganham auto-estima, ganham um alento que não tinham. E ser agente desta mudança, fazer parte disto é incrível. O skate, de resto, é uma metáfora da vida. Até conseguires fazer aquela manobra vais ter que tentar, vais ter que cair, vais ter que te levantar, vais tentar de novo. Como na vida, quanto maior o obstáculo maior o prazer de lá chegar. Porque tens duas hipóteses quando esbarras com um obstáculo: ou voltas para trás ou enches o peito de ar e tentas. E eu gosto de os ensinar a tentar."

Bruno tem reflectido muito sobre estas enormes diferenças entre quem trabalha por conta de outrém e quem tem um trabalho próprio. "Quando tens um trabalho certo, quer trabalhes bem quer trabalhes mal, quer faças quer não faças, o dinheiro vai estar lá ao final do mês. É certo. Quando trabalhas por tua conta, a tua mente foca-se em aprimorares o teu negócio, em fazeres cada vez melhor, em não te deixares dormir à sombra. Sobre o dinheiro certo... não é o mais importante, se bem que compreendo que seja uma segurança. Mas há muita gente que só tem mesmo dinheiro. Não tem o resto. O que te define é o modo como tratas os outros, e o resto vem por acréscimo. O meu lema, todos os dias é: hoje veio alguém ter comigo e foi melhor para casa? Se sim, dia cheio. Se não, amanhã será um novo dia para procurar fazê-lo."

Trabalhou 18 anos de gravata a sufocar-lhe a garganta. Fato, gravata, vida "arrumada", dinheiro certo no final do mês, um tom de pele amarelecido que quase sempre tem quem está obrigado a um horário fixo, luz artificial e ar condicionado. Hoje trabalha de calções e t-shirt, calça uns ténis, o skate debaixo do braço e a pele bronzeada de quem vive ao ar livre, a desfrutar da luz natural e da vida cá fora. E nunca teve tanta certeza de que fez a escolha certa.

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