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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Mudar de Vida #14: Magda Lourenço

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A mãe teria gostado de ser artista mas não houve, em casa, abertura para isso. Acabou professora primária, tal como outras mulheres da família. Sem vestígio de vocação ou sequer interesse. Apenas para cumprir uma tradição, um caminho imposto. "A minha mãe não gostava de ser professora e acho que era infeliz. Depois, teve três filhos de seguida. Os meus irmãos e eu nascemos todos com um ano de intervalo. E acho que isso deu cabo dela de vez. Vivia deprimida, ansiosa, tinha fobias. Tinha alma de artista e pintava, era esse o seu escape. Infelizmente, não era essa a sua vida. Se fosse, talvez tudo tivesse sido diferente. Em casa, éramos três adultos e três crianças. Os meus pais, a minha avó e nós. Assim, de certo modo havia como que um adulto para cada criança. A minha mãe ocupava-se mais do meu irmão mais velho; a minha avó do meu irmão do meio; o meu pai de mim. O meu pai tinha sido militar e, por isso, tratava-me um bocado como se eu fosse um rapaz. Lembro-me muito bem de o ouvir dizer: 'Quando um homem não pode mais, ainda pode outro tanto!' Foi um ensinamento que me ficou para sempre. A vida é mesmo isso. Podemos sempre mais."

Magda Lourenço percebeu desde cedo o que pretendia para o seu futuro. Ou, pelo menos, aquilo que definitivamente não queria: "Pensei sempre: hei-de escolher o que quero fazer da minha vida. A minha mãe não escolheu e vive infeliz. Eu hei-de escolher, e ter um destino diferente."

E assim foi. Escolheu o que quis. Era boa aluna e entrou à vontade na Faculdade de Arquitectura. Os irmãos foram ambos para o Técnico, para Engenharia. Magda fez o curso ao mesmo tempo que trabalhava nos ateliers dos professores. "Sempre fui tão certinha que perdi a parte boa da faculdade. Não saía, não andava na festarola... bem me arrependo! Mentira, arrependo-me mas pouco... não sou de olhar para trás. Acabei o curso com uma boa média..." Quando pergunto qual a média hesita em dizer, fica embaraçada, tem receio de que pareça gabarolice. Não parece nada. É o que é (e é muito bom): 18 valores no projecto de fim de curso (15 valores de média final).

Tem graça falar do seu namoro com o holandês Reinier porque, depois de aqui se ter dito que ela era certinha, fica divertido imaginá-la envolvida justamente com o dono de um bar. E não um bar qualquer, mas o mítico Incógnito, um dos pontos altos da noite lisboeta dos anos 90. "A minha mãe ficou em choque. Eu com um estrangeiro, dono de um bar... mas enfim, a verdade é que estamos juntos há 28 anos."

Com o fim do curso de Arquitectura, Magda continuou a trabalhar no atelier em que já trabalhava durante o curso e gostava muito. Estava cumprido um dos seus objectivos de vida: ter uma profissão que a fizesse vibrar. Mas calhou que, certo dia, acompanhasse o namorado a uma feira de estética em Dusselforf, na Alemanha. "Além do Incógnito ele tinha aberto um solário no Colombo. E então fomos a esta feira gigante. Na altura eu estava grávida, encostei-me num stand de unhas de gel e a senhora começou a meter conversa comigo. Eu, que já tinha ficado fascinada com isso das unhas de gel numa viagem que tinha feito a Nova Iorque, até lhe disse que era bem capaz de ser uma oportunidade em Portugal e ela concordou. Saí dali a pensar naquilo e fui aprender a fazer."

Quando chegou a Portugal convenceu o Reinier a meter uma pessoa a fazer unhas de gel no espaço do solário. Deu-lhe formação e pronto. Estava lançada a semente. Mas, naquela altura, não passava de um extra. Uma gracinha. "Eu disse logo: isto agora é convosco. Eu vou para o atelier tratar dos meus projectos e vocês organizem-se." Entretanto, a funcionária teve uma proposta para ir trabalhar para uma discoteca e era Magda quem ia fazer unhas, depois de sair do atelier. Numa parte do dia era a Magda-arquitecta; na outra parte do dia era a Magda-esteticista. "Mas o número de clientes não parava de crescer, eu comecei a ver que aquilo tinha pernas para andar, e decidi abrir uma loja de unhas de gel no Colombo. Só que não havia lojas. E foi então que propus um quiosque, daqueles que hoje em dia são mais do que habituais nos centros comerciais. Desenhei o quiosque, registei o nome e pronto. Mas continuava a ser arquitecta, a achar que aquilo era só um extra. Só que não havia outros sítios onde fazer unhas de gel, a não ser em alguns cabeleireiros. E ao fim de três meses já não havia vagas para que as senhoras fossem fazer a manutenção. Chegavam a ficar com as unhas 4 semanas, à espera de vez. Até que não foi possível continuar a ignorar o 'monstro' que eu tinha criado e saí do atelier."

Se tivesse sido uma coisa abrupta talvez a incompreensão dos que estavam à volta fosse maior. Aliás, se na altura lhe dissessem que tinha de escolher entre a arquitectura e as unhas, escolheria sem dúvida a arquitectura. Mas a verdade é que tudo se foi passando em dois carris ao mesmo tempo. Paralelamente. Devagarinho. "Foi entrando em mim em doses homeopáticas, de forma muito diluída, quase imperceptível. Até que foi evidente qual dos dois carris eu tinha de seguir. E segui." 

Magda Lourenço, arquitecta, via-se assim diante de uma ideia de negócio pioneira em Portugal. Tinha zero formação em Gestão mas o bom senso dizia-lhe que devia agarrar as melhores localizações porque o problema de uma boa ideia é que virá sempre alguém reproduzi-la. "Eu sabia que o negócio das unhas ia explodir. Então, depois do Colombo seguiu-se o Vasco da Gama, o Almada Fórum, o Oeiras Parque, o Cascais Shopping." Nails 4 Us por todo o lado. Pareciam cogumelos. Nessa fase, Magda não tinha escritório. Tinha stock no carro ou na loja do marido, fazia em casa a contabilidade e as respostas ao email. A vida tornou-se louca. Lembra-se de estar com o bebé no carrinho e a fazer unhas, lembra-se de chegar a pedir ao filho de uma cliente que empurrasse um bocadinho o carro do bebé, para ela poder terminar o trabalho. Não tinha mãos a medir. "Cheguei a um ponto em que achei que estava a enlouquecer. Trabalhava 7 dias por semana, das 10 à meia-noite. Então decidi começar a abrir franchisings, para começar a delegar."

Uma mulher de armas. Self made woman, como se costuma dizer. O primeiro escritório que teve foi no Átrium Saldanha. "Nessa altura ainda não tinha técnicos para me arranjarem as máquinas. Era eu. Pedia à fábrica o desenho da máquina e depois era eu que arranjava tudo, seguindo o manual passo a passo."Lembro-me de ter um franchisado de Coimbra na loja com uma máquina avariada para arranjar e de eu dizer: 'está cheio de sorte que está cá o técnico. Espere só um bocadinho que eu vou levar-lhe e já a trago arranjada.' E lá ia eu para uma sala arranjar a máquina - não havia técnico nenhum mas eu não podia dar esse flanco!"

Chegaram a ser 30 lojas, entre franchisadas e não franchisadas. Mas depois foi preciso reordenar tudo, fechar algumas, resolver situações complicadas, pôr ordem na casa. Magda sempre soube fazê-lo muito bem, de resto. Abriu tudo o que tinha para abrir, inovou, rasgou, mas também soube reorganizar-se para não dispersar tanto o foco.

Toda esta mudança na sua vida aconteceu há 18 anos, a idade do seu filho mais velho. "Mas não foi bem um 'mudar de vida' tradicional porque eu nunca tive verdadeira consciência de que estava a mudar definitivamente. A vida tomou conta de mim. Fui indo atrás." Apesar de ser uma empresária de sucesso, Magda continua a trabalhar no duro. "Ainda há dois meses fui ter formação de unhas. Continuo a gostar imenso de fazer e tenho toda a compreensão do mundo para as clientes. Às vezes as miúdas que trabalham comigo ficam muito ofendidas com a arrogância de algumas clientes. Eu explico-lhes: 'eu fico ofendida quando aqueles de quem eu gosto me agridem. Agora... uma pessoa que não conheço de lado nenhum? Quero lá saber! Uma vez uma cliente olhou para mim e perguntou: 'Você não era arquitecta?' Eu respondi que sim. E ela: 'E não se sente diminuída por estar aqui a fazer unhas de gel?' Encolhi os ombros, ri-me e respondi a verdade: 'Não! Eu gosto muito disto!"

Magda Lourenço tem três filhos. Há 9 anos foi mãe de gémeos. De maneira que, na sua vida, continua a haver duas fases do dia: uma em que em que está rodeada por mulheres; e a outra, em que está rodeada por homens. Além de tudo o que faz - que é tanto - ainda cuida de si. Aos 48 anos exibe uma forma física invejável mas não é fruto do acaso ou uma dádiva dos céus. É trabalho, mesmo. Como todo o resultado da sua vida. "Treino há 30 anos religiosamente 4 vezes por semana: terças, quintas, sábados e domingos. Se estou de viagem corro. Se vou para destino onde não dá para correr levo a minha roda (roldana de treino) e a corda de saltar. Sempre." Além dos treinos, corre e não é pouco. Começou a correr há 18 anos, primeiro só na passadeira do ginásio, mas depois também na rua. Já perdeu a conta às corridas de 10 km e às meias-maratonas. "Maratonas mesmo foram 7. E uma ultra. O meu objectivo, de há uns tempos para cá, é correr sempre três maratonas por ano e... para 2020 (os meus cinquenta anos), quero fazer a Comrades (90km)." Não brinca. Lembram-se do ensinamento do pai? "Quando um homem não pode mais, ainda pode outro tanto"? Pois bem. Aí a têm. A levar a peito a frase que marcou a sua infância. 

Voltando ao tema desta rubrica, que é a mudança de vida, pergunto-lhe se tem saudades da arquitectura. A resposta é óbvia: "Não penso nisso. Não olho para trás. Olho para o hoje e para a frente. No início isto foi uma aventura maluca, mas ao fim destes anos todos acho que aqueles de quem eu gosto olham para isto com orgulho. Eu sinto-me orgulhosa do que construí."

O que se pode querer mais?

http://www.nails4us.com/pt/

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