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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Mudar de Vida #13/ Mulheres do Caraças #6: Marta Jordão

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Sempre foi gorda. Não usa eufemismos para se descrever. Não diz forte, cheiinha, rechonchuda. Diz gorda mas o modo como o diz é desprovido de tristeza ou daquela amargura que muitos ex-gordos têm ao falar do período em que tinham peso a mais. Marta garante que não se sentia mal por ter um formato fora dos padrões ditos normais. Era uma miúda bem disposta, sociável, com uma auto-estima considerável, que corria, brincava, fazia ginástica, e tudo o que os outros faziam. "Claro que quando começaram as bocas não gostei. Baleia assassina, balofa, coisas assim. Mas passava-me depressa."

Marta Jordão era uma aluna razoável. Como adorava moda, decidiu fazer um curso profissional de Coordenação e Produção de Moda no Magestil. Ainda fez umas coisas mas a seguir achou que queria ser empresária na área da moda e foi então estudar à noite Gestão de Marketing no Instituto Português de Administração de Marketing (IPAM). Durante o dia trabalhava em telecomunicações, em retenção e fidelização de clientes. Sempre arranjou empregos facilmente, apesar de ser grande. Sempre teve namorados, "magros e giros". Nunca se sentiu discriminada ou preterida. No último ano do curso, engravidou (vivia há três anos com o José Maria, com quem ainda vive). Se já era gorda, mais gorda ficou depois da gravidez. 

Chegou aos 136 quilos (na balança do médico eram 141). Continuava de bem com a vida mas a filha, que também começou a ter problemas de excesso de peso, já não estava a lidar tão bem com a situação. "Na primária batiam-lhe, chamavam-lhe os nomes do costume, baleia, badocha, gorda, e quando eu a ia buscar o gozo ainda era maior. Então, percebi que ela tinha de mudar a alimentação, para ficar com um corpo que não lhe trouxesse os problemas que, a mim, nunca me trouxe. Mas como podia mandá-la emagrecer e cortar-lhe a 'ração' se eu, a mãe, continuava a enfardar tudo e gorda como um texugo? Percebi que tinha de ser um exemplo e que ia ser uma missão para as duas."

Então, a 27 de Julho de 2016, Marta fez jum sleeve gástrico, ou seja, submeteu-se a uma cirurgia para lhe retirarem 80% do estômago, nomeadamente a parte onde é produzida a grelina, também conhecida como "hormona da fome". "Fui sozinha, de autocarro, estava um sol maravilhoso quando entrei no Pulido Valente." A operação correu bem e, no dia seguinte, teve guia de marcha para casa.

No dia 30 de Julho sentia dores nas costas. Parecia uma dor lombar. Tinha calor, muito calor. Mas, como era verão, desvalorizou. Levantou-se mais de 10 vezes para tomar duche. "Sentia-me a ferver. Sentia-me estranha, como se eu não fosse bem eu. Às tantas, tive um rasgo de lucidez, quando percebi que algo não estaria bem comigo porque estava a atirar água para cima de mim no sofá, encharcando tudo à volta, como uma louca." Ligou ao marido, que disse que dentro de uma hora estaria em casa, mas ela compreendeu que o assunto era emergente. "Tenho de ir para o hospital AGORA." Chamou os bombeiros e, já em Santa Maria, lembra-se de ver toda a gente em grande aflição à sua volta e... mais nada. Apagou-se. "Acordei dois dias depois, nos Cuidados Intensivos. Estive muito perto de bater a bota. Basicamente o que aconteceu foi que fiquei com duas fístulas no estômago (dois buraquinhos) que provocaram uma peritonite e uma septicemia, ou seja, uma infeccção generalizada. O médico que me operou para limpar tudo disse à minha família que eu estava por um fio."

Passados uns dias, foi mandada para casa mas com consulta marcada para breve, para ver os pontos. Quando chegou à consulta, no dia 9 de Agosto, a enfermeira estranhou-a: "Não a sinto bem. Sinto-a a respirar de forma estranha." Chamou o médico que a mandou para as urgências. Quando lhe retiraram três pontos da barriga começou a sair um líquido cor-de-laranja. "Comeu sopa?" Tinha comido. Já não saiu do Serviço de Observação (SO). A comida continuava a sair do estômago e alojar-se no espaço abdominal. 

Marta ficou internada de 9 de Agosto a 24 de Novembro de 2016. Três longos meses. "Fiquei com a barriga aberta para ir saindo a porcaria toda. Tinha um grau de infecção enorme. Depois, como sou uma mulher de sorte, apanhei uma super bactéria hospitalar e tive de ficar em isolamento. Tudo isto com uma filha com 10 anos que tinha de gerir à distância: se já tomou banho, se cortou as unhas, se estudou, se foi à ginástica... já para não falar nas saudades... depois das visitas ficava sempre de rastos." Nesses três meses, aconteceu-lhe de tudo: "A seguir tive uma trombo-embolia pulmonar. Aí foi tramado porque não dá para nos mexermos, temos umas meias de bailarina... felizmente não foi necessário pôr um dreno para tirar líquido do pulmão porque era pouco e o médico não quis arriscar porque estava muito perto da pleura. Mas não me livrei de um dreno posto a sangue frio para sair pus por detrás do pâncreas, tal era a infecção que eu tinha... enfim. Quando me vêm falar mal das pessoas da saúde tenho vontade de partir para a violência. Comigo foram sempre impecáveis. Fui tão massacrada e eu bem via como lhes custava causar-me sofrimento. Além disso, que diabo! Têm uma vida tramada, sempre a limpar a porcaria de toda a gente. Às vezes estão mal dispostos? Pudera! Vão todos os dias trabalhar para o inferno!"

Durante o internamento, e quando não podia comer nem beber, ganhou o vício da água. "Tinha de ter umas 10 garrafas de água para estar sempre a bochechar. Se não as tinha entrava literalmente em pânico. A boca sabia-me a metal, da prótese que me tinham metido, de maneira que delirava com seven up ou ginger ale. E sonhava com enguias fritas, carapaus fritos, coisas crocantes." Os amigos foram fundamentais. Marta emociona-se sempre que pensa neles e em tudo o que fizeram por ela. "Tenho pessoas fantásticas na minha vida. Pessoas que me traziam tudo o que eu pedia, que estiveram sempre lá para mim, nunca se cansaram de mimar."

Em Novembro, quando saiu do hospital, Marta não dava um passo. Além dos 30 quilos que já tinham ido embora, tinha perdido muita massa muscular e, por isso, foi de ambulância para casa do irmão mais velho, que podia dar-lhe mais assistência. "Estive um mês em casa dele. Fazia fisioterapia todos os dias. O meu irmão puxava muito por mim mas eu estava de gatas. Ia de andarilho à casa de banho mas com imensa dificuldade. De tal maneira que, quando queria fazer xixi a meio da noite tinha de lhe ligar para ele vir comigo."

Nesse mês em casa do irmão, começou por comer apenas líquidos, depois uma fase de purés, e por fim comida come: arroz caldoso, maizenas, fruta madura. Já não tinha dreno, nessa fase, e há um dia em que Marta acordou com uma picada na barriga, na cicatriz do dreno, que foi começando a inchar. "Cocei e começou a sair papaia..." Tinha-se partido a prótese e ficou mais 27 dias internada. Isto já em Janeiro de 2017. Tudo isto podia ter sido evitado se, na altura do primeiro internamento, a prótese desenhada à medida pelo imagiologista Carlos Noronha e mandada fazer na Coreia, tivesse sido codificada pelo Infarmed em tempo útil. Mas levou seis meses a ser codificada e, por isso, só a 21 de Janeiro é que Marta a recebeu. Tudo foi ao sítio num instante, com essa prótese à medida. Dois meses depois, em Março, Marta foi ao bloco para tirar a prótese e respirar finalmente de alívio.

Depois disto, foi viver um dia atrás do outro, sempre colocando objectivos diante do nariz para ir conseguindo concretizá-los. "Primeiro ir ao café era um desafio, a seguir ir levar a miúda ao colégio era uma aventura ainda maior... passo a passo. O primeiro grande objectivo era ir ver o concerto do Bruno Mars em Abril de 2017. E fui." Começou a caminhar junto ao rio, a frequentar o ginásio, em Junho voltou ao trabalho (trabalha na área comercial da Rodoviária de Lisboa). Foi perdendo peso. Até chegar aos 85 quilos para o seu 1,78m. Ainda tem muita pele para remover cirurgicamente. Só em pele devem ser uns quilinhos. Pena não dar para casacos! 

Sente-se uma outra pessoa. Se é verdade que antes não se sentia mal, não é menos verdade que hoje se sente mesmo muito bem. Mas, sobretudo, aprendeu muito com o mau bocado que passou para chegar até aqui: "Não aturo merdas. Não me chateio. Deixei de me preocupar com coisas menores. Estive quase a morrer, agora quero é aproveitar a vida ao máximo." Ah, e a filha também mudou a alimentação e já não tem vestígios de obesidade. Mede 1,70m aos 11 anos, melhorou a auto-estima e praticamente já não tem que aturar as bocas do costume - praticamente porque há sempre miúdos parvos que gostam de chatear. Missão cumprida. Foi tramado para a cumprir, mas está feito. E que bem feito! É por tudo o que atrás se contou que Marta Jordão se inclui nas duas rubricas ao mesmo tempo. "Mudar de Vida" porque a mudança de hábitos alimentares, e estilo de vida, e formato, e saúde foram brutais. "Mulheres do Caraças" por tudo o que passou, sempre de cara alegre e com a sua energia de sempre.

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Mãe e filha, juntas numa missão de sucesso 

 

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