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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Martim

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O meu querido Martim, filho maluco, cavalo bravo, miúdo destravado de coração doce, fez anos na segunda-feira. 14 anos. Lembro-me que foi o nascimento que me fez chorar muito, porque passei os 9 meses sem ter a certeza de que fosse possível amar o segundo tanto como amava o primeiro. E mal o senti sair de mim, mal o ouvi nascer, não contive as lágrimas. Como podia ter sido tão ingénua? Ali estava o amor - de novo - em estado bruto. Em estado puro. Em carne viva.

O Martim tem o condão de desestabilizar toda a família porque está sempre na palhaçada e em overacting, mas também é um companheirão, meigo, sensível... eu sei lá. Pensei que fosse ter uma adolescência tramada, por ser tão doido, mas até ver o que mais gosta é de sopas e descanso (e de nos desconcertar a todos).

Sempre que um dos meus filhos faz anos, há jantar de família cá em casa. Na segunda éramos 17. Eu podia encomendar tudo (o Ricardo farta-se de insistir comigo para que o faça) mas sou do género burra e masoquista e gosto de ser eu a fazer. É coisa que me dá prazer, organizar tudo eu mesma, saber que está bom porque fui eu que fiz, é - se quiserem - uma forma de demonstrar o meu amor. Odeio cozinhar durante a semana, todos os dias, acho um inferno. Mas nestas ocasiões... sinto que é o meu contributo.

Porém, na segunda-feira a minha demonstração de amor saiu-me um bocado furada. Fomos almoçar fora com o Martim (eu, o pai e o Manel) e já cheguei tarde a casa. Ainda tive de ir ao talho e ao supermercado. Quando comecei a cozinhar já tinha pouco tempo e comecei a fazer tudo em contra-relógio. Como a minha casa tem pouca potência eléctrica, pus a Bimby num dos quartos para me assegurar de que podia usar o forno em simultâneo e não ia tudo abaixo. Tinha muito pela frente: um arroz doce, dois bolos (porque um ia para uma forma em forma de 4 e o outro ia para uma forma em forma de 1, para perfazer o número "14"), e uma lasanha para 17 pessoas. 

Comecei pelo bolo (até porque tinha 2 para fazer). Fiz o primeiro e meti-o no forno. Fiz o segundo e deixei-o em espera. A seguir tratei do arroz. Estou eu a pôr a mesa quando oiço a Madalena aos gritos: "aaaaaaaaah! Está a deitar por fora!" Nunca pensei que o caso fosse tão grave. Chegada ao quarto dela, havia uma cascata de arroz doce a sair da Bimby em direcção ao chão. Uma linda cascata de leite que deslizava da secretária até meio do quarto, querendo já enfiar-se por debaixo da cama. Larguei aos gritos, a dona Emília veio, limpámos a meias, voltei para o bolo. Estava cozinhado por cima e, depois de espetar o palito achei que estava pronto. Desenformei, na pressa de lá meter o outro a cozer. Nisto... o bolo que era um 4 começa a criar rachas. A parte de dentro, totalmente crua, começou a brotar das rachas, e o meu 4 começou a transformar-se noutra coisa qualquer. Desesperei (isto foi quase ao mesmo tempo que o arroz). Meti aquela deformidade num tabuleiro (depois de tentar, sem sucesso, voltar a enfiá-lo na forma) e meti no forno. Entretanto, feita burra, mantive o arroz na Bimby, esquecendo que a quantidade de leite que saiu iria seguramente perturbar o resultado final.

Quando a Bimby apitou, dando sinal de que o arroz estava pronto, fui lá abrir. Fiquei em choque. Dentro da panela não havia arroz, havia uma argamassa capaz de ser tão potente como cimento. Aquilo dava na boa para construir uma casa, fechar uma varanda, qualquer coisa assim. Foi então que larguei a chorar. A coisa de que o Martim mais gosta é de arroz doce. Era o seu aniversário e o arroz doce tinha acabado de se transformar em argila, o bolo estava disforme dentro do forno, ainda tinha mais bolo para fazer e uma lasanha e de repente tudo me parecia dantesco. Nestas alturas parece que vem ao de cima toda a culpa acumulada durante anos, e sentia que estava a falhar com ele, que se com os irmãos não falhava também não podia fazê-lo com ele, e mimimimimimim louca varrida, a chorar no meio da cozinha. O desgraçado veio ter comigo com aquela cara de quem não está bem a acreditar no filme, abraçou-me, e disse a frase mais desconcertante: "mãe, é só arroz". 

Pronto. A partir daí tudo correu bem. O segundo bolo safou-se lindamente, consegui fazer um "14" (um pouco deficiente mas a minha vida é toda ela muito pouco perfeita), a lasanha ficou óptima, e o jantar correu lindamente. A verdade é que tenho muitas semanas de privação de sono e, claro, desmorono com mais facilidade. Mas, como diz o Martim, "é só arroz". Acho que vai ser uma daquelas frases que me vão acompanhar sempre que tudo parecer catastrófico (todos temos fases em que sobrevalorizamos aquilo que, com efeito, é só arroz).

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