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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Madalena ensaia a gatunagem (e recebe a maior repreensão da sua vida)

Há bocado fui à Maria Concha e levei a Madalena e o Martim comigo (o Manel ainda estava na escola). Estava eu a apreciar as roupas nos cabides quando a Madalena começa naquele seu murmúrio pedinchante que já conheço tão bem. Começa por ser uma coisa assim baixinha, uma súplica em surdina que vai em crescendo até se tornar numa ladainha de pica-miolos que, muitas vezes, consegue vencer pelo cansaço. Não foi, porém, o caso de hoje. Primeiro porque já ali estava para lhe comprar roupa para ela. Depois, porque o penduricalho que ela insistia em levar era uma daquelas coisas que, daí a meia-hora, já estaria esquecida dentro de uma gaveta qualquer. Por último, porque sou uma defensora do "não", sobretudo a estas alminhas insidiosas que julgam tudo conseguir se insistirem até ao limite do irrazoável. Disse-lhe, pois, que não. Que não valia a pena insistir e ponto final parágrafo. A mimada de um raio pôs-se a chorar, virou costas e foi para junto do irmão, com umas trombas maiores que as de um político em dia de perda de mandato.
Estava eu a pagar pelas minhas compras quando a vi no tal cantinho da loja, já sem chorar e - pareceu-me - até com um leve sorriso. Uma cliente até observou, enlevada, que a menina era muito bem comportada, ali estava ela resignada à sua sorte, vejam bem que anjinho mais lindo. Sorri, com aquele orgulho meio envergonhado, recebi o saco, disse "boa noite, digam 'boa noite', meninos" e fui para o carro.
Quando estou a pegar na Mada ao colo, para a pôr na cadeira, percebi claramente que sorria. Um sorriso estranho, uma coisa entre a vitória e o gozo. Não entendi. Mas, ao mesmo tempo, a minha mão tocou numa protuberância rija no bolso das suas calças. E aí fez-se luz. Uma luz ainda meia trémula, pouco certa, mas uma luz. Quando lhe tirei o penduricalho do bolso, a luz acendeu-se com uma cruel firmeza: aquela grande cabra (eu sei, é minha filha, mas há momentos em que até os nossos lindos rebentos merecem o epíteto animal) tinha enfiado o objecto do seu desejo dentro do bolso. Ah não mo dás? Tudo bem, então toca de o fanar!
Fritei. Dentro do meu cérebro passaram rapidamente imagens de delinquência juvenil, casas de correcção, tutores legais, comissões de protecção de menores, furtos, drogas, armas brancas, rosa e multicolores, prisões, parangonas nos jornais, lágrimas e desespero. Foi um momento fugaz, porém intenso. Dei-lhe uma palmada na mão, misto de instinto pavloviano com lei de Talião, peguei no furto e voei para a loja, para o devolver. A funcionária foi amorosa, disse que no outro dia uma menina levou 7 penduricalhos nos bolsos (o que faz da minha filha uma criminosa falhada). A cliente, que tinha elogiado a pacatez da menina, levou as mãos ao peito e desculpou-a, "ah, isso deve ter sido uma distracção!" Pois... não. Não foi. Foi mesmo uma subtracção.
A conversa que tivemos depois foi séria e longa. Muito bem explicadinha, para que não restassem dúvidas. A pequena meliante largou num pranto imenso, envergonhadíssima e aflita com o teatro incrivelmente poderoso que montei (que meteu polícias zangados, prisões frias, a funcionária sem emprego, e a tristeza escura no coração de uma mãe), e garantiu-me que desconhecia a real gravidade de trazer coisas das lojas sem passar pela caixa. Eu, que duvido que ela não soubesse (ou não teria refundido aquela porcaria no bolso), fi-la prometer que jamais, em tempo algum da sua existência, voltará a enfiar penduricalhos de qualquer tipo nos bolsos. Ela prometeu. E eu acredito.

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