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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Jornalista do futuro

A Dora Mota é jornalista no JN. No jogo das cadeiras que ontem se viveu, ficou sentada. Mas os sentados sofrem com os que se levantam, sofrem por eles, por si próprios que ficam (até quando?), sofrem de culpa, de impotência, de raiva. Sofrem porque o que gostariam mesmo de poder fazer era levantar-se também, de livre e espontânea vontade, em defesa dos que são obrigados a levantar-se. Mas não podem. Não podem porque têm uma vida, contas para pagar e o mundo, lá fora, não está para graças. E, assim sendo, sofrem de uma cobardia que não têm mas que sentem como se tivessem. Sofrem em silêncio.

A Dora Mota ficou entre os sentados. E escreveu o texto que se segue, sobre o jornalista do futuro, que é cruel mas cada dia mais verdadeiro. Eu não quero ser uma jornalista do futuro. E dou por mim com cada vez mais saudades do passado.

«O jornalista do futuro tinha uma mochila às costas com câmaras, microfones, telefone satélite, teclados finos como películas. Transmitia as notícias ao segundo, para todas as plataformas, veloz e entusiasmado, do seu escafandro tecnológico.
Era uma utopia. O jornalista do futuro vai carregar na mesma bloco, caneta, telemóvel e uma câmara fotográfica manhosa e barata que pagará do seu bolso. Fará parte dos requisitos prévios para aceder à profissão. Os jornais do futuro, feitos pelos jornalistas do futuro, serão mais parecidos com os jornais antigos, com fotografias feias e designs deprimentes, porque o jornalista do futuro vai concentrar em si o desenrascanço para compensar as profissões da imprensa que se vão extinguindo. Irão todos desaparecer, porque tudo se vai fazendo na mesma.
O jornalista do futuro vai carregar na mesma bloco, caneta e telemóvel. E ainda o pano e a esfregona para limpar a redacção no final. Terá que reservar parte do seu dia para receber os clientes comerciais e atender anunciantes. E faz-lhe o jeitinho de uma notícia, porque é disso que o jornal vive. Tenha paciência, jornalista do futuro, mas atenda o telefone da portaria porque dispensamos a telefonista. De caminho, traga o correio e passe no multibanco para pagar a conta da luz. Do seu dinheiro, pois claro, que você é que precisa de trabalhar com a luz acesa.
O jornalista do futuro vai ter um salário encolhido por reestruturações financeiras e espremido pelo fisco. Quando for em reportagem, de autocarro com senhas pagas do seu bolso, cobrir um despedimento de uma fábrica e ouvir os operários chorar porque não têm como alimentar os filhos, vai pousar o bloco, a caneta, a máquina fotográfica manhosa e vai abraçar-se a eles, chorando também.
Eu fiquei. Serei eu o jornalista do futuro?» Dora Mota


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