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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Inês Guimarães: Noves fora... tudo!

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Façam as contas: ganhou a Medalha de Prata nas Olimpíadas de Matemática, terminou o secundário com média de 19,7, está no 3º ano de Matemática na Universidade do Porto, tem um canal de Youtube sobre Matemática com 58 mil subscritores (and counting), acaba de lançar um livro. Contas feitas? Creio que o resultado é certo, sem casas décimais, sem necessidade de prova dos nove: Inês Guimarães vai longe. 

Encontramo-nos num apartamento que a editora marcou no Bairro Alto, em Lisboa, no âmbito da divulgação do livro, e surpreendo-me com o seu ar miúdo. Já a tinha visto nos vídeos do Youtube, claro, mas ao vivo parece ter ainda menos do que os seus 20 anos. Só depois de principiarmos a conversa é que a idade começa a fazer sentido, na verdade até podia ser mais velha, tal é a maturidade do discurso, a eloquência, a inteligência, a rapidez de raciocínio.

Inês Guimarães nasceu em 1998 na cidade com o mesmo nome. Filha de pai médico e mãe professora de 1º ciclo, sempre gostou de Matemática. Nunca lhe deu aqueles arrepios na espinha que dão a muitas crianças e jovens, sempre achou que parecia um jogo, mais do que uma matéria. Ainda assim, nada levava a crer que a Matemática se transformaria na paixão em que se veio a transformar. "Tudo aconteceu no 7º ano, em que apanhei um professor que se armava em mau connosco, para nos espicaçar. Se não sabíamos alguma coisa chamava-nos burros e, um dia, mandou-me escrever no caderno: 'A cada dia que passa eu apercebo-me de que ainda não percebo nada de Matemática.' E aquilo marcou-me tanto que houve qualquer coisa cá dentro que me impeliu a mostrar-lhe que, afinal, eu era capaz. Na verdade, ele conseguia ser intimidante, e talvez tenha começado a trabalhar mais também por medo!" Inês solta uma gargalhada fresca, para depois sublinhar o tanto que sente dever a esse professor - José Freitas - por a ter feito andar para a frente (ainda que talvez através de métodos pouco ortodoxos).

No 8º ano, decidiu participar nas Olimpíadas de Matemática. Como era muito trabalhadora, chamou a atenção de um professor da escola que começou a orientá-la. Ficou tão próximo que se tornou uma espécie de tutor. Consciente do seu gosto (e jeito) para comunicar, incentivou-a a participar em concursos em que era preciso fazer vídeos, motivou-a a fazer palestras. Chama-se João Oliveira e é outro dos responsáveis por esta paixão crescente da Inês pela Matemática. 

No 10º ano seguiu a área de Ciências e Tecnologia, ainda sem saber exactamente que curso escolheria mas quase apostada em continuar no caminho dos números. E foi no 12º ano que se juntaram três acontecimentos que se revelaram fundamentais neste percurso: "Estava a trabalhar para as Olimpíadas de Matemática, queria muito ganhar uma medalha, mas as coisas não me estavam a correr muito bem. Então, aproveitando o facto de o 12º ano ter menos disciplinas e deixar mais tempo livre, criei o meu Canal no Youtube: MathGurl. Foi uma coisa sem expectativas nenhumas, era mesmo porque tinha tempo e porque estava de certo modo desanimada com o caminho que as Olimpíadas estavam a levar."

[Antes de continuarmos a contar como cresceu o canal até se tornar um fenómeno, uma interrupção apenas para dizer que, nesse ano que lhe estava a "correr mal", ganhou efectivamente a Medalha de Prata nas Olimpíadas de Matemática.]

Feito o parêntesis, deixemo-la contar: "Um dia acordei e tinha 200 emails no correio. Fui ver e eram todos emails automáticos de quem se torna subscritor do canal. Ou seja, tinha-me deitado com uns 40 subscritores e acordei com mais 200. O que raio se teria passado ali? Fui ver e então tinha sido um professor que tinha um canal de Matemática no Brasil que me descobriu e que me recomendou aos seus seguidores. Depois, a propósito de ter ganhado a Medalha de Prata nas Olimpíadas fui entrevistada primeiro para uma revista de Guimarães, depois fui à SIC e à RTP, e em todo o lado falei do meu canal, pelo que os seguidores foram aumentando. Este ano fiz um vídeo com a Sequência de Fibonacci e o canal explodiu!" [o vídeo já tem 174 mil visualizações].

É ela quem faz tudo sozinha. Tem as ideias, escreve os guiões, põe a câmara num tripé a filmar, edita os vídeos. "Gosto muito de comunicar, gosto de desconstruir a Matemática, de a mostrar como algo que não tem de ser um bicho de sete cabeças, gosto quando as pessoas me escrevem a dizer que passaram a olhar a Matemática com outros olhos. Tenho prazer em fazer os vídeos e sei que é algo que me diferencia. Mas dá muito trabalho. Levo um dia inteiro, entre escrever o guião, filmar e editar. Só na edição levo cerca de 6 horas. Ora, quero focar-me no curso e isto é uma coisa que ocupa espaço na minha cabeça. Com o crescente número de subscritores, também sinto a obrigação de fazer vídeos com alguma assiduidade e de ter alguma consistência, e leva tudo muito tempo."

Inês é disciplinada, metódica e uma formiguinha trabalhadora. Não tem vida académica, nem sequer lhe sente a falta. Vive sozinha num apartamento da família, no Porto, de onde sai para a universidade, e onde regressa no final das aulas para estudar e reforçar a matéria. "Gosto de fazer as coisas bem feitas. E gosto muito de trabalhar." Também gosta de passear e conversar com os amigos, de preferência sem grande algazarra e espalhafato.

Nova pausa na narrativa para voltar atrás. Mais acima no texto dizia que, ao longo do seu 12º ano, houve três acontecimentos fulcrais na sua vida. De dois já falámos (o vencer da Medalha de Prata nas Olimpíadas de Matemática e a criação do canal de Youtube), falta referir o terceiro. "Estava nas férias de verão, concluído o 12º ano, e fui à Holanda visitar o meu irmão que estava lá a fazer Erasmus. Um dia recebi um email da editora Manuscrito a dizer que gostavam que eu fizesse um livro. Tinha cerca de 800 subscritores na altura. Fiquei entusiasmadíssima. Escrevi-o antes mesmo de entrar na faculdade. A editora foi adiando a publicação e pronto... foi agora!"

O livro chama-se "Desafios Matemáticos Que Te Vão Enlouquecer". A mim não vão certamente, que esta é uma inimizade que vem de longe (com a Matemática, não com a autora, bem entendido), mas Inês espera que este livro possa chegar a muitos jovens, que ainda vão muito a tempo de olhar para a disciplina com outros olhos. 

Inês Guimarães vai acabar o curso para o ano ("se tudo correr bem") e a seguir conta entrar no Mestrado. Profissionalmente? Não faz ideia. Logo se vê. Para já tem alguns projectos que - espera - vejam a luz do dia em breve: "Creio que ainda este ano deve sair uma série minha na RTP Play chamada "Matemática Salteada", em que, com a ajuda de comida, vou explicando a Matemática."

Ela não pode adivinhar o futuro (nenhum de nós pode), mas não são precisos muitos cálculos para acreditar que a equação da sua vida só pode dar um resultado positivo. Nós por cá ficamos atentos ao evoluir desta operação. 

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 Canal de Youtube MathGurl 

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