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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Hoje é Dia Mundial da Pessoa com Doença de Alzheimer

E eu gosto sempre de me lembrar da maravilhosa e única história do senhor Imaginário Monteiro, que acompanhou o amor da sua vida primorosamente, até ao fim. Foram muitos anos de Alzheimer mas ele esteve lá sempre para ela.
Já escrevi sobre este senhor mais do que uma vez. Este não é o primeiro texto, que era uma reportagem maior, com muitos casos de doentes de Alzheimer e suas famílias, e que foi publicada no DNA. Infelizmente, não a tenho no computador, mas apenas em papel, na arrecadação onde guardo todos os DNAs (9 anos do suplemento semanal - muitas caixas, portanto).



«Então, minha querida? Então?» José ImaginárioMonteiro acaricia os cabelos da mulher, pousada como uma pequena ave nocadeirão, em frente às imagens vazias do televisor. «Coitadinha, ponho-a alimas ela não está a ver nada… É só para não a ter deitada o dia todo, sabe? Porcausa das feridas. Coitadinha».
José é um homem encantador, com quem se fica,tranquilamente, à conversa um dia inteiro, sem dar conta das horas que passam.«Se calhar estou a maçá-la. É que passo muito tempo aqui sozinho, sem falar comninguém… Depois, já se sabe, arranjo companhia e nunca mais me calo. Desculpe,sim? Provavelmente quer ir à sua vida…»
José Imaginário Monteiro tem 74 anos. A mulher,Maria Augusta, também. Em Novembro, farão 50 anos de casados. «Éramos muitofelizes. Conhecemo-nos no curso de Farmácia e, desde então, nunca mais nosseparámos. Ela era uma mulher extraordinária. Quando ficou doente, eradirectora de serviço no Ministério da Saúde e delegada de Portugal naComunidade Europeia, no ramo das farmácias. Viajava muito e eu, como estava namesma área, arranjava maneira de ir com ela».
Foi há pouco mais de dez anos que os primeirossinais da doença começaram a surgir. Maria Augusta, habitualmente metódica eresponsável, começou a baralhar-se, a esquecer-se das coisas, a confundir asruas, as datas, os acontecimentos. Um dia, perdeu-se em Budapeste, e foi umcaso sério para tornar a encontrar o caminho de volta ao hotel. Joséinquietou-se e insistiu para que consultassem um médico. «Mas a minha mulherera de uma teimosia inabalável. A senhora sabe lá! Dizia que era cansaço, queera stress… Recusava-se terminantemente a ir ao médico».
Maria Augusta nunca chegou a saber o que tinha. Odiagnóstico, feito há dez anos, deixou José devastado. «Na altura, o médicodeu-lhe seis meses de vida». Mas os casais têm esta estranha característica de,com o passar do tempo, se tornarem parecidos e deve ter sido assim que eleacabou por ficar tão teimoso como ela, de modo que, apesar de serem negras asexpectativas, recusou-se a desistir. E, pelos vistos, valeu a pena.
Há dez anos que José não sai de casa. Mesmo. É claroque, nos dias em que a empregada vem, sai alguns minutos para ir ao café ou auma loja nas redondezas. E é tudo.
Há dez anos que José vive exclusivamente para cuidarda mulher. Retirou de casa quase todos os móveis, que só serviam paradificultar a passagem da cadeira de rodas, pediu livros sobre a doença deAlzheimer e outras doenças parasitas que acabam, quase inevitavelmente, poraparecer, e estudou tudo ao pormenor até se transformar no melhor enfermeiroque pode existir.
Todas as manhãs, religiosamente, José ImaginárioMonteiro aponta num caderno a temperatura da mulher, a tensão, o peso. Com umaparelho sofisticado, mede-lhe a quantidade de açucar no sangue e, à noite,repete a operação. Ao longo do dia, regista ainda a quantidade de vezes que lhemuda a fralda, as suas reacções, a ausência ou aumento de apetite.
Na arca congeladora, tem dezenas de frascos de frutacozida para lhe dar. No frigorífico, guarda iogurtes, sumos, além das caixascom carne e peixe já cozinhados e cortados em pequenos pedaços, para que aalimentação seja equilibrada. Nas prateleiras, alinhados como soldadoseficazes, estão todos os medicamentos que Maria Augusta tem de tomar.
Há dez anos que é assim. Há dez anos que José tem anoção exacta de tudo o que se passa com a sua Maria Augusta.
Foi assim, com este método disciplinado, queconseguiu controlar-lhe os diabetes e acalmar-lhe as convulsões. Foi assim quedeu cabo de uma bronco-pneumonia e é assim que há-de estar preparado para tudoo que ainda esteja para vir. «Tenho a certeza que ela, num lar, já há muito queteria morrido. Seria incapaz de a internar. Ela é a minha razão de viver».
Na Associação Portuguesa de Familiares e Amigos deDoentes de Alzheimer, o caso de José Imaginário Monteiro é conhecido. LuísaPomar Gonçalves, membro da associação desde que ela foi criada, em 1988, nãoesconde a admiração que sente perante tamanha dedicação e afecto. Sabe que épreciso abdicar da própria vida para uma entrega semelhante. E abdicar da vidaé algo que nem todos estão dispostos a fazer.
José não se imagina a agir de outra forma. Tem osdias programados em função da sua pequena ave, muda e imóvel. «Então, minhaquerida? Então? Ela não me ouve mas converso muito com ela. Não é? Não é?»Depois, olhando pela janela como se não houvesse nada do outro lado, desabafa,quase em surdina: «Se ela me falta… Se ela me falta, o que vai ser de mim?»




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