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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Histórias da Quarentena#2

NASCER EM TEMPOS DE COVID

Mariana esteve em perigo de pré-eclampsia e foi internada às 32 semanas de gravidez. Sem o pai, sem ninguém que lhe pudesse dar a mão e dizer que ia ficar tudo bem. Ninguém, nem mesmo o pai da Clarinha. Saiu do hospital 14 dias depois

 

Naquela noite de 27 de Agosto, agarrados um ao outro a chorar de alegria, Mariana e Pedro não podiam imaginar que aquela felicidade embrionária ainda os ia fazer chorar tanto de angústia, de solidão, de medo. Aquele positivo, que era tudo o que desejavam, havia ainda de passar por uma dura prova chamada Covid-19, e seus efeitos colaterais.

Mariana sempre quis ser mãe. Educadora de infância, conheceu o homem da sua vida tarde, aos 35 anos e, chegaram a pensar que talvez não fosse fácil conseguir uma gravidez, uma vez que ela já tinha sido operada ao útero duas vezes, e ele também tinha levado algum tempo a conseguir ser pai, numa relação anterior. Enganaram-se. Em julho de 2019, Mariana recebeu uma biópsia negativa ao útero, e decidiram começar a tentar. Em agosto, no regresso de uma viagem a Marrocos, Mariana sentiu-se malíssimo, agoniada e a vomitar. Quando, no dia seguinte, fizeram o teste, nem queriam acreditar: iam ser pais! 

A gravidez correu bem, com excepção da tensão arterial, que subiu logo no início e a médica, por precaução, juntando os valores ligeiramente elevados da tensão à idade e ao trabalho exigente, passou-lhe uma baixa logo nos inícios da gravidez. E Mariana aproveitou-a para descansar, para gozar da sua barriga com orgulho e vaidade, para desfrutar de uma gravidez há muito desejada. 

No início de Março, às 32 semanas de gravidez, a tensão arterial de Mariana escalou. Havia um sério risco de pré-eclampsia (uma complicação da gravidez que pode revelar-se muito grave e até mortal) e a bebé estava a crescer pouco: estava no percentil 7. "A médica mandou-me ficar em repouso e comer proteína a todas as refeições. E assim foi. Fiquei três semanas em repouso e a comer muito bem, e no dia 25 de Março fui de novo à consulta na Maternidade Alfredo da Costa. Foi então que a médica viu que a Clarinha só tinha aumentado 300 gramas. Estava no percentil 4. Explicou-me que a minha placenta tinha um defeito, que não estava a alimentar a minha filha, e que tinha de ser internada naquele momento, para se fazer uma cesariana ainda nesse dia."

Estávamos em pleno confinamento. Os acompanhantes já tinham sido barrados à porta dos hospitais e Mariana foi ao carro informar o futuro pai da decisão da médica. Choraram abraçados, com medo de que o desfecho pudesse não correr bem, e por saberem que, fosse qual fosse o desenlace, não poderiam passar por ele juntos. Ainda assim, havia a esperança de que, no máximo, daí a 4 dias seria o reencontro: "A médica tinha dito que a bebé ia nascer naquele dia, e que teria alta em 4 dias. E assim nos despedimos, a achar que não tarda estaríamos juntos, apesar de tudo."

Só que este parto não estava destinado a ser fácil, nem previsível, nem particularmente simpático para nenhum dos intervenientes. Mariana foi internada, os turnos mudaram, e os médicos que estavam no internamento não tiveram a mesma opinião da médica assistente: a bebé não ia nascer já. Controlaram a tensão de Mariana, monitorizaram os sinais vitais da bebé, e decidiram manter a gravidez pelo tempo que fosse possível. Passou dia 25, passou dia 26, dia 27, dia 28, 29, 30. Mariana num quarto de hospital, confinada, sem o pai da Clara ao seu lado. "Eu repetia vezes sem conta que já estávamos fechados desde o início de Março, que ele podia ficar sempre comigo, sem sair do hospital, mas a resposta foi sempre a mesma: não. Eram ordens da DGS. Nem uma janela podia abrir. O que me valeu foi o telemóvel, poder falar com ele, com a minha irmã, com os meus sobrinhos, com a família toda e os amigos... Um dia o Pedro apareceu lá em baixo, e eu pude vê-lo e à minha enteada pela janela. Foi uma choradeira que nem imagina! Mas sentia-me, ainda assim, tão sozinha. Devia estar feliz, mas tinha tanto medo, tanta apreensão, e ninguém dos meus por perto. Disse ao Pedro que, se houvesse dúvidas sobre quem salvar, queria que salvassem a minha filha. Ela seria para sempre dele. E eu queria muito que ela nascesse e vivesse. Enfim, foi um tempo muito duro, em que tudo nos passava pela cabeça. E passar por isto sozinha... foi mesmo difícil." Mariana emociona-se. Emociona-se incontáveis vezes, ao longo da nossa conversa. Há dores que levam tempo a passar.

No dia 31 de Março, a tensão arterial disparou para 20/12. Começaram a induzir o parto. As contracções começaram mas o processo foi lento. Tão lento que no dia 2 de Abril ainda estava em trabalho de parto. "Cada contracção que eu tinha fazia disparar a minha tensão e fazia diminuir o ritmo cardíaco da Clarinha. Foi então que fui para o bloco, para uma cesariana. Ela estava muito subida e, a certa altura, ouvi-os dizer ao anestesista para fazer força. Ele empoleirou-se no meu peito e fez tanta força que uma semana depois ainda me doía o peito. A Clarinha nasceu e não a ouvi chorar. Levaram-na para outra sala e eu só soluçava: a minha filha? A minha filha?"

Clarinha veio de seguida. Era muito pequenina. Nasceu às 36 semanas e 3 dias com 1,745 kg e 42 centímetros. Depois daquele primeiro olhar e cheiro (Mariana sempre de máscara), levaram a bebé para o Puerpério e Mariana para os Cuidados Intensivos. A tensão mantinha-se alta e tinha perdido muito sangue. Não se viram durante praticamente 26 horas. No dia 4 de Abril à meia-noite, uma enfermeira-anjo ("Susana, não me lembro do apelido"), levou a mãe a ver o seu bebé. Mariana pegou-lhe, enfim, pôde observar-lhe os detalhes, os dez dedos das mãos, os dez dedos dos pés, o nariz, a boca, cada pedacinho que não tinha podido ainda ver. Daí a um bocado, a enfermeira perguntou: "E agora?" Mariana agarrou-se à filha: "Agora já não a largo". A enfermeira sorriu e disse-lhe que ia então tratar de tudo para que pudesse ficar ao lado da filha. 

No dia 7, tiveram ambas alta da MAC. Catorze dias de internamento para Mariana, 5 dias de internamento para a Clarinha. O pai foi buscá-las e conheceu, ao vivo, a filha. Cinco dias depois de ter nascido. "Abraçou-me e foi outra choradeira à porta, claro. E depois olhou para a filha e disse: 'Tão pequenina... nas fotografias parecia maior, parece um ratinho.'"

Nesse dia, a irmã de Mariana foi conhecer a sobrinha à janela de casa, e sobrinhos vieram conhecer a prima nova. Alguns amigos vieram à janela, ver a bebé. O avô materno só conheceu a neta quando ela já tinha um mês e meio. A avó materna conheceu a neta na semana passada. Durante dois meses, Mariana esteve fechada em casa com a filha, impossibilitada de exibir ao mundo, ao vivo e a cores, a sua melhor obra. Muito melhor do que estar no hospital, sem dúvida, mas ainda assim foi uma provação continuada no tempo. É verdade que teve a sua filha, perfeita, saudável, é certo que o desfecho não foi uma tragédia (como podia ter sido), mas esta acabou por ser como que uma uma felicidade confinada, ela própria. Como uma felicidade a quem estivessem a tapar a boca, para não gritar aos sete ventos a sua existência. Clarinha não faz ideia, mas a pandemia faz parte da sua vida e fará, para sempre, parte da sua história.

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*Histórias da quarentena é uma nova rubrica do blogue, onde se vão contar histórias boas, más, incríveis, bonitas, feias sobre este período único que vivemos. Se tiverem histórias que creiam que valem a pena contar, enviem para sonia.morais.santos@gmail.com

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