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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Histórias da Quarentena#1

FRANCISCO, 13 ANOS: LUTOU COMO GENTE GRANDE CONTRA O "VÍRUS DOS IDOSOS"

Nem só pessoas com mais de 65 anos correm risco de vida com o Covid-19.

O caso de Francisco é raro, mas aconteceu

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Francisco nunca poderá dizer que a Covid não é para meninos. Aos 13 anos, o filho de Madalena e de Tiago aprendeu da pior maneira possível que o vírus de que toda a gente fala não ataca apenas os mais velhos. A ele, atacou-o e não foi pouco. Durante algumas semanas, lutaram ambos forte e feio. Francisco esteve quase a perder o confronto, mas fica já aqui o spoiler alert: esta história acaba bem (para o Francisco).

Tudo começou com a mãe. Sintomas de gripe, perda de olfato e de paladar, febre, dores de cabeça violentas, cansaço. Ligou para o SNS, começou a ser monitotizada à distância. Como não acharam necessário fazer teste, Madalena decidiu fazer, num laboratório privado. A 16 de Março recebeu o seu Positivo. Não estava propriamente assustada, talvez um pouco apreensiva ao início mas, com o passar dos dias, sentiu que a doença não evoluiu e relaxou. Ainda assim, isolou-se em casa. O marido, que trabalha no Luxemburgo, veio para tomar conta do Francisco e da irmã, Leonor, de 8 anos.

Um mês depois, precisamente a 16 de Abril, Madalena fez o segundo teste, que deu negativo. E a 18 de Abril, outro. Negativo também. E pronto. Assim teria terminado esta história, com uma passagem do vírus que parou o mundo pela casa desta família de forma fugaz. Mas não foi assim que aconteceu. A 21 de Abril, uma terça-feira, o Francisco começou com febre. "Não era muito alta, ficava ali nos 38,4ºC, mas demorava a baixar com o Benuron e voltava a subir pouco depois." No dia seguinte, a febre continuou a subir, mas baixava com os antipiréticos. Nessa noite, de quarta para quinta-feira, Francisco começou a bater o dente e a febre chegou aos 38,7ºC. Quinta-feira de manhã (23 Abril), foram com ele para o Hospital de Dona Estefânia, em Lisboa. 

Fez raio X, fizeram o teste à Covid, tiraram sangue para análise. Tiveram de esperar muito tempo pelo resultado das análises e, ao final do dia, o Francisco estava claramente a piorar. Vomitou no chão da urgência, a febre a escalar. Os valores das análises estavam completamente alterados e, apesar de o Raio-X não apontar nada de especial (nem a TAC que fez depois disso), decidiram interná-lo na Infecciologia. "Eles estavam muito bem equipados. Havia uma antecâmara com baixa pressão, o protocolo estava muito bem pensado, de modo a minimizar a entrada dos profissionais de saúde no quarto. Borrifavam o espaço todo com desinfectante que ficava a actuar por várias horas... achei mesmo que havia medidas de segurança muito bem definidas e estruturadas."

As manchas que Francisco tinha desenvolvido nos pulsos, que se achava poderem ser uma espécie de alergia às luvas de latex que ele tinha quando chegou ao hospital, espalharam-se pelo corpo e já não eram bem manchas. Eram como picadas de agulhas e estavam sobretudo nas pernas. Madalena reparou que a equipa andava à volta dele sem saber muito bem o que fazer, mas ela ainda não sentia medo. "Ainda estava bem longe de imaginar o cenário que estava para vir."

No dia 24 de Abril, fizeram mais análises, um electrocardiograma. Não disseram muito sobre as análises mas o exame ao coração estava bem. Francisco parecia estável. Mas no dia 25 de Abril (sábado) tudo desmoronou. "Achei-o murcho quando acordou. Fizeram novas análises, mais um electrocardiograma, e foi aí que algo virou. A médica pôs o resultado do electrocardiograma no vidro para a cardiologista ver, e a cardiologista pediu para falar com ela, pelo intercomunicador. A médica saiu e vi-as agitadas do outro lado. A tensão arterial do Francisco estava a baixar, as picadas estavam a alastrar para as costas e já eram manchas. E à tarde foi o descalabro. Fizeram uma Angio-TAC, algaliaram-no, e a médica anunciou que iam pô-lo nos cuidados intensivos. Só via a médica da Infecciologia e a dos Cuidados Intensivos a apressarem as coisas, tudo numa grande correria, e foi aí que eu 'paniquei'. Fui para a casa de banho chorar, para ele não me ver assim. Ele estava consciente, apesar de hoje dizer que não se lembra de nada. Acho que já estava num limbo, mais para lá do que para cá."

A certa altura, o estado geral do Francisco era tão grave que a médica foi ter com a mãe e disse: "Vamos ter de o entubar e ventilar. Está a entrar em choque". Madalena só via médicos a correrem de um lado para o outro, desconcertados. "Estavam em contacto com Londres, ligaram para meio mundo, não estavam a conseguir estabilizá-lo, nem a perceber o que fazer. Depois percebi que todos os órgãos estavam a ser afectados: pulmões, coração, rins, pâncreas... A certa altura gritaram-me que tinha de sair, que tinha mesmo de sair. Fiquei uma hora e tal à espera, sozinha, no corredor. Sem fazer ideia se ele se ia salvar. Foi um pesadelo."

Por fim, vieram dizer-lhe que o filho estava a estabilizar, que as próximas 24, 48 horas seriam decisivas, e puseram Madalena à vontade para dormir no hospital ou ir para casa. "Ele estava sedado, entubado, e eu precisava muito de abraçar o meu marido e de chorar. Fui para casa, rezar muito, chorar mais ainda. Sempre em contacto com a directora de Infecciologia, Drª Maria João Brito, que me ia dando todas as notícias."

Quando a equipa decidiu tentar a Hidroxicloroquina, foi preciso que os pais dessem consentimento. Havia riscos mas era uma hipótese a explorar. Os pais aceitaram. Francisco levou o cocktail completo: três tipos diferentes de antibiótico, corticóides, hidroxicloroquina, e possivelmente outros que a mãe desconheça. "A alta dele tem 8 páginas. Ele desenvolveu uma pancreatite, uma miocardite, uma pneumonia bilateral, uma falência renal... esteve mesmo com todos os órgãos em risco. O dia 25 de Abril, que é um dia de Liberdade, para mim passou a ser um dia negro na minha história, na minha vida."

Francisco esteve 5 dias entubado e ventilado. Ao quarto dia, acordaram-no e mantiveram uma semi-ventilação para perceber se, no dia seguinte, seria possível retirar-lhe a ventilação (e foi possível). Esteve 8 dias nos cuidados intensivos. "E, no domingo, 3 de Maio, Dia da Mãe, saiu dos Cuidados Intensivos. Foi o melhor presente que podia ter tido!" Ainda ficou até dia 12 de Maio internado, na enfermaria, onde fez incontáveis exames. Perdeu 10 quilos e ainda tem algumas sequelas no coração, mas espera-se que sejam reversíveis. Cansa-se muito e está a fazer reabilitação física, na Estefânia e no privado, para recuperar a massa muscular perdida. Continua a ser seguido de perto pela Drª Maria João Brito, da Estefânia, e enviado para diferentes especialidades, no sentido de verificar se todos os órgãos afectados recuperam bem e sem mais sustos. 

O que aconteceu ao Francisco é raro. Muito raro. Há, no mundo inteiro, cerca de 230 registos de casos semelhantes. Ele é o único caso em Portugal. No fundo, é como se o corpo começasse a agredir-se a si próprio, na tentativa de eliminar o vírus. Ou seja, não foi a Covid-19 que fez todos estes estragos (de resto, deu sempre negativo nas análises que fez ao vírus enquanto esteve na Estefânia, muito provavelmente porque já não o teria, nessa altura), mas o organismo a tentar combatê-lo. Ainda assim, o Francisco nunca poderá dizer que a Covid não é para meninos. Ele tem 13 anos e viu-se grego com o vírus que, supostamente, tem os idosos como alvo. 

 

*Histórias da quarentena é uma nova rubrica do blogue, onde se vão contar histórias boas, más, incríveis, bonitas, feias sobre este período único que vivemos. Se tiverem histórias que creiam que valem a pena contar, enviem para sonia.morais.santos@gmail.com

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