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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Histórias da Quarentena #6

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Sempre quis ser médica, desde que se lembra de querer ser alguma coisa. O pai era Matemático e essa opção também estava em cima da mesa, se o plano A falhasse. Não falhou. Teresa não só se tornou médica como acumulou especialidades: Medicina do Trabalho, Oncologia Médica e Medicina Interna. Além disso, como sempre quis saber mais e adquirir mais valências, fez uma pós-graduação em Gestão Unidades de Saúde e um Curso de Mestrado em Engenharia da Saúde. 

A paixão pela Oncologia nasceu quando exercia Medicina do Trabalho numa grande indústria e, de repente, surgiu a dúvida se um dos produtos seria ou não cancerígeno. O cancro cruzou-se assim na sua vida profissional e, a seguir, os seis meses que passou no IPO de Lisboa transformaram-se em 18 meses. Fascinava-a a resposta espectacular à terapêutica que alguns doentes com cancros tinham, ao contrário de outros, o que a levava a pensar na componente genética e na área potencial de investigação que havia para desbravar (falamos do final dos anos 80). Além disso, queria desmistificar o cancro, queria tirar-lhe a densidade, o peso, o medo que a palavra trazia consigo. Queria que a morte não surgisse como único desfecho possível na cabeça dos doentes e das famílias. Teresa seguiu a sua carreira como médica oncologista e um dos seus objectivos era conseguir criar a Unidade de Oncologia no hospital onde trabalhava. Hoje é a Responsável desse serviço e Directora Clínica do hospital. 

No dia 3 de Fevereiro de 2020 sentiu um desconforto abdominal e teve uma pequena hemorragia. Pensou que talvez fosse uma infecção urinária mas rapidamente desconfiou de outra coisa e fez de imediato um exame ao colo do útero. Afinal, o cancro já se tinha cruzado na sua vida pessoal bem antes de ter surgido na profissional: "O meu pai morreu de cancro, o meu irmão morreu de cancro, a minha avó materna, dois irmãos do meu pai, dois irmãos da minha mãe. De maneira que, quando soube que era cancro do colo do útero, a única coisa que quis saber foi o estadiamento. Até ter o estadiamento calei-me caladinha e não falei à família. Porque sabia que teria de falar de forma diferente, consoante tivesse metástases ou não. Não tinha."

No dia 22 de Fevereiro contou à filha Filipa, a mais velha de 6 filhos (Filipa, 35 anos; Pedro, 31 anos; um sobrinho que é como se fosse um filho - Fernando, 28 anos; João, 27; Zé Miguel, 23; Francisco, 16). Mas o pior foi contar à mãe, a quem já tinha morrido um filho de cancro. Teresa não queria causar sofrimento a ninguém e tinha medo que se pusessem a pesquisar no Dr. Google, em vez de confiarem na sua palavra. Filipa, a primogénita, diz que só receava que a mãe estivesse a omitir coisas para os poupar: "A minha mãe é um extraordinário exemplo de força. Em vez de pedir colo, quis poupar os filhos e a mãe e ainda foi ombro para os colegas que reagiram em choque à notícia." Teresa encolhe os ombros, como se não tivesse importância nenhuma e, sobre os colegas, diz: "Tive quem desatasse a chorar e a perguntar: 'como é possível, a Teresa com um cancro??' (Que mais me impressiounou) Ao que respondi: 'Então, sou mais uma! Ser oncologista não é vacina contra o cancro!' É o que é."

Fez 61 anos no dia de 1 Março e, dia 2, começou o tratamento. Sete sessões semanais de quimioterapia, sessões diárias de radioterapia durante essas 7 semanas e ainda uns 3 tratamentos extra no IPO (braquiterapia). Filipa foi com a mãe à primeira sessão de quimioterapia e diz que a sua calma era tranquilizadora: "Dizia-me que, ao passar por isto, ainda poderia compreender melhor os seus doentes oncológicos. Depois da segunda sessão deixou de ser possível ter acompanhantes, devido às restrições do hospital pela Covid-19."

No meio de tudo, seria expectável que abrandasse a nível profissional. Só quem não conhece a Teresa acreditaria num abrandamento. Trabalhou praticamente todos os dias, antes ou depois dos tratamentos. Sentia que tinha de estar na linha da frente, numa altura tão crítica para o hospital como a da pandemia: "Sei que se não fosse a Covid podia ter tirado uns dias, quando me senti mais cansada. Mas não podia. Não numa altura como aquela. Tive cuidados acrescidos, por estar imunodeprimida, mas tinha de lá estar. A única coisa que deixei de fazer foi urgências. Ainda assim, sei que não dei o que podia ter dado nesta fase. Mas felizmente tenho a sorte de trabalhar com uma equipa fabulosa, e não falo só de médicos mas colegas de todas as equipas profissionais. Tenho-lhes uma gratidão eterna. Nunca me fizeram sentir doente, sempre tiveram para comigo o máximo respeito e apoiaram-me muito."

Filipa e os irmãos preocuparam-se, tentaram chamá-la à razão, ralharam, protestaram. No fundo, sabiam que não valia a pena. Teresa não se deixa abalar e tem um pragmatismo que chega a ser desconcertante: "Era como se este cancro fosse uma mera constipação, e como se a pandemia não a pudesse apanhar a ela." Teresa torna a encolher os ombros: "Ó Filipa, tinha de ser! Adoro o meu trabalho e não queria transformar-me numa doente. Eu precisava do meu trabalho, da minha normalidade e no hospital todos precisavamos de todos. Além disso, há outra coisa: o meu irmão dizia uma coisa que nunca mais esqueci: os únicos momentos irrepetíveis e únicos na vida do Homem são nascimento e a morte. Não tenho medo da morte. Nenhum. Sei que não parei aqui por acaso. Se for amanhã já fiz muita coisa. Não tudo mas muita coisa. E isso é óptimo. Valeu muito a pena. Está ganho!"

E está mesmo. Todos os exames feitos indicam que Teresa ficou livre do cancro. No dia em que terminou o último tratamento do IPO, a família não pôde celebrar com ela. Em pleno estado de emergência, não se puderam abraçar como gostariam. Mas os filhos queriam assinalar o momento e então deixaram um vídeo preparado com uma mensagem conjunta de todos os filhos e um ramo de flores, para quando chegasse a casa.
Nesse dia, o filho que a levou ao último tratamento e mais dois, apesar de terem intenção de ficar escondidos na escada para ouvir a reacção da mãe ao vídeo, acabaram por entrar em casa a bater palmas e de lágrimas nos olhos. "Malandros, fizeram-me chorar pela primeira vez", confessou Teresa. 
Filipa e os irmãos sabem que têm uma mãe de ferro, de aço. Um pilar inabalável. "Já admirávamos a nossa mãe mas a sua atitude de resiliência a esta provação aumentaram ainda mais o nosso orgulho nela. É um exemplo."
 

E nós, que a tivemos na linha da frente numa altura tão difícil da sua vida só podemos dizer: "Obrigada, Teresa". 

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