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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Gente que não é bem gente

Estava ontem na manicure, perto do meu escritório no Chiado, e ela começa a contar-me que teve um problema difícil de saúde, que a obrigou a cancelar algumas marcações. Qual não foi o seu espanto quando recebeu respostas absolutamente violentas por parte das clientes. Uma delas estava indignadíssima, porque tinha um evento, e era o que faltava agora ir com os pés naquele estado. Foi preciso a rapariga explicar que tinha perdido um bebé e a resposta não se fez esperar: "E então? Perdeu, está perdido!" Oi?????? Perante o meu ar perplexo, ela sorriu. Disse que essa não foi a única resposta cruel que recebeu, que teve muitas outras, que uma ou duas chegaram mesmo a deixar de lá ir, porque não "perdoaram" o facto de aquela mulher, que não existe neste mundo a não ser para as servir, ter tido a ousadia de ter um aborto espontâneo e não as atender, ainda que se estivesse a esvair em sangue. 

Quando oiço estas barbaridades penso no rumo que o mundo está a tomar. Na total falta de empatia, de solidariedade, de saber olhar para lá do umbigo que começa a ser muito mais comum do que se imagina. Que gente miserável, esta, que não consegue ter a capacidade de compreender que há coisas mais graves do que os seus pés com peles, calos ou unhas feias. E que aquela mulher que as atende, que as torna mais bonitas, merecia ser olhada como um ser humano e não como uma máquina de fazer unhas.

Fiquei agoniada e não foi metaforicamente, juro. E, uma vez mais, tenho pena que isto não seja como o boomerang. Chateia-me que não acredite no karma, nessa coisa de pagarmos cá pelas coisas más que fazemos (e, já agora, recebermos cá pelas coisas boas que fazemos também). E não acredito porque já vi muito filho da puta ter uma vida espectacular, assim como já vi muita gente boa penar duras penas. De maneira que, não acreditando na justiça terrena (nem na divina, desgraçadamente para mim), fico só a torcer para que a senhora que lhe disse "perdeu, está perdido" consiga encontrar, dentro de si, uma pontinha de humanidade e se agarre a ela para voltar a ser gente. 

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