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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Galp, a Luz dos Portugueses, e a luz do Martim

Desde o início de 2018 que a Galp tem a decorrer a campanha "A Luz dos Portugueses", em que oferece um mês de electricidade grátis a todas as famílias dos bebés que nasçam no dia 1 de cada mês.  Basta ir AQUI e ver as condições e a forma de se inscreverem. O objectivo da campanha é o alerta para a queda da natalidade que, no nosso país, é verdadeiramente assustadora.

Aqui o vosso singelo blogue não quis deixar de se juntar a esta iniciativa e, em colaboração com a Galp, lançou um passatempo (que se repete todos os meses), em que um bebé nascido em cada mês (e sorteado via random) ganha uma sessão de Baby Art, com a talentosíssima Raquel Brinca

No mês de Abril, ganhou o pequeno Martim

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Se o local da concepção contasse para um bom prognóstico de vida, o Martim teria altíssimas probabilidades de vir a ter uma existência fulgurante. Afinal, ser gerado nas Maldivas tem todo um outro charme do que ser concebido num qualquer ponto menos paradisíaco do Planeta. Acreditemos que sim, que leva já nos genes a serenidade e a calidez das águas, a paz das areias brancas e dos coqueiros, a energia dos peixes de mil cores que se vislumbam na transparência do mar. 

Martim nasceu no dia 18 de Abril e já leva, de resto, com duas boas-venturas na sua curta vida. Uma é essa, a do local onde foi feito, pelos pais apaixonados e em Lua-de-Mel, e a outra é a de poder estar agora enroscado a dormir no colo da mãe. É que nem tudo são idílios e Ana, a mãe, passou um mau bocado depois do parto que a podia ter levado desta para outra qualquer (desculpem, não consigo dizer "para melhor" porque não existe ainda confirmação que o ateste). 

Tudo começou antes. Ana queixava-se de falta de ar, de cansaço, de dores nas costas. Ninguém ligava nenhuma, afinal, são as queixas comuns à maioria das grávidas. Para piorar, sublinhe-se que esta grávida em particular sofre de um mal que, não sendo mortal, é penoso. É hipocondríaca. E, já se sabe, quem tem a "mania das doenças" está feito ao bife quando tem efectivamente uma doença. Tal como na história do Pedro e o Lobo, ninguém dá importância quando finalmente é real.

Ainda assim, foi às urgências duas vezes. "Isso não é nada"; "Isso é da gravidez, é natural que sinta mais dificuldade em respirar, é o volume da barriga a comprimir os pulmões"; "Isso deve ser ansiedade". Sucede que Ana já tem uma filha, a Constança, nascida da sua barriga (de um outro relacionamento), e por isso a gravidez não era propriamente um "admirável mundo novo". Sabia que, da primeira vez, não tinha sentido nada disso. E verbalizou-o. Mas a resposta, sempre pronta, desarmou-a: "Cada gravidez é diferente da outra..." Foi preciso ir a uma terceira urgência, ser recebida por um médico que desconfiou daqueles queixumes, e a mandou fazer análises específicas que confirmaram o que ele suspeitava: "Tromboembolia-pulmonar". O pior ainda estava para vir. Os médicos desorientados, como podia ser uma embolia se o oxigénio estava a 100%, como podia ser se o sangue venoso apresentava as mesmas percentagens? "Às tantas começaram a dizer que eu devia ter uma carcinoma no sistema endócrino, ali mesmo à minha frente, como seu eu ali não estivesse". 

Entretanto, um obstetra especialista em gravidezes de risco ia a passar no corredor quando ouviu a discussão. Foi para casa, a pensar naquilo, ligou para o hospital, e mandou a paciente fazer um AngioTAC: "O que ela tem é uma embolia periférica. Cancelem todos os outros exames que a mandaram fazer, que eu já vou para aí." Descoberto o diagnóstico, foi preciso encontrar a causa. Feitos os diversos despistes de doenças auto-imunes, genéticas e outras, concluiu-se que foi apenas uma consequência (rara mas ainda assim possível) da própria gravidez. Ana começou a levar injecções diárias de heparina, um anticoagulante, e Martim nasceu às 37 semanas e 3 dias, de cesariana. Em princípio, estava ultrapassado o susto.

"O nascimento foi tranquilo, eu estava cheia de medo das hemorragias por estar a tomar heparina, mas correu tudo bem, ele começou logo a mamar, foi óptimo. O pior foi quando cheguei a casa. Saí do hospital de manhã e ao fim do dia estava cheia de dores na barriga. Queixei-me mas ouvi o costume: 'isso é normal, acabaste de fazer uma cesariana!" Passou a noite com dores e no dia seguinte de manhã foi às urgências. Nem sequer deixava que lhe tocassem, tais eram as dores. Fez uma TAC e tinha um hematoma de 9/5cm. Ficou internada, com o bebé, com indicação de repouso. 

À noite, as dores pioraram e voltou a fazer TAC, às 2h da manhã. O hematoma tinha aumentado para 20/20cm. "Eu vi mesmo a cara da técnica a olhar para mim, cheia de pena. 'Tem um bebé lá em cima, não é? Pois... vai correr tudo bem.' Percebi que ia ser operada de urgência, que estavam a ligar ao cirurgião, à minha obstetra. Parecia uma doida a pedir ao meu marido para ficar sempre com a Constança, a minha filha, para não separar os dois irmãos, para dizer a ambos que eu os amava muito, uma autêntica despedida. Estava em pânico." João, o pai, há-de ter visto a vida a andar para trás, muito para trás, mas fez sempre aquele ar forte de quem acredita que tudo vai correr bem.

Correu tudo bem. Além da anemia, além de ter ficado uma semana internada, além de lhe terem alterado todos os planos (aqueles que fazemos sempre porque achamos que controlamos tudo), além de estar branca como a cal... está tudo bem. Está viva, com o seu bebé e a sua Constança, de 8 anos, que não se cansa de repetir ao ouvido do irmão "és tão amado... desejei-te tanto... desejei-te durante tanto tempo...". 

Martim dorme sossegado com aquela respiração ofegante dos bebés (como se ainda agora tivessem chegado e já estivessem cansados de tanta novidade), e não sonha que já teve, na sua curta existência, duas sortes. A primeira mais por graça, que ficará sempre bem dizer que se é "made in Maldives". A segunda, sim, uma grande boa-ventura: a de poder ser embalado nos braços da sua mãe. 

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