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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Férias. Tão bom que foi

Uma vez escrevi aqui, há uns anos valentes, sobre a profunda tristeza que baixava em mim quando as férias terminavam. Alguém aproveitou para dizer que talvez a minha vida de todos os dias não fosse feliz, daí que valorizasse tanto as férias, já que ela (essa pessoa que comentou) voltava sempre feliz para o seu quotidiano, por saber que essa era a regra e as férias a excepção, e ela (a comentadora) era feliz na regra e na excepção.

Aquilo deu-me que pensar e marcou-me, como se pode ver, uma vez que já se passaram anos e ainda escrevo sobre isso. Pensei muito sobre a possibilidade de ela ter razão. Seria o meu quotidiano triste? Que diabo! Analisei, escrutinei, esmiucei. E concluí que não. Não se trata de uma infelicidade na regra. Trata-se de um encontro maior com uma ideia de felicidade, na excepção. O dia-a-dia pode ser tormentoso e quem disser que é feliz todos os dias está a mentir. Não pode. Ninguém é. A vida mói, massacra, esmigalha. Os afazeres, os horários, os almoços e lanches e jantares que não se preparam sozinhos, os regressos às aulas com as inseguranças e medos e angústias deles e nossas. Os dias chuvosos, os dias em que nada corre bem, o trabalho a complicar-se, os conflitos fora e dentro de casa, e agora também a pandemia a pesar na já complicada equação da vida. A monotonia que consegue esmagar: acordar, banho, pequenos-almoços, levar à escola, trabalhar, fazer o almoço, ir buscar à escola, lanches, banhos, estudos, jantar, dormir, acordar, banho, pequenos-almoços, levar à escola, fazer o almoço, ir buscar à escola, lanches, banhos, estudos, jantar, dormir, e repeat. Às vezes é difícil encontrar laivos de felicidade nesta linha de montagem, mas é essa - talvez - a maior sabedoria de todas. Encontrá-los. Tentar encontrá-los todos os dias. Um sorriso, uma mão quentinha na nossa, um jantar com amigos, um telefonema que nos encheu a alma, um sucesso de um filho, uma conquista nossa, uma roupa que nos fica bem, uma corrida que nos fez sentir melhores. 

Nas férias, não há sabedoria nenhuma em encontrar a felicidade. Ela entra-nos pelos olhos, atira-se a nós como gato a bofe, espeta-se-nos na cara, agarra-se-nos às pernas. Estamos com os nossos, na praia, com tempo, com sol, com mar, com mergulhos e gargalhadas. Os problemas ficam em casa, no trabalho, longe da vista e do coração. As férias são como uma brecha no tempo e no espaço, uma espécie de suspensão do normal e elevação exclusiva do prazer. 

Por isso, não, a leitora não tinha razão. O meu quotidiano não é infeliz. Tem é momentos menos felizes, como todos os quotidianos. E as férias são só alegria e, por isso, voltar dói sempre um bocadinho. 

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