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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

«Este orçamento merecia o nobel da literatura»


«O Orçamento do Estado que o Governo vai apresentar hoje é um naco de prosa. Certamente não vai ganhar o Nobel da economia, mas tinha potencial para ganhar o Nobel da literatura.
A Academia sueca deu este ano o prémio, erradamente, ao escritor chinês Mo Yan por conjugar "com realismo alucinatório, lendas, histórias e elementos contemporâneos". O realismo alucinatório é uma corrente literária que descreve com uma extrema realidade e precisão um elemento não real, que faz parte do imaginário e do domínio da fantasia. E consta que Vítor Gaspar se sentiu injustiçado, já que ele próprio foi autor de um Orçamento que também combina o realismo alucinatório deste Governo com uma lenda que reza que a economia portuguesa vai recuperar no próximo ano, apesar de estar pejada de novas medidas de austeridade.
Na semana passada, na reunião anual em Tóquio, o economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard, veio comprovar aquela teoria de que um economista é um especialista que saberá amanhã por que é que as coisas que ele previu ontem não aconteceram hoje. E Blanchard chegou à conclusão que o multiplicador orçamental que o FMI usava para fazer previsões económicas estava errado. Os economistas do Fundo achavam que por cada 1 euro adicional de austeridade, a economia poderia afundar 50 cêntimos. Agora chegaram à conclusão que por cada euro adicional de austeridade, a economia pode afundar entre 0,9 e 1,7 euros.
Vítor Gaspar também esteve presente neste evento em Tóquio. E conta quem lá esteve que a reacção do ministro das Finanças foi: "ups, acho que fiz asneira".
É que os novos multiplicadores do FMI, transpostos para a economia portuguesa, mostram que o novo pacote de austeridade de 5,5 mil milhões de euros para 2013 pode ter um impacto negativo na economia que, no pior dos cenários, poderá ir aos 9,35 mil milhões de euros, ou seja, uma contracção do PIB em 5,6 pontos percentuais, muito longe da queda de 1% prevista pelo Governo e pela troika (da qual faz parte o FMI) e muito longe do crescimento de 1% que Gaspar previa há uns meses.
O Orçamento que vai ser apresentado hoje é um insulto aos portugueses, um baixar de braços do Governo, um levar as mãos à cabeça dos empresários, um murro no estômago dos funcionários públicos e pensionistas, uma bofetada à classe média, um levar as mãos aos céus dos pobres e desvalidos, um fechar as mãos e rezar dos desempregados. E combina a corrente do realismo alucinatório com laivos cómicos e surrealistas, aumentando o imposto a tudo o que mexe: escritores, caracóis, cientistas, periquitos, artistas e bichos-da-seda. E se não mexer é porque está morto. E se está morto também paga mais impostos. E se não está morto e finge que está morto é porque é um artista. E os artistas também vão pagar mais impostos.
O Governo contrapõe e bem: se não querem que aumente os impostos então digam onde é que vou cortar na despesa? Não sei. Mas quando os portugueses votaram no PSD pensavam que ele sabia.»

Pedro Sousa Carvalho, Subdirector do Diário Econónico, in DE

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