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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Empatia precisa-se

Com isto da pandemia, constato que há, grosso modo, dois tipos de pessoas. Aquelas que, na tentativa de diminuirem o sofrimento do outro, para que ele não padeça tanto, tendem a mostrar que existem sofrimentos muito superlativos, e as outras que, na tentativa de ganharem o campeonato do sofrimento, atiram as suas dores à cara das demais, fazendo-as sentirem-se mesquinhas por terem ousado, sequer, queixar-se. A umas e a outras, ainda que com graus distintos, falta algo que vai rareando na sociedade: empatia.

Por vezes, caio no erro do primeiro grupo de pessoas e, menos frequentemente, no do segundo. Lembro-me perfeitamente de ser adolescente, ter uma amiga que era particularmente queixosa, e de lhe dizer coisas como: "Mas queixas-te de quê? Tens uma casa boa, uma família, estudas num colégio, és gira e tens amigos e saúde. O que farias se vivesses numa barraca, tivesses a roupa da cama roída por ratazanas, o teu pai te tivesse abandonado, fosses violada por um padrasto nojento enquanto a tua mãe bêbada dormia, e não tivesses o que comer?" Eu achava que aquele relato faria com que a minha amiga olhasse para as coisas em perspectiva, e tinha a certeza de estar a fazer o melhor para ela. Hoje, tenho muitas dúvidas. 

Quando fiz terapia, disse muitas vezes ao meu terapeuta que não devia estar ali a lamentar-me, que até parecia mal, o que estaria ele a pensar de mim, tanta gente com problemas a sério e eu, tão privilegiada, ali com mariquices. Dele obtive sempre a mesma resposta: "Os nossos problemas nunca são menores. São os nossos. E se nos fazem sentir mal, têm de ser tidos em conta, têm de ser conversados, para poderem ser ultrapassados." Foi então que comecei a ver as coisas por outro prisma. Cada um tem as suas dores, e isto não é uma competição. Há quem passe por momentos dilacerantes com uma perna às costas (pelo menos aparentemente) e há quem passe por momentos comparativamente menos violentos com uma dificuldade dos diabos. Se uns são fortes e outros fracos? Não creio. Uns têm ferramentas para lidar com as crises, outros não terão. Uns terão tido uma determinada educação, outros outra. Uns aguentam-se bem mas podem soçobrar mais à frente. Uns extravasam mais, outros menos.

Com a pandemia, tenho lido barbaridades que me doem, enquanto ser humano. Quando uma pessoa porventura se lastima por estar fechada em casa, logo vem alguém parecido comigo na adolescência: "Só lhe é pedido que esteja em casa e está nesse estado? Que gente! O que dirão os profissionais de saúde, horas infindas nos hospitais, a salvarem vidas, correndo eles mesmo risco de vida, sem poderem voltar a casa para não infectarem a família! Que dirão os doentes, entubados, a lutar pela sobrevivência? Tenha juízo!" 

Esta falta de empatia para com o outro seria admissível numa adolescente, a tentar fazer o melhor pela sua amiga com dramas existenciais. Mas em adultos é pungente. O que é que esta pessoa, que critica assim quem desabafou, sabe sobre a sua vida, sobre as suas circunstâncias? 

Este é o princípio da desvalorização da saúde mental. Nos dias que correm, as pessoas que não estão bem nem se sentem no direito de o expressar o que sentem. E, de silêncio em silêncio, vão deixando o monstro da depressão crescer descontroladamente dentro delas, esperando que passe, porque é uma vergonha sentirem o que sentem quando há gente tão pior. 

Haverá sempre gente pior. Há pessoas a viver debaixo de explosões de morteiro no exacto momento em que escrevo este texto. Ainda assim, os nossos dramas são os nossos. Ninguém saberá nunca que estilhaços estão a deixar dentro de nós. Por isso, tenhamos todos um pouco mais de empatia. Se não temos nada para dizer, calemo-nos. Por vezes, basta escutar. 

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