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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Descontracção e estupidez natural

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O Manel está na sua viagem de finalistas e eu gosto de gozar com ele afirmando que deve voltar para casa carregadinho de bactérias, vírus e germes, só por se aproximar da piscina do hotel (porque me lembro das repetidas imagens de uma piscina em Marina d'Or - que nem sequer é onde ele está mas as imagens marcantes persistem nas nossas cabeças - onde os putos ficavam de molho a beber, a ouvir os concertos e muito possivelmente a urinar, vomitar e sabe Deus que outras coisas terminadas em "ar"). Gosto de nos imaginar a todos de máscara e luvas para o receber, limpando os lugares onde se sentar, simulando uma repulsa que obviamente não temos mas que faz parte do modo como somos uns para os outros. De resto, antes da partida começámos logo a gozar dizendo que íamos levá-lo ao autocarro e que íamos ficar a dizer adeus até que ele desaparecesse do horizonte, tal como fazíamos quando era pequeno e ia para a praia com a escola, aproveitando para gritar a plenos pulmões: "Levas o casaquinho??? Não te esqueças do chapelinho!!!!" E ríamos, ríamos, ríamos a imaginar a vergonha que seria se tivéssemos coragem para lhe fazer uma coisa daquelas.

E isto leva-me a outro ponto: o modo como somos pais e, como só quero falar por mim, o modo como sou mãe.

Às vezes noto, por parte de algumas mães, uma preocupação exacerbada com tudo ao que os filhos diz respeito. E isso confronta-me com a mãe descontraída que sou e que nem sei bem por que sou, e com a dúvida sobre se ser como sou será bom ou mau, se passarei uma ideia de desprendimento ou se, ao contrário, uma ideia de confiança.

A minha mãe era a antítese da descontracção. Tudo era um drama (mãezinha, eu percebo as tuas razões, não é um ataque, é apenas a constatação de um facto), tudo era vivido como se fosse uma afronta à hierarquia, um risco de vida, um perigo de morte. Lembro-me de ficar muitas noites na varanda do meu quarto, a olhar para o meu grupo de amigos que conversava e tocava guitarra na esplanada do café em frente (fechado à noite mas que tinha uma cobertura que lhes servia de abrigo), e com um enorme ponto de interrogação na cabeça que não me deixava perceber qual era o mal de estar ali, ainda para mais ao alcance do seu olhar controlador de mãe. Mas a minha mãe sentia-se muito sozinha na minha educação e via, de facto, perigos em todo o lado. Para ela, os meus amigos deviam fumar coisas esquisitas e passar muito tempo com eles não podia fazer-me bem. Foi preciso muitas lutas e zangas e confrontos violentos para que ela começasse a soltar mais a rédea. Mas imagino o quanto sofreria de cada vez que o fazia, e o medo que tinha de contrariar.

Não sei como fiquei como fiquei mas até ver não sofro com quase nada. O Manel também me saiu particularmente atinado (às vezes, meio a sério meio a brincar, digo que é mais provável que eu entre em casa com uma piela do que ele), mas acho que tendo naturalmente para a descontracção e para um "logo se vê no que é que isto vai dar" que é totalmente contrário ao que foi feito comigo.

Começa logo nas doenças. Se eu tinha uma febre ou uma dor de cabeça, era ver a minha santa mãe a obrigar-me a levar o queixo ao peito, testando as minhas meninges e supondo logo o pior cenário. Ainda há dois ou três dias (para não ser preciso ir mais longe) tornou a acontecer: a Madalena queixava-se de dores de barriga, numa festa familiar. Eu disse para ela esfregar a barriga e não dei mais importância ao assunto (terei talvez dito qualquer coisa como "se não tivesses enchido a pança de doces nada disso acontecia"), mas não tardou muito até escutar a minha mãe proferir aquilo que eu já adivinhava, ou não a conhecesse há 4 décadas e meia: "Vocês vejam lá, estejam atentos, não vá ser uma apendicite".

Não deixa de ser curioso como é que uma confessa hipocondríaca como eu tem tamanha descontracção com os filhos. Mas a verdade é que - e já o disse algumas vezes - a minha hipocrondria cinge-se a mim. No que toca aos meus filhos - não sei se por instinto de sobrevivência (imaginem o que seria ser hipocondríaca com 4 filhos!) ou por estupidez natural - tendo a desvalorizar e a acreditar que "não há-de ser nada".

Voltando aos mais crescidos, nomeadamente ao Manel... não me enerva nada que saia à noite, que chegue tarde, não fico acordada até ele chegar (em bom rigor durmo como uma pedra e só quando vou à casa de banho é que aproveito para ir ver se já chegou), não imagino o pior, o mesmo é dizer que não imagino nada. Se ele vai beber? É possível. Eu bebi, muitos jovens bebem. Desde que não seja em excesso não vejo drama. São as experiências normais. Mas mesmo que haja uma ou outra ocasião em que aquilo resvale... epá... quem nunca pecou que atire a primeira pedra. Eu seguramente que não as vou atirar! Quando começou a namorar não me inquietei, não fiquei com a nervoseira ou irritação que vejo algumas mães confessarem, apenas conversei com ele sobre a vida, o amor, o respeito e os cuidados que são precisos pelo caminho. O resto? O resto é com ele. E com a vida. E com a sorte (o único momento desta viagem que me deixou com um friozinho no estômago foi a viagem de autocarro por saber que o factor sorte, numa viagem de 6 horas com um motorista de quem não sei rigorosamente nada, não é despiciendo).

Se isto é a melhor forma de actuar, de ser? Não faço ideia. Até pode acontecer que seja assim com o Manel e depois seja diferente com algum dos outros (mas não me venham com a conversa de que com a Madalena serei seguramente diferente "por ser menina" que fico já com os cabelos em pé). Posso ser diferente com algum dos outros se algum dos outros não fizer por merecer a minha confiança e descontracção. É possível que aperte o cerco e puxe a rédea a quem não cumprir os mínimos olímpicos. É possível. Sempre gostei da ideia da "liberdade com responsabilidade". Acho que é, sem dúvida, a forma mais acertada de agir, a que provoca mais felicidade, a que causa menos conflito. Impedir, proibir, dificultar, criar problemas... não é definitivamente a minha cena. Sou muito mais pelo sim do que pelo não. Assim eles saibam fazer por merecer os meus sins. E todos seremos muito mais felizes.

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