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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Dá voz à tua enxaqueca

A minha boadrasta, que conheci com 6 anos (eu, naturalmente; ela tinha 25) foi a pessoa que mais vi sofrer com enxaqueca, quando eu não só não sabia que era uma doença, como nem nunca sequer tinha ouvido a palavra. Enxaqueca. Que raio de vocábulo que até dava para rir, por fazer lembrar cueca. 

Em breve percebi que não havia nada para rir. A minha boadrasta, que era tão alegre e querida, fechava-se no quarto escuro, dias a fio, com um lenço enrolado na cabeça, a fazer tanta força que eu achava que a cabeça dela ia explodir. De vez em quando, era vê-la correr para vomitar, e depois voltar para a cama sem conseguir abrir os olhos ou proferir uma palavra. Não se podia fazer barulho em casa. Um alfinete a cair era uma agressão. Fiz-lhe muitas massagens, que ela agradecia, mas que pouco ajudavam. Assisti, com espanto, àquela dor que limitava, que esmagava, que fazia desaparecer a minha companheira de fim-de-semana, e de férias, para um buraco negro de onde demorava a sair. Nunca se sabia quando voltava. Mas quando voltava, arrasava todos os planos.

Entretanto, cresci e herdei uma pequeníssima parte disto. Ela tinha todos os meses, com a menstruação, e em outros dias extra (que atribuía ao queijo que tinha comido, ao vinho que tinha bebido, ao stress que tinha tido, e outras vezes a nada em particular). 

A enxaqueca é uma doença. Muitos ainda não o sabem, mas é e, neste momento, é uma das prioridades da Organização Mundial de Saúde. A enxaqueca não só é uma doença, como é a 3ª doença mais frequente em todo o mundo e a 2ª causa de maior morbilidade nas mulheres em Portugal, a 5ª nos homens. O impacto sobre a qualidade de vida de todas estas pessoas - tantas! - é absolutamente esmagador. E o impacto subsequente na sociedade é grandioso. Durante anos, demasiados anos, a enxaqueca foi desvalorizada, marginalizada e pouco percebida, mesmo pelos médicos, por se tratar, efetivamente, de uma doença neurológica complexa. Este desconhecimento trouxe ainda mais sofrimento a todos os doentes, não só porque os médicos não tinham uma resposta, como porque ninguém valorizava devidamente os seus sintomas.  "Ah, está com dores de cabeça e meteu baixa por causa disso! Eu também tenho dores de cabeça e venho trabalhar!" É fundamental explicar isto: ter enxaqueca não é ter "dores de cabeça". A enxaqueca tem um conjunto de sintomas absolutamente excruciantes, que impedem a vida profissional, social e pessoal, levando, muitas vezes, os doentes à depressão. Há uma grande percentagem de doentes com enxaqueca que sofrem também de quadros depressivos. 

A vida familiar de quem sofre de enxaqueca é afetada de formas que, quem não a tem, não pode imaginar. Imaginem uma mãe a querer cuidar dos seus filhos, a querer aproveitar o fim-de-semana para estar com eles, para brincar, e não ser capaz de sair do escuro, da cama, daquele buraco negro para onde se afunda sem conseguir sair. Imaginem uma mãe que tem planeado um fim-de-semana com o marido e os filhos num sítio qualquer, ou um jantar, ou umas mini-férias. Imaginem a ansiedade de pensar: "E se, logo nesse dia, estou com enxaqueca? E se eu estrago tudo outra vez?" Agora imaginem que sim, surge mais um episódio de enxaqueca logo nesse fim-de-semana, nessa noite, nesses dias. A culpa, a raiva, a tristeza, e muitas vezes a incompreensão são devastadoras. E digo uma mãe porque a doença é mais prevalente nas mulheres, mas também há homens que a têm, e esses têm outra questão para ultrapassar: como esta é uma patologia sobretudo atribuída às mulheres, eles sofrem muitas vezes em silêncio, procurando disfarçar profissional, social e familiarmente algo que é violento e indisfarçável. Ter enxaqueca é como ter uma bomba-relógio dentro da cabeça. Não dá para sorrir e acenar e continuar como se nada fosse. É preciso pedir ajuda, é preciso ter o diagnóstico certo, o acompanhamento certo, a medicação correta, o suporte familiar forte.

É ainda importante falar nas crianças, para que não sejam, também elas, incompreendidas e olhadas com desconfiança. Depois do diagnóstico, as escolas devem estar preparadas para saber lidar com estes miúdos, dando a devida relevância às suas queixas. Quantos miúdos com enxaqueca já terão sido negligenciados, por se pensar tratar-se de preguiça ou engodo para fugir às obrigações escolares? É óbvio que há malandros para tudo, mas quando os sintomas são repetidos e consistentes... mais vale averiguar.

Está mesmo na hora de levar a enxaqueca a sério. Dá Voz à Tua Enxaqueca! Para mais informações e esclarecimentos, consultem o Facebook e Instagram do Dá Voz à tua Enxaqueca e partilhem a vossa experiência.

Post em Colaboração com Dá Voz à Tua Enxaqueca.

 

 

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