D. Emília
Depois de um fim-de-semana com jantares com amigos e crianças a dormirem cá em casa(mais duas, além das nossas, ou seja cinco) já previa que a D. Emília hoje, quando chegasse, se pusesse a bufar e a bater com as coisas. Por isso, antes de sair para almoçar ainda dei um jeito à loiça e tirei umas coisas das cadeiras, para isto não estar tão caótico. Mas, ainda assim, acabo de chegar do meu almoço queriducho e ei-la a espancar os meus móveis com a esfregona, ao mesmo tempo que suspira profunda e sonoramente.
Eu gosto muito dela mas há dias em que não é fácil, a nossa convivência. Por isso, hoje o melhor é não lhe dirigir a palavra, senão ainda me sai uma inconveniência como «também tenho dias lixados, calha a todos», ou coisa assim, e ela é bem capaz de retorquir «chiça mas isto é demais, vocês são uma cambada de índios e eu não sou cowboy mas tenho pena», ou coisa assim. Por isso, vou continuar a ouvi-la a arrastar candeeiros e mesas, riscando o chão e soprando como se estivesse em trabalho de parto. Vou continuar a ouvir tudo, encolhida e caladinha, e a fingir que não é nada comigo.
Eu gosto muito dela mas há dias em que não é fácil, a nossa convivência. Por isso, hoje o melhor é não lhe dirigir a palavra, senão ainda me sai uma inconveniência como «também tenho dias lixados, calha a todos», ou coisa assim, e ela é bem capaz de retorquir «chiça mas isto é demais, vocês são uma cambada de índios e eu não sou cowboy mas tenho pena», ou coisa assim. Por isso, vou continuar a ouvi-la a arrastar candeeiros e mesas, riscando o chão e soprando como se estivesse em trabalho de parto. Vou continuar a ouvir tudo, encolhida e caladinha, e a fingir que não é nada comigo.

sonia.morais.santos@gmail.com