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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Conta-me #16

Estava com as minhas amigas. Tínhamos bebido e feito brindes e dito as parvoíces que dizemos quando estávamos juntas. Tínhamos rido muito. Lembro-me de ter comentado que me doía a barriga de tanto rir. E doía mesmo, não era uma daquelas coisas que se dizem. Elas faziam-me bem, as minhas amigas. Incomoda-me o facto de não ter sentido nada. Devia ter sentido, não é? Quer dizer, já li e vi documentários e filmes em que as mães sentem sempre alguma coisa. Naquele momento, como se houvesse alguma coisa dentro de nós que se apagasse, que se desfizesse, que implodisse para sempre. Mas não. Não senti nada, absolutamente nada, e estava feliz, estava mesmo tão feliz. Às vezes os encontros com estas minhas amigas corriam menos bem, fosse porque uma de nós desabafava sobre um tema mais sensível, fosse porque duas começavam a discutir e ficava um clima mais tenso no ar... sabe como são as mulheres. Sempre poderosamente intrincadas, como os manguezais. Penso sempre nos manguezais quando penso nas mulheres juntas - árvores fortes e com raízes complexas, que se embrulham umas nas outras para o melhor e para o pior. Pois, mas isto para dizer que nem sempre corriam bem, os nossos encontros, mas naquele dia foi mesmo bom, foi divertido, foi louco, foi puro. E não senti nada, só alegria e leveza. E durante muito tempo senti-me culpada por isso - como podia estar alegre e leve e a rir agarrada à barriga ao mesmo tempo que a minha vida estava a terminar? Será que foi no preciso instante em que bati com o meu copo no copo delas? Será que foi quando atirei a cabeça para trás com uma gargalhada mais forte? Como é que eu não senti, como? Como é que não tive uma dor, um calafrio, um pressentimento? Fartei-me de vasculhar a memória, depois, à procura desse momento que me pudesse ter passado despercebido. Mas não. Simplesmente não aconteceu. E durante muito tempo senti que era menos boa mãe por causa disso.

Quando o telefone tocou, atendi a rir. O meu "tô" ainda meio gargalhante, sem fazer ideia do que me aguardava do outro lado. E foi então que ouvi o meu nome, ou melhor, o nome pelo qual nós, as mães, respondemos também, muitas vezes ainda com mais alegria do que quando nos tratam mesmo pelo nosso nome. "É a mãe do Pedro?" Sou, balbuciei. Era. E depois não me recordo bem da frase, nem sequer das palavras, mas disseram "acidente", e disseram "hospital", e foi a passagem mais abrupta que possa imaginar de um estado para outro estado. Levantei-me, perdida, peguei nas coisas, nem sei o que disse às minhas amigas, sei que nos levantámos todas, nem sei quem pagou a conta, nem sei em que carro fui, não me lembro. Por acaso sei, porque entretanto já me contaram, porque entretanto já pus estas mesmas questões a quem lá estava comigo, e foi-me descrito passo por passo como tudo se passou, mas na altura não sei como fui, não sei o que disse, não sei o que fiz. Estava cega, estava surda, estava louca. Entrei pelo hospital como um animal, sabe? Parecia uma fera ferida. Muito mais tarde havia de me olhar no espelho da casa de banho  e... a minha figura, meu Deus! O rímel desenhado pela cara, o cabelo desgrenhado, os olhos inchados, o nariz. Toda eu deformada de dor. Desfeita por dentro e por fora. Não fazia ideia de que o sofrimento podia fazer-nos isto, não fazia ideia. Mas, claro, faz sentido. Quando nos desfazemos por dentro não é possível ficarmos intactos por fora. Não lavei a cara, não tentei apagar nada. Saí igual da casa de banho. Queria lá saber. 

Cheguei ao hospital, dizia, - nem me lembro de sair do carro, de fechar a porta, de entrar - e perguntei por ele, perguntei onde estaria, levaram-me, um médico apareceu e bastou o olhar dele para eu saber. Falou comigo mas não o ouvi, ou se o ouvi não sei, senti que as paredes se estreitavam, que o teto não parava de encolher, que as luzes rodopiavam, que tudo girava a alta velocidade, e eu encolhi-me no chão, fiz-me um novelo, fiquei do tamanho de uma criança pequena. Gritei, chamei-o pelo nome, Pedro, Pedro, Pedro. Senti que as entranhas se rasgavam, ou pelo menos desejava que se rasgassem, quis morrer ali, ali mesmo no chão frio daquele corredor com cheiro a éter. Em atropelo, pensamentos: como? Como é que vou viver depois disto, como? O meu Pedro, o meu filho, o meu único filho, como? Depois, como se tivesse despertado de um pesadelo terrífico, levantei-me e quis vê-lo, Quero vê-lo, Onde é que ele está? Onde? Pedro! Levaram-me ou cheguei sozinha ou não sei. O meu Pedro. Abracei aquele corpo que era meu, que saiu de mim, que era do mundo, beijei-lhe os cabelos, deitei-me ao seu lado, e odiei-me, a culpa era minha, eu não devia ter deixado, nunca devia tê-lo deixado comprar a mota, mesmo com o dinheiro dele, eu era a mãe, eu era a mãe e as mães não deixam, não podem deixar que os filhos morram, é obrigação das mães proteger os filhos do mal e eu não o fiz, eu deixei o meu filho correr perigo, eu deixei o meu filho morrer, eu deixei o meu filho ir. 

A minha vida terminou naquele dia. Não é exagero, não é recurso expressivo. Eu morri com ele, eu morri com o Pedro, apesar de estar aqui, apesar de me estar a ver, apesar de estar a falar consigo. Estou aqui mas não estou, é só o meu corpo que está, o meu corpo inútil porque me dói tanto que não me permite mais do que acordar, sobreviver, e dormir à razão de comprimidos. O resto, aquilo que tinha cá dentro, isso já não está. Acabou. Não há mãe que não morra quando um filho morre. Haverá talvez as que conseguem continuar a existir, mas o buraco dentro do peito é incomensurável, e toda a gente sabe que não é possível viver com um buraco imenso no peito. Sinto-me só mas não procuro companhia. Sinto saudades da minha vida mas não me esforço para a retomar. Sei que as pessoas se afastaram de mim mas não tento aproximar-me. Quero que me esqueçam, apesar de lastimar que me tenham esquecido. Compreendo-as. Eu represento aquilo que não querem ver, aquilo que não podem imaginar, aquilo que não suportam sequer supor. Eu sou a triste, a vazia, a morta. Ninguém quer conviver com uma morta. Nem eu quero conviver com esta morta que eu sou. Nem sequer eu. 

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(Conta-me é uma rubrica do blogue com contos inéditos escritos pela autora)

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