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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Conta-me #15

Lembram-se do conto em que duas amigas falavam ao telefone? Sobre a impotência do marido de uma delas? Está AQUI.

Este é o outro lado da história. 

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- Andas muito calado... Está tudo bem?

- Tudo. - e, de um só trago, engoliu a cerveja que tinha acabado de chegar à mesa.

- Hummm. Não me estás a convencer. Passa-se alguma coisa? A Ana? Os miúdos?

- Todos bem. Quer dizer... foda-se, não é fácil falar disto. Nem sei bem por onde começar. 

- Ah, logo vi! É que só podia, meu, estás estranhíssimo! Conhecemo-nos quê? Há 30 anos? Ainda tens temas difíceis para falar comigo?

- Este é difícil, acredita. - respirou fundo como que para atirar a frase no meio do ar expirado - Acho que estou impotente. Pronto. É isso.

- Uiiii. Isso é... isso é realmente fodido. Estás nada impotente! Estás? Epá, tipo... tens a certeza? Isto é... que estupidez, claro que tens a certeza. Mas, digo: isso dura há muito tempo? Lá porque um tipo não levanta uma vez não quer logo dizer que esteja morto! Não estarás a exagerar?

- Não, Zé. Não estou. Já lá vão seis meses.

- Fuck! Seis meses? Não mandas uma há seis meses??? 

- Não estás a ajudar, Zé.

- Ai desculpa, foda-se, desculpa. E a Ana? Uiii... faço ideia, já a fazer uma série de filmes. Espera lá. Tu não... tu...

- Se tenho outra? Não. Nada. Achas? Tu sabes como eu gosto da Ana.

- Sei, claro que sei. Mas isto às vezes, sei lá. E há por aí muita gaja que consegue fazer a cabeça de um gajo. Literalmente. Ah ah ah. Desculpa. Não é momento para piadas.

- (sorrindo) Enfim, olha, é isto. Já não sei o que faça à puta da minha vida. Já pensei tomar Viagra mas quer dizer, se nem tenho 40 anos e já me meto nessas merdas, aos 50 já não deve haver comprimido azul que me valha. 

- Mas espera lá. Espera lá. Há alguma razão... sei lá, emocional que possa ter provocado isto? Ou seja: se não formos já pelo problema fisiológico, por teres isso avariado, achas que pode haver algum factor emocional por detrás? Quer dizer, a empresa, o teu pai... não está propriamente fácil.

- Pá, são merdas na minha vida, sem dúvida. Mas daí até perder a tesão? Não. Não me parece. 

- Não há mais nada? Um gajo às vezes encuca com coisas e nem se apercebe, meu. 

- Não. Acho que não.

- E a Ana? Como é que ela está a passar por isto?

- Oh, como é que achas que está? Na merda, claro. Acha que já não gosto dela, acha que é por estar gorda, acha que tenho outra... no outro dia apanhei-a a ver o meu telemóvel. Se fosse noutra altura tinha-me passado com ela, mas agora... não a posso censurar. O clima entre nós está péssimo, mal consigo olhar para ela, e depois na hora de irmos para a cama, foda-se, é uma tensão que nem te passa. Esta merda até podia funcionar mas com os nervos com que eu já vou é um milagre ter ponta.

- Foda-se... isso é um pesadelo.

- Ya. E eu que no ano passado a tinha ouvido a falar com a Sofia, a dizer que queria ter mais um filho. Imagino como é que ela está. 

- Mais um filho? Tás a gozar. Vocês têm três filhos, tu andas arrasado, sempre a queixarem-se de massas. Mais um filho como, meu?

- Cenas da Ana. 

- Mas tu queres ter mais um filho?

- Não!

- E disseste-lhe?

- Na altura disse-lhe que era uma loucura, que já era uma loucura termos três, que estávamos numa situação fodida com a empresa e o meu pai, os meus irmãos... mas tu sabes como é a Ana. E eu percebi que ela tinha sempre vontade de pinar ali numa altura do mês e depois lhe passava num instante. Bom, isto, claro, antes de me acontecer o que me aconteceu.  

- Pedro. Acho que acabei de desvendar o enigma.

- Vai-te foder, Zé. Isto não é uma das tuas charadas.

- Estou a falar a sério! Ouve: tu ouviste a Ana falar de querer ter mais filhos, chegaram a falar os dois sobre o assunto, tu topaste que ela estava a apontar para os dias certos do mês para te entalar, sim porque tu disseste que não querias ter mais filhos! O teu problema é esse!!!! Tu não consegues ter tesão porque estás à brocha! Não é consciente mas quando chega a hora da verdade deves começar a ouvir um puto aos berros e fraldas e leite e o caralho. Já pensaste nisso?

- Achas? Nah... isso é muito rebuscado.

- Qual rebuscado, caralho! É isso, de certeza, Pedro. 

- Epá, eu confesso que a ideia de ter mais filhos me deixa completamente fora de mim. Aliás, até cheguei a... tu sabes, tirar antes, para não acontecer.

- Aí tens! O teu problema chama-se fi-lhos! Se tirares o bebé da equação... voltas a ter tesão. Foda-se, sou um poeta.

- És é um pateta, caralho. Então e agora?

- Agora vais para casa e tens uma conversa com ela. Ou isso ou metes um preservativo. Ah ah ah! A sério. Vai por mim. Acho que acabei de te salvar. Paga aí mais uma imperial aqui ao psicólogo de serviço, anda!

- Chefe! São mais duas, se faz favor! Espero que tenhas razão, Zé. Espero mesmo que tenhas razão. 

- Ainda me hás-de dizer uma vez que eu não tenha tido razão. À nossa!

- À nossa.

 

*Conta-me é uma rubrica do blogue Cocó na Fralda com contos escritos pela autora (podem ver todos na pasta na parte superior do blogue, que diz "Conta-me")

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