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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Conta-me #12

- Tô?

- Alô...

- Alô... que voz é essa?

- Oh.

- Então? Estás a assustar-me. Alguma coisa grave?

- Não... o costume.

- Ah... sério? Outra vez?

- Yep.

- Oh, merda. Como é que estás?

- Mal. 

- Oh, querida... eu continuo a achar que é uma fase... que é stress. Que não tem nada a ver contigo, convosco.

- (soluços)

- Ooooh, não chores... a sério. Já viste bem o stress em que ele anda? Com aquilo da empresa, a história toda do pai, os irmãos... não é fácil. 

- Eu sei.

- Tu sabes mas continuas a inventar outras razões.

- Não é isso, Sofia... não é inventar. Sei lá. E se existem mesmo outras razões? E se estamos a tapar o sol com a peneira? E se simplesmente já não sente desejo, e se já não me vê desse modo?

- Ana. Ana. Tu acreditas mesmo nisso? Assim, de um momento para o outro?

- Não é bem de um momento para o outro! Já lá vão 6 meses disto!

- Seis meses? Já? 

- Já! Vês?

- Calma. Mas nestes seis meses nunca...

- Nunca! Ele simplesmente não consegue. Até começamos bem mas depois... puff. Achas mesmo que pode ser só stress? Não pode, Sofia. Ele tem outra pessoa, de certeza.

- Lá estás tu. Já falámos sobre isto. Já te perguntei isto. Há mais algum indício, sem ser esta... esta incapacidade dele... há mais algum indício de que possa ter outra pessoa? Viste o telemóvel dele?

- Oh. Tu sabes que eu não faria isso. Mas a verdade...

- A verdade?

- A verdade é que até já isso me passou pela cabeça. Vasculhar as coisas dele para descobrir quem será a puta.

- Ana. Não há ninguém. Sou menina para apostar. 

- Cuidado com o que apostares...

- Vá, talvez não aposte nenhum órgão, nenhum membro... 

- (risos)

- Mas aposto... 100€.

- Ah ah ah. Cem euros? Epá, até percebo que não queiras apostar um rim, mas... cem euros também me parece pouca confiança! 

- (gargalhadas) Pronto, 500€, vá! Filhinha, a vida não está fácil. Sabes como é que isto anda.

- Pois é, desculpa. Com isto tudo nem te perguntei como é que estás, como é que estão as coisas?

- Esquece. Não vamos falar nisso, que na merda já tu estás.

- Está assim tão mau?

- Pfff... esta semana, se entraram três pessoas na loja foi muito.

- E compraram alguma coisa, ao menos?

- Nada. Reviraram isto tudo, vestem, despem... e adeuzinho, muito boa tarde.

- Que cena. Isso deve dar cabo da cabeça, estar aí o dia inteiro e não entrar ninguém.

- Cala-te, mulher. É de cortar os pulsos. Vá, mas isso agora não interessa. Estávamos a falar de ti.

- De mim, não. Da pila do meu marido que está morta. Bom, pelo menos para mim.

- E lá vem ela outra vez! Está adormecida, não há-de estar morta! E não é só para ti.

- Achas que também fica mole com a outra?

- Aaaaaaaai! Chata mais a outra! Qual outra??? Olha, tu sabes que eu tenho um sexto sentido para estas coisas e não acredito mesmo que o Pedro tenha outra. Coitadinho... olha que ele também se deve sentir muito mal. Como é que ele fica, quando aquilo não... coiso?

- Fica mal. A suar e não sei quê. Diz que fica nervoso e que quanto mais vezes falha mais nervoso fica. E desta última vez, que foi ontem, até chorou.

- Ai, pá, que horror. Já viste?

- E eu? Já imaginaste? Eu ali toda armada em sensualona, a fazer carinhas e gemidos e a subir e a descer... ontem, vesti um kit todo sexy, um mesmo de porquita que ele gosta imenso, ou gostava, já nem sei, e nada! Nada! E eu ali às voltas e a pensar: "não te enerves, Ana, não desistas, faz de conta que és uma terapeuta, uma médica, qualquer coisa, estás a tentar ajudá-lo, concentra-te, ele vai chegar lá, ele vai conseguir, macacos te mordam, Ana Maria, se ele não vai conseguir!" E... não conseguiu!!!! E eu vestida de puta, ali deitada ao lado dele, a sentir-me ridícula naquela roupa, completamente humilhada, sem pinga de sensualidade, sem pinga de decência, a puxar os cobertores para ele não me ver mais naquela figura (ou para eu própria não me ver mais naquela figura). Opá... ninguém merece. (choro) Não desejo isto ao meu pior inimigo, Sof! Ao meu pior inimigo!

- Ai, mulher, realmente. (silêncio) Que cena... E irem ao médico? Já lhe falaste nisso?

- Eu não! É como te digo: tenho para mim que o problema sou eu. Se não fosse - olha que agora é que lembraste bem! - tu não achas que se não fosse eu o problema ele não era o primeiro a dizer que tinha de ir ao médico? Mas não... ele não diz nada. Diz que está cansado, que está nervoso. Está bem, abelha. Não sei quanto tempo mais vou conseguir aguentar isto, Sofia. Juro que não sei. (soluços)

- Oh, querida... vou ter contigo. Pode ser? Fecho a loja - assim como assim também ninguém aparece - e vou já para aí. Hoje é dia do turno dele, não é?

- (fungando) É. 

- Pronto. Levo o jantar e ficamos aí as duas, a conversar. Vamos pensar numa maneira de dar a volta a isto. Não gosto nada de te sentir assim, tão triste. Já aí passo, ok?

- Ok.

- Vá, beijinho. Até já.

- Até já. Obrigada.

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*Conta-me é uma rubrica do blogue Cocó na Fralda com contos escritos pela autora (podem ver todos na pasta na parte superior do blogue, que diz "Conta-me")

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