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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Conta-me #10

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Claro que as pessoas percebem. As pessoas não são burras. Percebem. Olham. Suspiram. Miram-no com ódio, como se ele fosse um monstro. Mas não é. Coitado. Não é. Ele é um desgraçado, sabe? É uma alma atormentada. Mas enfim. Eu também passo os meus maus bocados. Esta? Esta aqui foi há umas duas noites. Não. Que dia é hoje? Ah, pois, não. Lembro-me que foi na véspera de ir ao médico dos olhos, por isso foi quinta-feira passada. Bom, para o caso é igual, é só mais uma igual a tantas outras. Estávamos a dormir, eram umas duas e picos da manhã, quando acordei com as mãos dele no meu pescoço. Percebi logo que era mais um daqueles sonhos. Gritei, tentei chamá-lo à razão, Vítor!, e ele apertava, Vítor, e ele cada vez com mais força, Vìtor! Foi então que me deu um soco. Foi o que me valeu. Ao levantar a mão para me bater libertou-me o pescoço e, depois de apanhar na cara com toda a força, levantei-me e fugi para a casa de banho. Isto parece um filme, não é? Parece, parece. Mas olhe, é o filme da minha vida. O problema dele são os pesadelos. Quer dizer, não são só os pesadelos, são também aquelas crises que acontecem assim de repente. No outro dia - lembra-me como se fosse hoje - um carro deu uma aceleração mais funda, e aquilo devia ser um carrão porque deu cá um estrondo... Vim a correr da cozinha já a imaginar tudo. Lá estava ele deitado no chão, com as mãos na cabeça, num sofrimento que não lhe passa pela cabeça. Ninguém sabe... ninguém sonha. Por isso é que eu digo: o meu homem não é má gente... ele veio de lá outro. Deram cabo dele. E não há ninguém que se responsabilize, não há nada que pague isto de me terem mandado um homem que não é o meu. Calado, sempre calado, triste, sempre triste, assustado, sempre assustado. A médica de família mandou-o para um psicólogo. Ele encolheu os ombros, qual quê, psicólogo, eu cá não sou maluco. Sabe como são os homens. Desculpe, também é homem... mas são casmurros, acham que conseguem resolver tudo. É uma questão de macheza. São machos e não podem dar parte de fracos. Mas eu tanto andei, tanto andei, Vítor, tu não és maluco mas passaste por muito, ninguém passa por uma guerra e volta o mesmo, vai falar, vai desabafar, que eu não aguento mais. Acho que se assustou. Foi. Quando voltou não disse uma palavra. Então, Vítor? Ele, nada. Fui eu falar com o psicólogo. Diz que ele tem stress pó-tramático ou trómatico ou lá o que é. Isso, stress pós-traumático, é isso mesmo! E que precisava de ser acompanhado e que o ideal até eram umas reuniões com outros ex-combatentes. Fui à associação, havia reuniões às quartas, voltei a falar-lhe. Fechou-me a porta na cara. Que era o que faltava, que isso já foi há tantos anos, que ia agora falar com gente que não conhece de lado nenhum, para dizer o quê? Vítor, para dizeres que não podes ouvir uma mota, um prato a cair, uma trovoada, uma porta a bater, Vítor. Para dizeres que acordas de noite aos gritos, a chorar, a falar em estilhaços e em mortos e a querer matar o inimigo. Para dizeres, Vítor, que eu sou o teu inimigo, quando dormes, que me atacas sem querer mas atacas, que um dia destes me matas a achar que eu sou um dos pretos, Vítor. Não sei quanto mais tempo aguentarei isto. Já lá vão anos. Anos. Anos disto. Estou saturada. Tenho medo de dormir. Chego a ter medo de entrar em casa, sei lá se não está num daqueles momentos em que parece que cega, o olhar fica gazeado, sei lá se não pega numa faca e não me corta a garganta. Eu sei lá. O que eu sei é que me deram conta do homem, que ele era alegre, conversador, brincalhão, e que veio de lá outro, mudo e quedo, metido com ele e com seus os pensamentos, os horrores que terá visto, as mortes, a gente que teve de matar. O que eu sei é que este não foi o homem com quem casei. Mas vou fazer o quê, agora? Separar-me? Abandoná-lo? Eu gosto dele. Tenho pena dele. Dó, sabe? Tenho dó. O meu Vítor não é mau homem. Não é um monstro. Coitado. Não. Ele é um desgraçado. Ele e eu. Duas almas penadas que vivem nesta casa, ensombradas pelos espíritos que vieram com ele da guerra e nunca mais nos largaram.

 

*Conta-me é uma rubrica de contos originais (ficcção) escritos por Sónia Morais Santos

 

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