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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Como alertar os nossos filhos sem, no entanto, os tornar descrentes na Humanidade?

No outro dia a CPCJ foi à escola da minha filha Madalena alertar para a violência na infância. A actividade era livre, só ia quem queria, e eu achei que era importante ela ir. 

Quando voltou a casa, perguntei como tinha sido, o que tinha aprendido, que coisas gostaria de destacar. E foi então que ela me explicou que "não podemos confiar em ninguém a não ser nos nossos pais". Que "mesmo os nossos familiares próximos podem querer fazer-nos mal" e que temos de estar muito atentos e não dar confianças. "Por exemplo, imagina que o senhor da papelaria ou da mercearia, que nós já conhecemos há muitos anos, nos diz para irmos lá a casa, ou lá dentro da loja, que tem lá um passarinho muito giro para nós vermos! Não podemos ir nunca! Ele pode querer fazer-nos mal." E depois, concluiu com uma verdade que é sempre arrepiante: "Sabes que a maior parte dos casos de violência sobre as crianças é feita por alguém muito próximo. Alguém que a criança conhece muito bem. Um familiar, um amigo."

Estava a lavar-lhe o cabelo e não consegui deixar de sentir um aperto na garganta.

É claro que é muito importante deixar o alerta nas crianças para que não vão a parte alguma com estranhos, para que não confiem num adulto só porque ele é adulto, para que não pensem que "os maus" têm uma verruga no nariz adunco e uma gargalhada maléfica. Há "maus" em todo o lado, e sim, podem mesmo ser nossos conhecidos de sempre. Mas... qual a fronteira a estabelecer para que não criemos crianças assustadas, aterrorizadas, incapazes de confiar em quem quer que seja? Como passar esta mensagem sem que fiquem eternamente a olhar por cima do ombro, à espera que ao primeiro deslize o senhor da mercearia os leve para lhes fazer mal? Ou o primo que conhecem desde que nasceram? Ou o pai da amiguinha? Ou o avô?

Não sei propriamente a resposta mas fiquei muito inquieta com isto. Não devia ser preciso ter estas conversas com os nossos filhos. Não devia ser preciso pô-los, tão cedo, de sobreaviso em relação às pessoas. A todas as pessoas. É muito triste que assim seja. Muito triste mesmo.

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