Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Clubes de Leitura de Lisboa e Porto: Crime e Castigo de Dostoiévski e outras obras

Quer em Lisboa, quer no Porto houve um sentimento generalizado de uma certa estranheza em relação ao clássico "Crime e Castigo", de Fiodor Dostoiévski. A esmagadora maioria não leu, deixou a meio, desistiu, revirou os olhos. Nos dois grupos de Muitos confessaram que só terminaram por se terem comprometido no Clube, mas que se não fosse isso não lhe teriam dado uma segunda oportunidade.

No Porto já não me lembro bem se houve alguém que tenha gostado mesmo muito (não sei dos apontamentos, raios partam!) mas em Lisboa houve, a Beatriz Palhais. O que mais a impressionou foi o modo como o autor nos arrasta para a confusão mental do protagonista, o delírio, as suas decisões que oscilam a cada instante, a instabilidade sufocante que nos contagia. Ela tem razão. Dostoiévski consegue fazer um verdadeiro ensaio sobre a psicologia humana, levando-nos a cogitar sobre as questões morais, éticas, sobre a culpa, sobre o facto de Raskolnikov defender que o assassinato de uma pessoa reles pode ser moralmente acertado se o objetivo for nobre. Por outro lado, o que se demonstra é que, talvez se estivesse isolado do mundo, o protagonista conseguisse refugiar-se no seu pressuposto moral de ter liquidado alguém que não andava cá a fazer nada. O "pior" é que vive em sociedade, uma sociedade que julga, que recrimina. E é pelo julgamento alheio que Raskolnikov mais teme, não tanto pelo seu próprio.

Entretanto, no Porto, já houve novo encontro, desta vez para analisar vários livros, já que a leitura era livre.

IMG_3646.jpg

- "Não se Encontra o Que se Procura", Miguel Sousa Tavares. A Conceição garante que é um excelente livro para se mudar a opinião sobre Miguel Sousa Tavares, caso a opinião não seja muito boa. "Eu sempre o achei um arrogante e ao ler este livro passei a gostar dele. Há aqui o mostrar de um outro lado, de que gostei."

- "O Estrangeiro", Albert Camus - Já foi uma das leituras "obrigatórias" do clube de leitura de lisboa e dividiu a audiência. Eu adorei, mas houve muita gente que não gostou nada. A estranheza do protagonista, para quem tudo parecia rigorosamente indiferente mexeu muito comigo (positivamente), mas também mexeu com os nervos de muita gente. A Conceição gostou muito.

- "Ao Sol de Tânger", Christine Mangan - A história de duas amigas. Uma visita a outra, em Tânger, para onde foi viver. A visita é inesperada e traz consigo histórias do passado. E de repente tudo é enigma e dúvida e inquietação.

- "A Origem", Dan Brown - Perguntas e respostas fundamentais da existência humana, através da chave de sempre de Dan Brown: um professor de História que desvenda segredos obscuros para conseguir apurar a verdade sobre o passado e sobre o futuro da Humanidade.

- "Pequenos Fogos em Todo o Lado", Celeste Ng - Uma mulher chega com a sua filha adolescente a uma cidade perfeita, desenhada a régua e esquadro. Tudo ali bate certo, tudo tem regras, tudo funciona como um relógio suiço. Só que...  por vezes a ordem pode ser transtornada pela vida. E talvez a ordem não seja assim tão real. Um livro lindíssimo que nos fala sobre o julgamento da vida dos outros e sobre a justificação sobre aquilo que somos. A Cláudia adorou.

- "O Estranho Caso do Cão Morto", Mark Haddon - Chistopher Boone é o narrador deste magnífico romance, tem apenas 15 anos e sofre de autismo. O livro é impressionante porque é escrito como se fosse o olhar de um autista, com a sua visão directa, sem filtros ou nuances. Um assasinato despertá-lo-á para uma longa odisseia que o irá ajudar a descobrir qual o seu verdadeiro papel no mundo.

- "A Máquina do Tempo", H.G. Wells - Um cientista tem uma máquina que lhe permite viajar no tempo. No futuro, ele vislumbra uma trágica sociedade dividida em dois: os preguiçosos e pacíficos Eloi e os bárbaros e predadores Morlocks. Uma crítica social sobre as consequências do fosso crescente entre classes e para a exploração e miséria humanas. 

- "Lá, onde o Vento Chora", Delia Owens - Kya tem 6 anos quando vê a mãe sair de casa para não mais voltar. A menina cresce e aprende a viver sozinha, totalmente isolada. Quando o charmoso Chase Andrews aparece morto, todos os dedos apontam na direção de Kya, a miúda do pantanal. E o impensável acontece. A autora relembra-nos, neste romance de estreia, que somos formatados pelas crianças que fomos. 

- "A Luz da Guerra", Michael Ondaatje - A história começa no final da 2ª Guerra Mundial. Nathaniel, de 14 anos e a sua irmã mais velha, Rachel, são abandonados pelos pais que saem do país para ir trabalhar e os deixam à guarda do "Traça" e outros criminosos. A história trata o crescimento destes dois miúdos, os traumas e as misteriosas razões para terem partido. Que atroz realidade está Nathaniel para descobrir?

- "O Caminho Perfeito", José Luís Peixoto - Auto-biografia que viaja entre os relatos íntimos e uma viagem à Tailândia. O turismo e a viagem interior. A cultura, sociedade, história e as memórias pessoais. 

- "A Missão", Ferreira de Castro - Passa-se no sul de França, durante a ocupação alemã. Há dois edifícios iguais, um é uma fábrica, o outro é um edifício onde vivem missionários. Até que surge um dilema moral: devem pintar no telhado a palavra "missão" para escaparem ao bombardeamento? Se sim, é certo que a fábrica será bombardeada, com todas as mortes e destruição familiar inerentes. Mas se não pintarem a palavra, eles também poderão morrer, perdendo-se assim um capital de apoio aos desvalidos da guerra e de salvação das almas. O Paulo adjectivou este livro de notável e fascinante. Uma relíquia.

- "Mulheres que Correm com os Lobos", Clarissa Pinkola Estés - Existe no interior de cada mulher uma força poderosa. A autora pega em lendas, contos populares e histórias, e demonstra essa força, por vezes escondida, por vezes abafada pela sociedade. A Inês está a ler este livro, que lhe está a dar força para um momento muito particular da sua vida, que teve a generosidade de partilhar connosco. 

- "Deixa-me Mentir", Clare Mackintosh - O Diogo não adorou, o que me deixou a mim um pouco desiludida (se bem que vou ter de ler primeiro, para ver se concordo com ele). É que Clare Mackintosh escreveu um livro com um título péssimo em português mas que foi um thriller que adorei ("Deixei-te ir"). A história é sobre uma mulher que julgava que os pais se tinham suicidado mas que, entretanto, recebe um bilhete que diz o contrário. Um livro cheio de reviravoltas em que nada é o que parece. O Diogo diz que o livro às tantas vai perdendo o gás, quase como se a autora tivesse sentido vontade de acabar com aquilo depressa (como me revejo!)

- "Números que Contam Histórias", André Rodrigues - Um livro de cultura geral em que os números são as personagens de histórias verídicas. Exemplos? Sabia que, se o ser humano conseguisse utilizar o cérebro na capacidade máxima, armazenaria 4,7 mil milhões de livros? Ou que a Rússia é tão grande que tem 11 fusos horários, o que faz com que de um lado do país haja habitantes que se sentam à mesa para jantar quando do outro há gente a despertar de uma noite de sono? Um livro repleto de curiosidades... com números.

- "Harry Potter e os Talismãs da Morte" e "Os Contos de Beedle, o Bardo", J.K. Rowling - Nunca é tarde para ler os livros de Harry Potter e o Diogo até queria que fosse o nosso livro único numa das próximas edições. Está em análise. :)

- "A Fábrica das Bonecas", Elizabeth Macneal - Íris sonha ser artista e, um dia, acaba a ser convidada por um pintor para ser modelo. Ela aceita, com a condição de que o pintor também a ensine a pintar. De repente, o mundo de Íris transforma-se numa experiência dominada pelo amor e pela arte. Mas... (há sempre um mas) tudo pode ruir porque há encontros que podem mudar tudo, ainda que pareçam não ter qualquer importância.

 

Prémio para o Diogo que, como sempre, levou uma mochila cheia de livros (e também porque passou uma hora e meia no trânsito para conseguir chegar ao clube )

Obrigada ao Brown's Hotel, em Lisboa, que nos recebe sempre tão bem na capital.

Obrigada ao Vila Galé Porto, que nos recebe sempre tão bem na invicta.

E, claro, obrigada à MultiOpticas, que apoia estas iniciativas literárias, sempre de olhos postos nos nossos. 

IMG_3739.JPG

10 comentários

Comentar post