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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Club de Leitura do Porto: sem Tordo mas com muitos livros e alegria

No dia a seguir ao encontro em Lisboa, rumei ao Porto para o Clube de Leitura na Invicta. Nos entretantos, fui recebendo mensagens das participantes no WhatsApp, indagando se levaria o João Tordo comigo, de surpresa. Não levava. Na bagagem, só mesmo os seus livros e boa disposição. Encomendei pizzas do restaurante Massa Fina e um vinho, houve quem levasse bolos, queijo, tostas, batatas fritas, mais vinho, sumo. Vinhos, petiscos e conversas... há coisa melhor? 

A Verónica leu um thriller que aconselha: "Verity", de Colleen Hoover. A história de uma escritora que é convidada a terminar os três últimos volumes da série de sucesso de Verity Crawford, uma autora de renome que ficou incapacitada depois de um terrível acidente. Para o poder fazer com propriedade, aceita o convite do marido da escritora acidentada para ir viver lá para casa. E é aí que descobre a biografia inacabada de Verity, com segredos arrepiantes, bem como uma série de outros acontecimentos estranhos que se passam na casa. Fica o dilema: mostrar ao marido o manuscrito ou não. Além deste, Verónica leu "Apartamento Partilha-se", de Beth O'Leary. Uma comédia romântica que junta uma rapariga despejada de casa pelo ex-namorado e um engermeiro, que precisa de dinheiro para ajudar o irmão e decide arrendar o seu apartamento durante uma parte do dia em que não está em casa. A comunicação entre os dois faz-se por bilhetinhos destinados a resolver questões domésticas. Ora, toda a gente sabe que há relações que começam por muito menos e que há muito que se pode apreender sobre alguém através de bilhetinhos. Para terminar, a Verónica ainda nos falou de "O Homem Que Não Ligou", de Rosie Walsh. Uma história inquietante de um homem por quem uma mulher se apaixona loucamente (e é recíproco) mas que desaparece sem deixar rasto. Passam-se semanas, meses e Sarah cada vez mais preocupada. Os amigos tentam convencê-la a esquecê-lo mas ela não os ouve porque tem a certeza que algo de terrível aconteceu. E um dia descobre que estava certa.
A Maria João leu o novo livro do João Tordo, "A Noite Em Que o Verão Acabou" e ficou colada da primeira à última página. Tal como eu, sentiu que queria saber o desfecho mas também lhe sabia bem degustar da escrita. Porque este não é um thriller qualquer. As personagens têm uma coerência  e uma profundidade que não dá vontade de as largar tão cedo. 

"O Cavaleiro da Armadura Enferrujada", de Robert Fisher, foi um dos livros que a Catarina leu, muito pela paixão com que a Inês falou dele, há uns encontros atrás. Uma metáfora sobre o caminho misterioso da verdade e da vida que a Catarina sublinhou, tal como tinha sublinhado a Inês, ser um daqueles a que se deve sempre voltar, em diferentes fases da existência. Além deste, a Catarina leu "O Deus das Moscas", de William Golding. Um avião despenha-se numa ilha deserta, e os únicos sobreviventes são um grupo de rapazes. Inicialmente, desfrutando da liberdade total e festejando a ausência de adultos, unem forças, cooperando na procura de alimentos, na construção de abrigos e na manutenção de sinais de fogo. Porém, à medida que o frágil sentido de ordem dos jovens começa a fraquejar, também os seus medos começam a tomar sinistras e primitivas formas. De repente, o mundo dos jogos, dos trabalhos de casa e dos livros de aventuras perde-se no tempo. Agora, os rapazes confrontam-se com uma realidade muito mais urgente - a sobrevivência - e com o aparecimento de um ser terrível que lhes assombra os sonhos. A Catarina teve de parar de ler por diversas vezes, tal a dureza das descrições. Quando terminou de o ler, quis algo mais leve e entregou-se à "Crónica dos Bons Malandros", de Mário Zambujal, que considerou uma delícia e recomendou vivamente.

A Ana Luísa leu o livro "Viagens", de Olga Tokarczuk. Gostou mas não tanto como a Marta e a Conceição, que a atropelaram e se atropelaram para lerem excertos, para comentarem passagens, para rirem ambas com um prazer visível, a ponto de, a páginas tantas, lhes perguntarmos a rir se queriam que saíssemos, para que continuassem a esmiuçar o livro mais à vontade. Para a Marta e a Conceição, o livro da Prémio Nobel foi mais do que um livro, foi um presente, um tesouro. Adoraram-no com a mesmíssima intensidade e acabaram a deixar-nos com vontade de o ler também. Bom, talvez não a Catarina, que tentou lê-lo quando fizemos um encontro dedicado à autora (podendo escolher entre esse livro ou o outro traduzido para português, Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos), e não conseguiu passar da página 20 (ou perto disso). Voltando ainda à Ana Luísa, leu também a "Antologia Breve", de Eugénio de Andrade, e comoveu-se com muitos dos poemas, em especial com o "Adeus": 

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

A Raquel trouxe "Os Otimistas", de Rebecca Makkai. Um livro que retrata o flagelo da SIDA e que nos deixa perante o cenário de horror daqueles anos, do medo, da doença e da morte. Além desse, leu "A Barata", de Ian McEwan, uma espécie de remake da Metamorfose de Kafka, mas muito actual. Uma manhã, a barata acorda e compreende que se transformou no primeiro-ministro inglês. Depois disso, Ian McEwan descreve um perturbador e sarcástico mundo ao contrário. Uma alegoria em que muitos conseguirão reconhecer os dias de hoje.

A Ana Morais leu "O Rapaz do Pijama às Riscas", de John Boyne. A história de uma amizade impossível, a história da crueldade humana e da inocência das crianças. Para a Ana, foi impressionante o autor ter conseguido escrever com a candura de um rapazinho. Também leu "Nenhum Olhar", de José Luís Peixoto, que a deliciou por ser bonito e profundo. Agora está a ler "Na Berma de Nenhuma Estrada", de Mia Couto, encantada pelo uso da língua e pela criação de novas palavras que, de tão certeiras, quase parecem existir desde sempre.

A Madalena, filha da Ana, está a ler "Harry Potter - O Cálice de Fogo", de J. K. Rowling. Apesar de já ter visto o filme, está a gostar de ler o livro. "Já sei o que vou ler, assim não há desilusões." O seu pragmatismo fez-nos rir. Já a Carolina, a filha mais nova da Ana, leu "O Manuscrito Misterioso", de Geronimo Stilton, e conseguiu, apesar dos seus 7 anos (e de ter tanto sono), fazer um belíssimo e entusiasmado resumo do livro.

"Imortal", de José Rodrigues dos Santos, foi o primeiro livro de que a Inês nos falou naquela noite.  Um romance que assusta porque fala de inteligência artificial e porque, baseando-se na pesquisa científica mais avançada, mostra como a Ciência está perto do seu maior feito: acabar com a morte. A Inês também leu "Pensa Num Número", de John Verdon. Um thriller que é basicamente isto: uma série de cartas perturbadoras chegam a várias pessoas. As cartas terminam com uma declaração inquietante: «Pensa num número qualquer até mil, o primeiro que te vier à cabeça… Repara agora como eu conheço bem os teus segredos.» Estranhamente, aqueles que recebem as cartas constatam que o remetente previu com precisão a sua escolha. Para Dave Gurney, um inspetor de homicídios recém-reformado da Polícia de Nova Iorque e amigo de um dos alvos das missivas, o que primeiro lhe pareceu um caso estranho depressa se transforma num complicado quebra-cabeças que levará a uma investigação em grande escala na busca de um pérfido assassino em série. Janeiro foi um mês produtivo para a Inês. Depois de Pensa Num Número, leu "O Poder da Justiça", de John Grisham. Rudy Baylor é um advogado recém-formado, com poucas perspetivas de emprego. Mas, inesperadamente, dá por si a representar juridicamente uma família cujo filho com leucemia viu a sua seguradora recusar-lhe o financiamento dos tratamentos. Um thriller jurídico, o que mais pode uma advogada querer? :)  Por fim (eu avisei que Janeiro foi produtivo), a Inês leu ainda "Longa Pétala de Mar", de Isabel Allende, mas não quis desvendar nada porque o emprestou, nessa mesma noite, à Conceição (e não quis estragar o prazer da descoberta no seu todo).

A Celeste foi pela primeira vez. Falou-nos da sua luta contra o cancro e do modo como as suas leituras têm sido influenciadas por essa circunstância. Para combater o medo da morte, Celeste tem-se dedicado a ler livros espirituais. E o certo é que esse medo se apaziguou. O livro que nos trouxe é o "Ser Espiritual", de Luís Portela, que a encantou por se tratar de um livro corajoso de alguém que é licenciado em Medicina e presidente de uma farmacêutica, a Bial, e que apresenta uma perspectiva diferente dos conhecimentos aceites pela cultura vigente, como forma de perspectivar o Universo a partir do nosso Eu espiritual.

 

"Eu trouxe um livro mas não quer dizer que o tenha lido", começou por dizer a Mariana, provocando gargalhadas em toda a sala. De lembrar que a Mariana (tal como o Diogo) está na universidade e a época de exames não é fácil para ninguém. "Os Imperfeitos", de Cecelia Ahern. Pelo que já leu, a Mariana está a gostar, por se tratar de uma metáfora com os dias que vivemos, em que uns se consideram perfeitos e outros, os imperfeitos, parecem ostracizados e vivem a almejar a perfeição. Mas, será que a perfeição existe? Aos olhos de quem? Mediante que regras? 

O Diogo também não terminou o seu livro (mais um em exames), mas trata-se - oh, novidade! - de uma distopia (o género preferido do Diogo). Chama-se "Três Coroas Negras", de Kendare Blake. Três rainhas herdeiras de um só trono, cada uma possuindo um poder mágico muito cobiçado. Mirabella é capaz de inflamar o incêndio mais violento ou a tempestade mais terrível. Katharine consegue ingerir um veneno mortal sem sentir os seus efeitos. Arsinoe é capaz de fazer florir a rosa mais vermelha e controlar o leão mais feroz. Mas para uma delas ser coroada rainha, não basta ter a linhagem certa. As trigémeas terão de conquistar o seu direito à coroa, lutando por ele… até à morte. Na noite em que as irmãs completam 16 anos, a batalha começa. E a rainha que sobreviver, conquistará a coroa. 

"O Cavaleiro da Armadura Enferrujada" foi lido também pela Marta, que considerou ser uma daquelas obras que toda a gente devia ler, como ferramenta de auto-conhecimento e auto-crescimento, mas confessou não ter encontrado ali nada de absolutamente novo ou espantoso. Além do "Viagens", que já vimos que foi uma espécie de epifania para ela, leu também o livro que já tinha sido sugerido numa sessão anterior "Como Não Morrer de Fome em Portugal", de Lucy Pepper, uma escritora e ilustradora inglesa que vive em Portugal desde 1999 com a sua família portuguesa e que escreveu um divertido e original livro sobre a culinária portuguesa e, a reboque, as tradições e costumes lusos que se relacionam com a mesa e com a vida em geral.

Por fim, a Conceição. Já o disse, mas vale a pena repetir: ficou, tal como a Marta, enlevada, encantada e tudo o mais que possam encontrar de adjectivação terminada em "ada" com o livro "Viagens", de Olga Tokarczuk. Se lerem por causa de uma delas e for epifânico também... digam. Se odiarem podem sempre ir ao próximo clube pedir-lhes o dinheiro do livro. Brincadeira - acho que elas não indemnizam ninguém pelas suas próprias paixões e, além do mais, a autora é Nobel, a Academia sueca deve saber o que faz. Eu, que já li "Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos" e não adorei, sinto-me muito tentada a dar-lhes ouvidos. 

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Obrigada Vila Galé Porto, pelo acolhimento 5 estrelas!

Obrigada à MultiOpticas, pelo apoio extraordinário que tem dado a esta iniciativa, quer em Lisboa, quer no Porto. 

 

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