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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Barcelona

Foram dias difíceis, estes. Houve momentos muito divertidos, muito bons, adoro cada vez mais este grupo onde tive a sorte de calhar, mas não posso negar que foram mais os momentos em que me arrependi de ter ido, em que preferia ter ficado em Lisboa a torcer por eles à distância, sem ter de ouvir a palavra maratona 250 vezes por minuto. 

Acho que só quem corre percebe.

Treinei muito para isto. Sonhei meses a fio com esta viagem, com o momento em que iria correr a maratona numa cidade que adoro, onde fui pedida em casamento, ao lado dos meus amigos e do meu marido, com quem tenho a felicidade de partilhar a vida e também estas aventuras das corridas.

Talvez se a minha lesão tivesse acontecido mais cedo eu tivesse tido tempo para me preparar melhor psicologicamente para o embate. Talvez se tivesse sido em Lisboa não fosse tão duro - ali, noutro país, o único tema era a maratona. Aquela onde todos iam... menos eu.

Além do dia da prova propriamente dito, o momento pior foi o dia em que eles foram buscar os dorsais à feira. Tentei não me pôr a chorar à frente de ninguém - a última coisa que queria era ensombrar a alegria daquela gente. Em determinado momento afastei-me um bocado, para poder descomprimir sozinha, mas o Pau apanhou-me e bastou um olhar e um "então?" para eu me desfazer. O abraço que ele me deu foi um daqueles consolos para a alma. Depois tive de sair dali depressa, que não tenho grande feitio para o masoquismo. Eles ficaram que tempos a curtir aquela alegria que se vive nestas feiras, onde todos estão imbuídos do mesmo espírtio.

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Os dias seguintes, de passeios, almoçaradas e jantaradas permitiram-me ir esquecendo aqui e além o dia D, mas estava sempre lá, nas piadas, nas conversas, nos nervos deles que iam crescendo, naturalmente.

 

O dia da maratona foi mesmo horrível. Saíram todos do hotel em grande euforia, eu fiquei no quarto a chorar. Acho que percebi, em vida, aquela coisa do "a gente morre e a vida continua igualzinha". Eu não tinha morrido, é certo, mas estava na merda, sozinha, tristíssima, e não estava lá ninguém para me dar colo. Não é uma recriminação, era só o que faltava! Todas aquelas pessoas tinham treinado para correr e aquele era o seu momento! É apenas a constatação de uma realidade. É por isso que digo que se tivesse ficado em casa ter-me-ia custado menos. Estaria rodeada dos meus filhos, da minha mãe, de outros amigos, das minhas rotinas. Ali era só eu e maratona por todos os lados. 

Vesti-me, saí, fiquei no meio da cidade sem saber muito bem para onde ir, que direcção tomar, valeu-me a Mariana da B.Simple, que vive em Barcelona (e cujo marido também ia correr) para me dizer para onde ir torcer por eles. Quando cheguei ao primeiro ponto, vibrei por cada um que ia passando: o Ricardo Martins Pereira primeiro, o Vasco e a Raquel a seguir, o Pau, depois o grupo maior: Ricardo, Zé, Ana, Xana, Pedro, Francisco, Filipa. Festejei a passagem de cada um com alegria verdadeira. Mas também é verdade que, quando me viraram costas e desapareceram pela avenida, eu fiquei a soluçar nas escadas do metro que me ia levar até ao próximo quilómetro onde iria estar a torcer.

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Fiz isto três vezes. Duas sozinha, a terceira já na companhia da Carolina, da Eunice e do David. Foi melhor com eles. Porque a Carolina é um doce e tem aquele sorriso de quem sabe exactamente o que estamos a passar mas não nos deixa afundar, porque a Eunice também foi querida e porque o David, que corre maratonas a sério, também estava lesionado e era possível perceber no seu olhar (e em algumas voltas nervosas que dava sobre si próprio) como estava roído por não estar ali a correr (obrigada David por, mesmo sem saberes, me teres feito sentir mais normal).

No final, fui ter com eles, tirei a foto de grupo contrariada (eu não corri, deixem-me lá, mas eles sempre a insistir), dei os parabéns, fiquei mesmo orgulhosa de todos, sobretudo da Xana e do Francisco, que correram a primeira maratona e da incrível Filipa, que não treinou porra nenhuma, que ia só correr 10 ou 11 km, e que nunca mais parou a não ser na meta, raça da rapariga, 42 km feitos assim como quem vai só ali fazer um treininho, se soubesse o que sei hoje não tinha treinado, não me tinha lesionado e podia ter feito a maratona com ela. :)

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Estu muito feliz por este pessoal, não escondo que foi duro mas de tudo se retiram aprendizagens e eu aprendi comó caraças com esta provação.

À noite foi o jantar comemorativo, tempo de ver fotos, vídeos, relatos, músicas, maratona, maratona, maratona, maratona, mas eu já sabia que ia ser assim e tentei sorrir o maior número de vezes possível. Não queria ser a choramingas no meio dos felizes, e sobretudo não queria que refreassem a felicidade por minha causa. Ontem ao almoço foi igual mas eles lá hão-de ter percebido que estava à beira de uma overdose de maratona e tive direito a mais um miminho (além do jantar do menisco e das t-shirts com #somostodoscocó).

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O que tenho a dizer neste momento?

Que adoro este grupo de paixão, que nunca tive tantos sentimentos tão díspares ao mesmo tempo (triste-contente-revoltada-orgulhosa-triste-zangada-contente-furiosa-deprimida-infeliz-alegre) num verdadeiro curto-circuito emocional, que estou muito feliz por todos e um bocado lixada por mim, que estou no hospital neste momento à espera de remover o estúpido menisco que me tramou os planos e que estou a contar olhá-lo nos olhos e dizer-lhe... uns quantos nomes feios. 

 

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