Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Baby M: o susto

Soubemos que vinha aí um bebé no dia 17 de Março. Três dias depois da operação do Ricardo para remover a vesícula. Foi mais ou menos um "sai um órgão, entra um bebé!" Entrei na cozinha com o teste positivo atrás das costas e a mão na boca de espanto. Nós estávamos a tentar ter um bebé já há algum tempo e só fiz o teste por descarga de consciência porque já estava em fase de não acreditar que a coisa realmente se desse, eu que sempre fui tipo coelha. O Ricardo, ainda muito convalescente, olhou para a minha cara de alucinada e perguntou um "O que foi?" logo seguido de um "estás grávida?". Ficámos abraçados na cozinha, a rir e a chorar, e nos dias seguintes parecia que andávamos nas nuvens.  Ao contrário das outras vezes, não contámos a ninguém. Talvez por estarmos à espera há algum tempo, talvez por eu ter 40 anos, talvez por tudo ao mesmo tempo, decidimos esperar (pelo menos) pela primeiríssima ecografia, aquela que mostra se o embrião está lá e se está implantado no sítio certo. Marcámos a ecografia para daí a duas semanas. Estranhamente (ou não - que eu sou um bicho dado a pensamentos esquisitos, como sabem), ia com um mau pressentimento. "Cá para mim é uma gravidez ectópica ou anembrionária". O Ricardo, acostumado aos meus presságios de ave de mau agoiro, respirou fundo e rosnou qualquer coisa imperceptível. Mas, duas semanas depois, o querido Fernando Cirurgião não encontrou o embrião. Apenas o saco gestacional. Fez duas ecografias, demoradas, minuciosas, em duas máquinas diferentes. E nada. Eu, gélida, só dizia "E então? Sou bruxa ou não sou? Eu sabia… eu sabia."O obstetra tentou pôr água quente naquele gelo. Talvez fosse ainda demasiado cedo. Podia ser só isso. Eu abanava a cabeça, cínica. Não era preciso dourarem-me a pílula. Não queria mentiras piedosas. Para mim tinha acabado tudo ali.
Não chorei. Saí de lá e só fazia piadas. Sou uma parede, quando preciso de me defender de uma dor mesmo forte. Ele estava arrasado. E não compreendia tanta frieza. Estaria eu feliz por não haver bebé? Será que, afinal, não desejava aquele filho tanto como ele, tanto como dizia desejar? Às tantas, incredulo, perguntou: "Não estás triste?"
Creio que só na noite seguinte larguei num pranto. De resto, só dormia, que é a minha outra forma de defesa contra a dor maior: durmo, apago, desligo, morro um bocadinho.
Todos os sintomas me pareciam odiosos. Partidas de mau gosto do cérebro, para me darem falsas esperanças. Mais valia ignorá-los a todos. Foram 10 dias tenebrosos. Parecia que o mundo estava suspenso. O facto de não ter contado a quase ninguém ainda piorou mais as coisas: eu sou uma pessoa de partilha. Gosto de estar feliz e triste devidamente acompanhada. Sozinha não festejo em condições, sozinha não me curo da dor decentemente.
Escrevi no blogue que estava em suspenso. Houve quem compreendesse, houve quem sugerisse que eu sofria de bipolaridade (tanta alegria primeiro, tanto desânimo logo a seguir), houve quem dissesse que eu agora era uma pessoa amarga. Ossos do ofício. Deixou de me afectar. Tinha mais com que me entreter.
Dez dias depois, nova ecografia. Fui calma. Fria como um pedaço de mármore. "Vamos lá então saber como é que vamos resolver isto". Juro que quando vi o embrião não quis acreditar. E continuei, por momentos, agarrada ao glaciar a que sempre me agarro, qual tábua de salvação: "Pois… resta saber se tem um coração a bater…" O paciente Fernando Cirurgião tratou de o pôr bem audível, o mais depressa que conseguiu. Foi muito estranho. Como é que se passa de uma temperatura negativa para um calor abrasador? Que salto intercontinental é necessário dar, para galgar os tantos graus centígrados que distam entre a tristeza e a alegria? Sorri, timidamente, um esgar de contentamento inseguro. Só depois, já cá fora, consegui rir e chorar e acreditar mais um bocadinho. Mas sempre de pé atrás. Como se restos do gelo tivessem permanecido sem derreter. Ainda assim, escrevi um post meio enigmático em que falava de como era bom voltar a respirar. Achei que era melhor não dizer mais nada. Tinha ainda pouca fé naquele embrião que tinha jogado às escondidas connosco. Criatura tão pequena e que já nos tinha deixado, a nós, dois adultos experientes nisto da parentalidade, tão absolutamente vulneráveis. Iríamos esperar pela ecografia das 12 semanas. Era mais prudente. E assim foi. E ainda bem. Porque depois deste primeiro susto ainda veio a mononucleose do Martim e o medo de que o bebé fosse atingido pelo vírus. O que viria de lá? Um filho ciclope? Uma aberração? Felizmente não passou de mais um susto passageiro.
A ecografia dos três meses, naquilo que permite revelar, deu excelentes indicadores, capazes de tranquilizar a mais assustada das mães. Ainda tenho um longo caminho de medos. Acreditem: ser o quarto não reduz nada o pavor. Pelo contrário. No meu caso agrava-os a todos. Uma espécie de lei das probabilidades: já me safei 3 vezes, se calhar é desta. Além de que sei muito mais do que gostaria de saber sobre tudo o que pode correr mal numa gravidez. Sou uma espécie de enciclopédia de tragédias ambulante. Mas, neste momento, não quero nem saber. Estive dois meses em apneia. Estou roxinha! Agora quero estar só feliz. Feliz e crente neste bebé. Sem macaquinhos no sótão. 

83 comentários

Comentar post

Pág. 1/9