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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Atenção: este post está um bocado negro (se for susceptível a um certo blues, não leia)

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Foto: Victor Bezrukov 

 

Ando aqui a atravessar uma fase complicada. O ano passado e este ano não têm sido muito felizes. Têm acontecido coisas más e eu tenho o infortúnio de ter a sensibilidade à flor da pele, de maneira que tudo é vivido com intensidade (o bom e o mau). Os 40 foram uma festa, mas três anos depois começou o descalabro.

Neste caldo merdoso em que me encontro dou por mim a sentir muitas vezes que o melhor da minha vida já passou. E que o que por aí vem já vai ser só mais ou menos (com sorte) ou muito pior do que o que já lá vai. Chamem-me dramática, derrotista, pessimista, o que queiram. Mas é o que sinto, pelo menos nesta fase. Talvez quando esta nuvem negra passar volte a acreditar em dias incríveis, mas até lá tenham paciência.

A verdade é que eu lembro-me muito bem de sentir uma felicidade do caraças durante largos anos da minha vida. Não é um pensamento mágico, daqueles que temos a posteriori e que tende a dourar o que já passou, fazendo-nos esquecer que, enquanto vivíamos esse passado, as coisas não eram tão douradas assim. Não. Eu lembro-me bem da maravilha que foi começar a trabalhar com o Pedro. Do entusiasmo vibrante que foi fazer o DNA. Da alegria de preparar o meu casamento e de comprar a primeira casa, assinar o contrato, recheá-la, dormir lá a primeira noite (e as restantes). Da felicidade de engravidar pela primeira vez e de ter um bebé para cuidar. Sentia-me imortal, invencível, capaz de dominar o mundo. Fazia trabalhos que mexiam comigo, que me realizavam, ia vários dias em reportagem e escrevia coisas de que me orgulhava, queria ser melhor, queria ser uma mãe como nunca se tinha inventado. Tinha todas as possibilidades em aberto, como um livro em branco. Só dependia de mim e da sorte. E se fui tendo sorte (e trabalho, também)! Foram anos especiais. Mesmo.

Agora... a história é outra. Tenho uma boa vida, sem dúvida. Mas... há muita coisa ruim a acontecer. Mesmo, mesmo, mesmo ruim. E, além dela, há uma certa monotonia, há aquele olhar para o espelho que nos devolve uma pessoa que, por vezes, não reconhecemos imediatamente (e que, com o passar do tempo, tende a piorar, não me lixem). Há os dias iguais uns aos outros, ainda que esteja sempre a inventar novas coisas para fazer (e se invento, e se faço coisas giras!). Mas nada parece ter assim tanto sabor, nada é assim tão excitante, até porque nos pesam as perdas que, de repente, vamos acumulando. Os miúdos crescem, o Manel para o ano já faz 18 e, se tudo correr bem, entra para a faculdade, tira a carta e vai ficando progressivamente mais distante. E depois irão os outros, em revoadas. E a saúde começa a ressentir-se, os exames trazem não sei quê, os nossos amigos queixam-se igualmente da vida, uns adoecem, outros desaparecem. E se isto é assim aos quarenta e tais, o que será aos cinquentas, aos sessentas, aos setentas.

Às vezes leio ou vejo entrevistas a figuras públicas e uma das perguntas da ordem é se as pessoas são saudosistas. A resposta é invariavelmente "não!", seguida de um "sou muito mais de olhar para a frente do que de olhar para trás!" Fica bem numa entrevista, dá aquele ar de pessoa que não estagna, que quer evoluir para sempre. Faz sentido e fica bem. É bonito. Mas sentir saudade do que passou é também uma forma de dizer que o que se viveu foi bom. Só pode ser saudosista quem teve um bom passado, caso contrário é masoquismo. Eu também olho para a frente, não me resigno e continuo sempre a pensar em outros modos de me reiventar, em voltar a ter prazer com o que faço e com quem sou. Mas se me perguntarem se sou saudosista... ah, sou. Sou mesmo. Tenho muitas saudades do que vivi, posso ficar horas a olhar para os álbuns de fotografias, e nesta fase em que me encontro tenho uma impressão muito clara de que não vêm por aí dias melhores. Repito: pode ser fruto do momento (que não é nada fixe). Mas a sensação que dá, assim fazendo um eagle eye, é que o melhor já passou. Resta fazer das tripas coração (e ter uma sorte do caraças) para o que aí vem não seja tão mau assim.

 

Nota 1: talvez daqui a uns tempos releia esta crónica e pense: "WHAAAAAAT? Estava mesmo um cocó naquela altura, caraças!" 

Nota 2: o facto de fazer anos para a semana também pode estar aqui a potenciar isto, ok? 

Nota 3: estes meus pensamentos não significam que vou pôr termo à vida, escusam de ligar para a linha SOS Voz Amiga. Gosto muito de cá andar! Mas isto nem sempre é um mar de rosas, filhos, é só isso.

Nota 4: em calhando está a fazer-me falta dar uns socos nuns sacos de boxe. Estou há duas semanas sem avirar porrada e parecendo que não uma pessoa ganha-lhe o gosto

 

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