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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Aleitamento materno

De 28 de Setembro até 5 de Outubro decorre a Semana do Aleitamento Materno. Este é um assunto de que é importante falar, mas sem fundamentalismos. Toda a tese extremada corre o risco de perder a razão e se há coisinha que é raro suceder-me é ter uma posição extremada sobre o que quer que seja. Sim, o aleitamento materno é importante. Sim, o vínculo que pode daí nascer é importante. Mas não, não a qualquer custo. E não, se consistir uma agressão para a mulher (seja porque a mama é para ela uma zona erógena e não há espaço para um bebé na área - já conheci mulheres assim -, seja porque dói e se torna insuportável, seja pelo que for) não deve ser razão para culpabilizações, para tormentos, para dedos apontados e julgadores. 

Uma amiga uma vez disse, ainda na maternidade, que queria o comprimido para secar o leite. A médica perguntou-lhe se queria ter cancro de mama. Assim. Na cara. "Quer ter cancro de mama, é isso?" Ora bem... talvez não seja este o caminho. Outra amiga foi criticada por não continuar a tentar amamentar, mesmo quando o leite saía cor-de-rosa (poupo-vos aos detalhes mas podem imaginar por que saía cor-de-rosa e as dores que esta mulher sentia).

Amamentar não tem de ser um inferno. Aliás, tem de ser o contrário de um inferno. Tem de ser bom. Tem de ser prático. Tem de ser um momento de ternura, de simbiose, de perpetuar o cordão umbilical, cá fora. Se não é... há muito leite de lata que cumpre perfeitamente o seu papel.

Comigo foi bom. E menos bom. Mas quase sempre muito mais bom que mau. Foram 4 vezes, muitos meses, por isso deu para haver de tudo.

Do Manel, o primeiro, começou mal. O hospital decidiu afastar-nos por muitas horas, em andares diferentes (eu no recobro, ele no berçário) e, com tanto tempo de ausência deram-lhe suplemento. Claro que, depois de beber uns dois ou três biberões em que o leite saía sem esforço, o bicho recusou a minha mama. Ficava para ali feito parvo, com aquilo na boca sem saber o que lhe fazer. E eu insistia, e as enfermeiras insistiam, e eu chorava e transpirava e sentia que começava já com o pé esquerdo nesta aventura da maternidade. Até que entrou de rompante uma enfermeira parteira enorme, de seu nome Capitulina, que disse:

- Minha querida! Vai para casa, despe-se toda, desliga a campainha, os telefones tudo. Mete o bebé na posição que lhe der mais jeito. Sem ouvir nenhum dos disparates que lhe dizem! É como achar melhor. Tenta uma vez. Não dá, oferece-lhe o biberão. Tenta a segunda. Não dá, oferece o biberão. À terceira, se continuar sem pegar, seca-se o leite e acabou-se! Prefiro mil vezes uma mãe feliz e sã a dar biberões uns atrás dos outros do que uma mãe deprimida a dar mama!

Foi remédio santo. Ele começou a mamar mas eu nunca mais esqueci os ensinamentos daquela mulher. Do Martim correu  tudo bem até ter feito uma mastite feia. Foi duro mas nunca parei de amamentar. Até porque me aliviava. Fiz a segunda mastite e prossegui. Só acabei quando voltei ao trabalho. Da Madalena foi tudo impecável. Dei de mamar até quase aos dois anos e só parei porque achei que ela estava a desenvolver uma adoração excessiva por mim. Dito assim parece meio tolo (qual é a mãe que, no seu juízo perfeito, não quer um filho em adoração?). Mas era demais, a sério. Era mãe para tudo, com aquele olhar meio gazeado, como se eu fosse o único ser que importava à face da terra. Rejeitava o pai, queria a mama para consolo, de maneira que achei melhor ir acabando com aquilo, até porque ela já tinha muitos dentes, e mamas e dentes é uma conjugação que - PARA MIM! (nada contra quem amamenta filhos com a dentição completa) - me arrepia um bocadito. Do Mateus voltou a correr tudo lindamente e a coisa foi terminando progressivamente, ao fim de um ano e meio, mais coisa menos coisa.

 

Para mim, o principal problema nisto do aleitamento materno é a falta de acompanhamento. Acho que muitas mulheres se sentem sozinhas, sentem isto como uma obrigação, um peso, algumas até como um tormento pelo qual têm que passar "a bem do bebé", mas não têm alguém que as ajude, que as ensine, que lhes diga que nem sempre vai ser fácil mas que, com alguma insistência, pode acabar por se tornar muito simples e prático e bom e bonito. 

Na semana do aleitamento materno gostava de deixar esta nota: era óptimo que em todos os centros de saúde, em todos os hospitais e em todas as maternidades houvesse pessoas vocacionadas para dar este acompanhamento. É utópico, eu sei, mas era mesmo bom. Não me esquecerei jamais da incrível enfermeira Cristina Flores que chega a ir a casa das mães de madrugada para as ajudar, e que está sempre lá para as "suas mamãs" com uma ternura e uma capacidade de entrega como raras vezes vi. Se houvesse muitas Cristinas Flores por aí... ah, sou capaz de apostar que havia muito mais mães a amamentar do que há. 

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 A modelo Mara Martin fez furor (e causou polémica) ao avançar na passarelle com a sua bebé a mamar

 

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