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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Ainda sobre a Joana Vasconcelos...

... aqui fica um excerto de uma reportagem que a minha amiga Anabela Mota Ribeiro fez sobre a exposição da artista em Versailles. A reportagem saiu no Público e é fantástica. Eis uma pequenina amostra desse grande trabalho:

«(...) 
JoanaVasconcelos é a primeira mulher e a mais jovem artista a expor no Palácio deVersalhes. Versailles, como ela sempre diz. Talvez por ter estudado na école française. Talvez por ter nascidoem Paris. Talvez porque tem mais sainete dizer Versailles. O mais certo: porqueos interlocutores dela dizem Versailles. Versailles é universal. Versalhes,não.
Comoé que ela chegou lá? “Só consigo chegar a Versailles porque Portugal me apoioue porque levo o melhor de Portugal”. O país está no centro do seu discursoartístico. Le pays c’est moi? Opresidente Cavaco falou em Joana no discurso de 25 de Abril. Um ano e meio detrabalho são traduzidos numa exposição-embaixada que pode ser vista a partir de19 de Junho.
Primeirodia de Junho, 18 dias antes da inauguração. O atelier parece subitamentedesolador. De manhã havia ainda marcas de pó desenhadas no chão, resquícios daagitação dos últimos meses. A um canto estão os castiçais que são tambémporta-garrafas, “estruturas verticais gémeas, que resultam da acumulação demilhares de garrafas de champanhe iluminadas do interior”, lê-se na descriçãofeita pela artista. “Alguém sabe quantas garrafas são?”. À volta de cinco mil.
Aobra, uma hommage-piscadela de olhoao célebre porte-bouteille de Duchamp,será instalada nos lagos rectangulares do Parterre d’Eau. As garrafas são dechampanhe porque destinam-se a França. Seriam de sake no Japão. De cerveja naAlemanha. De vinho, em Portugal (a primeira declinação da obra, Néctar, feita em 2007, pertence àcolecção Berardo).
Oscastiçais são a última peça que resta no atelier, entre o Tejo e o Museu doOriente. Um espaço onde há espaço para tudo. Deitados no chão, desmembrados,parecem um corpo que jaz. Ou então era a melancolia que se detectava no ar eque resultava do espaço deserto. O grosso da equipa estava fora. Trabalham aliem permanência 25 pessoas. “Vieram mais cinco dar uma forcinha” nos últimostempos. Daí a dois dias partiriam para Versailles.
Joanaestá na secretária cor de laranja, posicionada no coração do atelier. Visívelda porta de entrada. Graceja, diz que está a ver o expediente. Atrás de si, umapega de cozinha, em tamanho gigante, tricotada – peça de 2002. Está a dar umaentrevista em modo relax. As interrupções são consentidas.
Umassistente mostrou uma imagem do garrafão e do bule, em ferro forjado, oxidado,“como se estivesse lá desde sempre”. As obras, à entrada do Parterre du Midi,“surgem como representações do homem e da mulher”. Madame de um lado, monsieur dooutro. São as primeiras a ser montadas em Versailles e a imagem acabou dechegar. E por isso, ela tem de saber. A máquina está oleada, muito bem oleada. Epor isso, ao mesmo tempo que desenha num caderno de capa dura, ao mesmo tempoque responde de modo articulado, pergunta a que horas o camião vem buscar oscastiçais.
JoanaVasconcelos controla tudo. Faz, sabe fazer, manda fazer. Como quem respira. Ouseja, aparentemente sem esforço. Sem esbracejar e ameaçar que vai ter umasíncope. Como é que ela consegue? “É uma ginástica. É a chamada versatilidade”. 
Aentrevista prossegue. Joana veste uma longa túnica de linho, uma flortricotada, as unhas cor de tijolo. Ouvem-se desde a sala do lado Clarice e Ui,os pássaros, um amarelo, um azul. Não se ouvem as agulhas de crochet. Não seouve o barulho da metalurgia. Quem está? Nuno Barão, “Baronette”. (No atelierninguém é chamado pelo nome. Joana é facilmente “Juanita”. Ana Pedro,responsável pela engenharia financeira, é “a ministra” das finanças.)
Barãoé o assistente pessoal que estende um rebuçado, um extraordinário rebuçado: “Quemé que tem duas malas Louis Vuitton à espera na loja da avenida [da Liberdade]?”.A artista é patrocinada pela marca. Nos dias de Versailles, entre uma visita guiadae uma entrevista, andará com elas. O sucesso de Joana Vasconcelos confirma queas portuguesas em França deixaram de ser a concièrgeque usa uma valise en carton. Portanto,será uma valise Vuitton. 
(...)»

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