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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Ah, que saudades eu tinha de um comentário destes...

«Really?! Quando temos os valores invertidos não há mesmo nada a fazer. Pôr em risco a vida de um filho que ainda nem nasceu pela futilidade de umas férias?! E não venha com a conversa dos seus filhos e marido não terem férias, porque para este a prioridade deveria ser o bem estar do filho, e as crianças iam ficar tristes, talvez até chorar mas tudo isso passa. Além disso todos já tiveram férias foram a Marrocos, fim‑de‑semana no algarve, casa dos avós, campo de férias, praia, não se pode dizer que seja uma família que passe o ano inteiro fechada em casa a ansiar por 2 ou 3 semanas de férias no verão.
Por isso acho muito triste esta falta de consciência relativamente a um ser completamente indefeso, e espero, pelo bébé que não tem culpa do que lhe calhou em sorte, que corra tudo bem e que estas férias não se tornem num pesadelo e num sentimento de culpa para o resto das vossas vidas.»

A Maria Borges é ou não é um docinho de pessoa?
Vamos então escalpelizar um pouco este comentário tão simpático:

1 - A Maria Borges aparentemente conhece o meu caso clínico a fundo. Pelos vistos, ela sabe mais que o meu obstetra, que por acaso é director de Obstetrícia do Hospital São Francisco Xavier. A Maria Borges viu o meu útero, o meu colo do útero, o meu bebé e até o meu pipi e, por isso, pode opinar com toda a propriedade sobre esta tresloucada vinda para o Algarve. O meu obstetra, grande inconsciente, deu-me ordem de vir de férias, disse que podia, que não havia risco de parto iminente, que ia correr tudo bem desde que cumprisse as suas indicações. Mas a Maria Borges está em poder de outro tipo de informações, muito mais acuradas. E, para ela, isto que eu fiz foi uma verdadeira barbárie e um atentado contra o meu filho por nascer. Venha a CPCJ! Prendam-me ou retirem-me todos os meus filhos, que não mereço menos que isso. E, já agora, enjaulem também o Dr. Fernando Cirurgião, que o que ele fez foi um verdadeiro atentado à Medicina Obstétrica em geral. Como é que deixam gente desta exercer, céus? Como?

2 - Para a queridíssima Maria Borges, eu tenho os valores invertidos por querer algo tão fútil como umas férias em família. Realmente, onde é que eu estava com a cabeça? Passar duas semanas com os filhos, dar-lhes atenção 24 sobre 24 horas, brincar com eles, ter bons momentos em família??? Preocupar-me com o descanso do meu marido, que passou um ano a trabalhar como um demente????Mas que palhaçada vem a ser essa??? Que futilidade, Deus meu! 
Para esta senhora, o facto de o meu médico me ter dito que podia vir não chega. Não! Eu tinha era que ficar deitadinha, fechada entre quatro paredes, para proteger o meu filhinho indefeso. Mesmo que não fosse preciso! Os outros três? Que se lixassem, ora então! Não foram já a Marrocos??? Não estiveram já em casa dos avós e num campo de férias??? Menos, meus meninos! Muito menos, então que garganeirice vem a ser essa???

3 - A Maria Borges conhece a fundo a minha vida de rambóia e acha um excesso estas semanas em terras algarvias. «Não se pode dizer que seja uma família que passe o ano inteiro fechada em casa a ansiar por 2 ou 3 semanas de férias no verão». É isso. Os fins-de-semana chegam muito bem. E aquela semana com as crianças em Marrocos também já está de bom tamanho. Há gente que quer tudo! Não se lhes pode dar a mão que querem logo o braço todo!

4 - Por último… o final! O grande final do seu comentário! Tão bom que é praticamente antológico. Do melhorzinho que já vi por aqui. Passo a repetir, que podia ter-vos escapado alguma parte: «Por isso acho muito triste esta falta de consciência relativamente a um ser completamente indefeso, e espero, pelo bébé que não tem culpa do que lhe calhou em sorte, que corra tudo bem e que estas férias não se tornem num pesadelo e num sentimento de culpa para o resto das vossas vidas.» 
Na verdade, o que a Maria Borges diz nesta poética frase, ainda que disfarçado de "oxalá não te aconteça" é, nada mais nada menos que: desejo que o teu bebé nasça mesmo aí na praia e que morra de tão prematuro que é para aprenderes a lição e viveres o resto da vida com essa culpa em cima dos ombros. 
Só tenho uma coisa a dizer-lhe: acha mesmo, depois deste seu comentário, que eu é que tenho os valores invertidos? Ai, Maria Borges, Maria Borges… Desejo-lhe muita, muita sorte na vida. Vai precisar. Porque com tanta maldade no coração só mesmo a sorte lhe pode valer. 

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